
Casa construída em terreno público na Zona Leste de São Paulo após limpeza e cercamento financiados pela Prefeitura (Foto: Instagram)
A prefeitura de São Paulo financiou a limpeza, terraplanagem e cercamento de um terreno municipal onde, posteriormente, foi erguida a casa de um ex-assessor do então vereador Gilson Barreto, do mesmo partido do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
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A primeira fase do serviço foi custeada por uma emenda de Barreto, enquanto a Subprefeitura de São Mateus, liderada por seu genro, tomou a iniciativa de construir um muro ao redor do terreno, atualmente uma residência particular em área pública.
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Uma denúncia sobre a invasão foi registrada na prefeitura no ano passado, mas não há registros de que a administração municipal tenha iniciado qualquer processo para recuperar a área invadida. Questionada na quinta-feira (23) sobre o caso, a prefeitura solicitou mais tempo para apurar a situação e, na sexta-feira (24), afirmou que realizará uma fiscalização.
João Alexandre da Silva Filho, residente no local desde pelo menos 2023, trabalhou como assessor de Barreto na Câmara e, após deixar o cargo oficialmente, continuou a representar o vereador em eventos comunitários. Ele preside uma ONG que quadruplicou seus contratos durante a gestão Nunes, recebendo R$ 11,6 milhões da prefeitura apenas no ano passado.
Em 2025, Nunes sancionou uma lei que incluiu a ONG, responsável pela gestão de escolas municipais de educação infantil, entre as entidades carnavalescas que podem se beneficiar de uma legislação de 2019 que concede terrenos por 40 anos para atividades de escolas de samba. A ONG já solicitou a concessão do terreno público onde fica a casa de seu presidente até 2066.
Quando contatada pela coluna, a ESEIS encerrou a conversa ao saber que o colunista buscava informações sobre a construção da casa em terreno público. João Alexandre e Gilson Barreto não responderam às mensagens enviadas pelo Whatsapp, nem atenderam as ligações.
DE TERRENO BALDIO A CASA DE EX-ASSESSOR
A área na rua Julio Cesar Moreira, próxima à avenida Sapopemba, na zona Leste, era um terreno baldio até 2019, quando Barreto destinou uma emenda de R$ 170 mil para a construção de um “salão multiuso” de 100m². O projeto incluiu preparação, nivelamento, remoção de entulho e limpeza de vegetação de todo o terreno de 312 m².
Em outro contrato, o então subprefeito de São Mateus, Roberto Bernal (MDB) – genro de Gilson Barreto na época –, solicitou a construção de um muro ao redor do terreno, que faz esquina com uma viela, com o objetivo de impedir invasões. A prefeitura pagou R$ 38 mil pelo serviço.
De acordo com o histórico do Google Maps, em março de 2021, a área já estava cercada e o “salão” construído. Dentro do terreno, havia uma pilha de blocos de concreto. Em março de 2022, o Google registrou a casa particular já construída com o mesmo tipo de material usado na primeira obra.
Em abril de 2024, a ocupação particular já era evidente, com o muro pintado de outra cor, numeração exclusiva e o terreno dividido em dois: um com o salão, outro com a casa. No meio, uma cerca de arame farpado, separando a área municipal da casa particular. Uma placa indicava que ali funcionava um serviço de xerox e uma empresa de tecnologia, ambos de Antônio Felix Filho.
Felix afirmou à coluna que alugava a casa de uma pessoa ligada à associação Esperança Sociedade de Educação e Inclusão Social (ESEIS), para quem prestava serviços de manutenção predial. A ONG, oficialmente dirigida por João Alexandre, mantém contratos com a prefeitura para gestão de várias creches na região, recebendo cerca de R$ 1 milhão por mês.
Ele se recusou a revelar o locatário. “Tem uma pessoa, o mantenedor, que não apareceu. Eu não quero me envolver com isso, não. Não tenho mais nenhuma ligação com eles há dois anos”. Moradores afirmam que o “salão multiuso” construído pela prefeitura não tem uso público frequente. É nele que fica a sede da ESEIS, com autorização anual da subprefeitura de São Mateus, sob a condição de realização de eventos comunitários.
Já a outra casa no mesmo terreno, no número 76 da rua Julio Cesar Moreira, tornou-se a residência de João Alexandre, conforme ele informou à prefeitura em documento de agosto de 2023, declarando-se domiciliado naquele endereço.
Em nota, a Subprefeitura São Mateus informou que realizará uma fiscalização no imóvel mencionado na reportagem e, caso sejam constatadas irregularidades, providências serão tomadas, incluindo possível reintegração de posse. “No momento, está em análise pela Secretaria Municipal de Gestão (SEGES) a cessão da área à associação, diante da publicação da Lei n°18.229/25”, informou a administração municipal.
A lei mencionada, originada de um projeto enviado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) em 2018, autoriza a doação de várias áreas públicas. Na véspera da votação, no final da última legislatura, em dezembro de 2024, Barreto apresentou emenda para incluir a ESEIS entre as beneficiárias de um artigo de uma lei de 2019 que visa beneficiar “agremiações carnavalescas” com a concessão de áreas públicas.
Apesar de a ESEIS não promover atividades carnavalescas, atuando como gestora de creches terceirizadas da prefeitura, a proposta foi incluída no substitutivo do então líder do governo Nunes, Fábio Riva (MDB), aprovada em plenário e sancionada pelo prefeito em janeiro de 2025. O terreno municipal autorizado a ficar 40 anos com a ESEIS é exatamente onde o ex-assessor de Barreto – autor da emenda – construiu sua casa.






