
Um barco solitário na imensidão do mar – a jornada eterna de Ulisses (Foto: Instagram)
Três anos após me tornar pai, deixei de ler livros infantis para meu filho antes de dormir. Ele estava desenvolvendo a fala, e o ritual noturno se transformou em um momento de conversa. Assim, no quase-escuro, com uma luz suave no quarto, falávamos sobre trivialidades, linguística e o dia a dia. Até que, certo dia, a sociabilidade humana se manifestou nele e ele me pediu: “Papai, me conta uma história?”.
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Já deitados, a última coisa que eu queria era voltar aos livros infantis, então a única fonte de histórias que me veio à mente foi A Odisseia, o poema épico de Homero que li no ensino médio. Li apenas uma vez, 23 anos atrás, mas muitas daquelas aventuras ressurgiram, com suas figuras mitológicas: ciclopes, sereias, hidras e feiticeiros. Nos dias seguintes, contei uma história por noite, preenchendo as lacunas da memória de maneira livre e adaptada para meu filho. (Na história da feiticeira Circe, por exemplo, os soldados são transformados em porcos após um banquete; Ulisses escapa porque é o único que vai lavar as mãos…)
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Meu filho adorava as histórias e passava anos pedindo por elas, referindo-se a cada uma pelo nome dos monstros. Fiquei surpreso com minha memória e com o fato de tudo isso estar adormecido no subconsciente por tanto tempo. Não deveria, pois A Odisseia está presente em todas as outras histórias. É a base sobre a qual o cânone ocidental foi construído. Além disso, a aventura de uma jornada é até hoje um pilar da mitologia literária em qualquer país. No Brasil, Guimarães Rosa utiliza outra metáfora em Grande Sertão: Veredas. Travessia.
Vou levar meu filho, agora com 9 anos, ao cinema para assistir à versão de Christopher Nolan. Até hoje ele só conhece a minha versão, que é divertida, mas suaviza muito da complexidade humana, especialmente de Ulisses. Um dia ele me perguntou o que Ulisses fazia tão longe de casa e eu disse que ele tinha ido lutar em uma guerra.
“Pai, o que é guerra?” Às vezes, presumimos que as crianças entendem os mesmos conceitos que nós.
Busquei, novamente no escuro, uma forma de explicar um conceito tão complexo de maneira honesta. Expliquei que guerra é uma briga, mas muito pior, pois envolve milhares de pessoas; é a pior invenção humana, pois destrói tudo ao redor, incluindo pessoas, animais e cidades inteiras; quem inicia uma guerra não luta nela, mas manda outros, que geralmente não têm escolha. Disse a ele que a cidade de Troia, que nunca existiu, tinha existido e foi completamente destruída, por isso desapareceu do mapa.
Não me preocupei com a aparente contradição de Ulisses fazer parte disso e ainda ser considerado um herói. Que tipo de herói vence uma guerra trapaceando? Que retorna para casa após vinte anos, mas sem nenhum dos soldados que comandava, mortos por ofender Poseidon? Essas questões estão na adaptação de Nolan, traçando um paralelo entre o cavalo de Troia e a bomba atômica de seu último filme, artefatos bélicos que marcam o fim de suas eras. (Nisso, o filme não é muito bem-sucedido, visto que Nolan não consegue evitar o final da história. É o momento mais épico da literatura ocidental, envolvendo arco e flecha. Nem uma adaptação revisionista conseguiria evitá-lo.)
Tudo em A Odisseia é assim–o texto evolui conforme amadurecemos, à medida que nosso entendimento sobre a condição humana, que não muda desde sempre, se expande. Tudo é mais complexo do que parece. Ulisses é um herói, sim, mas passa grande parte do tempo fugindo dos perigos. Ele enfrenta os desafios, mas frequentemente foge. Talvez aí resida um dos atos mais heroicos possíveis: a determinação em persistir, sobreviver. Se os eventos da história ocorrem à vontade dos deuses, é o máximo que meros humanos podem fazer.
Esta travessia é uma parábola sobre as consequências, tanto da guerra quanto da arrogância, transgressões que caminham juntas. No entanto, se retirarmos toda a sua complexidade, vemos, em sua forma mais simples, algo que ressoa em todos nós: um homem tentando voltar para casa. É por isso que a história se manteve e se reapresentou por mais de 2.700 anos. A busca de Ulisses é a busca de todos nós, o eterno retorno. É o instinto primordial que buscamos desde que fomos expulsos do lar mais seguro de todos, o útero materno. É a ilusão que nos engana quando pensamos que já fomos felizes e não sabíamos. É a lembrança de tempos passados. É o sonho de sair pelo mundo e voltar para contar histórias, talvez para nossos filhos, na hora de dormir.
Os gregos, que escreveram A Odisseia, criaram uma palavra para isso. Nostalgia.






