Defesa de Bolsonaro alega desconhecimento de vídeo com IA, Flávio acusado de “deep fake”

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Chapeleiro Maluco questiona a lógica política (Foto: Instagram)

Já leu "Alice no País das Maravilhas?", de Lewis Carroll? Se não, recomendo. Uma das possíveis interpretações é a de uma menina racional tentando entender o caos através da lógica. É uma leitura divertida.

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Em uma cena famosa, o Chapeleiro pergunta a Alice: "Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?" e insiste: "Decifrou o enigma?" Irritada, ela diz: "Não. Desisto. Qual é a resposta?" Ele responde: "Não tenho a menor ideia". Carroll, pressionado por leitores, criou uma explicação com um trocadilho em inglês, mas isso já é literatura pura — e não é o foco aqui. Estamos falando do absurdo, e o tema é política.

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Diferente do que sugeriu o Datafolha, o ministro Alexandre de Moraes nunca proibiu um filho de visitar o pai. Perguntada dessa forma, é natural que a maioria discorde. O que foi vetado é que um candidato, sob o pretexto de ser advogado, visite um custodiado para burlar uma medida cautelar — como no caso da carta transformada em vídeo.

Agora, foi utilizada IA para criar um vídeo — com imagem, voz e conteúdo característicos do condenado — exibido na Convenção do PL. Nenhum advogado razoável, incluindo os de Bolsonaro, pode negar que isso é mais uma violação das medidas cautelares impostas a Bolsonaro, que está em prisão domiciliar por razões humanitárias.

A defesa do ex-presidente alega que ele não sabia que Flávio usaria tal recurso, evidenciando que, embora impedir a visita de um filho ao pai não seja ideal, bloquear o contato de um candidato com o ex-presidente pode protegê-lo das artimanhas do candidato.

Se a defesa tivesse certeza de que tudo foi feito corretamente, certamente sustentaria isso em alinhamento com o cliente. No entanto, admitir que o preso domiciliar sabia do que ocorreria seria o mesmo que dizer: "Ignoro a Justiça. Faço o que quiser!"

A defesa do condenado escreveu: "[Bolsonaro] não autorizou o uso de sua imagem e voz para o vídeo feito com inteligência artificial mencionado na decisão. Aliás, nem poderia fazê-lo. Conforme determinado por este Juízo em 17.07.2026, o Peticionário está com o direito de visitas suspenso por 30 dias, enquanto seu filho Flávio Bolsonaro está impedido de visitá-lo por 90 dias (…)"

Nota gramatical à defesa: deve-se escrever "nem sequer". "Sequer", sozinho, significa "pelo menos" ou "ainda". Alguém pode argumentar: "Li que gramáticos hoje aceitam…" Não sou de "hoje", mas de sempre. Adiante.

E Alice? Estamos diante do diálogo do Chapeleiro Maluco e outros seres alheios à lógica, com quem a menina compartilha o chá mais estúpido de sua vida.

Em tempos normais, qualquer um perceberia: "A defesa de Bolsonaro não vai dizer que o candidato, também filho, teve a audácia de enganar o pai de novo, né?"

A resposta, para surpresa deste país que é maravilha e horror, é: "Sim, vai". Por quê? Porque a lógica, a que Alice se agarra, e os fatos não importam para o proselitismo reacionário.

Se admitirem que tudo foi feito sem o conhecimento de Bolsonaro, a defesa do ex-presidente informa ao Tribunal Superior Eleitoral, sem contestação, que aquilo foi realmente "deep fake".

Caberá a Moraes avaliar a resposta da defesa de Bolsonaro. Não acredito que ele ignorasse as artimanhas do filho, e cabe ao juiz defender a sociedade, mas com uma reação proporcional. Creio que o ex-presidente está muito doente e deve continuar em domiciliar — a extrema direita o quer preso e, de preferência, morto antes das eleições. Que mártir seria! Mas é preciso preservar a sociedade. Que os 30 dias restritos a advogados e médicos se tornem 90, o mesmo que vale para Flávio.

E que o TSE decida o que fazer: é Bolsonaro, a personagem do vídeo, quem diz a Kássio Nunes Marques: "Fui enganado. Aquilo é 'deep fake'." Veja lá, hein, Kássio?! Eu e você somos do Sindicato dos Cabeçudos. Não nos cabe fazer charadas malucas. Nem dar respostas sem sentido.