
De Lula a Trump e Xi: a geopolítica na corrida presidencial de 2026 (Foto: Instagram)
As eleições presidenciais no Brasil, agendadas para outubro de 2026, transcendem a tradicional disputa entre candidatos e propostas de governo. No contexto da corrida ao Palácio do Planalto, o país enfrenta uma crescente pressão internacional, envolvendo interesses econômicos, diplomáticos e geopolíticos.
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O processo eleitoral deixou de ser apenas um tema interno, tornando-se parte da disputa entre grandes potências e blocos internacionais. Nos últimos meses, o Brasil tem enfrentado uma série de eventos que ilustram essa mudança.
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Os Estados Unidos ampliaram sanções comerciais contra produtos brasileiros, intensificaram críticas às instituições nacionais e demonstraram proximidade política com o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência. Paralelamente, a China reforçou sua parceria econômica e diplomática com Brasília, enquanto a União Europeia acelerou a implementação do acordo comercial com o Mercosul. Em países vizinhos, governos alinhados ao presidente norte-americano Donald Trump, como Argentina e Paraguai, também passaram a protagonizar conflitos com o Palácio do Planalto.
Especialistas consultados pelo Metrópoles acreditam que, pela primeira vez, a política externa tende a ser central no debate eleitoral brasileiro. "A eleição brasileira de 2026 ocorre em um contexto muito diferente dos pleitos anteriores. Pela primeira vez desde a redemocratização, a disputa presidencial está profundamente inserida em uma competição geopolítica global", afirma o professor de Geografia Humana da UERJ, Vitor de Pieri.
De acordo com ele, o Brasil deixou de ser apenas um observador das transformações internacionais para ocupar uma posição estratégica na disputa entre Estados Unidos, China e outros centros de poder. "Essa pressão externa não deve ser vista necessariamente como uma tentativa explícita de interferência eleitoral, mas como a intensificação de esforços para influenciar decisões estratégicas do futuro governo."
O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou, na quinta-feira (30/7), seu receio de que o governo de Donald Trump tente interferir nas eleições presidenciais deste ano. "Eles vão tentar interferir aqui. Vão tentar ajudar o lado de lá a ganhar as eleições", afirmou.
Lula mencionou ter uma boa "relação pessoal" com Trump, mas acredita que o presidente norte-americano prefere uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL). O petista também destacou a influência do secretário de Estado, Marco Rubio, na Casa Branca, com quem teve desentendimentos recentemente.
O principal foco das tensões vem da relação entre os governos de Lula e Trump. Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, os dois países têm acumulado embates diplomáticos e comerciais. O governo norte-americano elevou tarifas sobre produtos brasileiros, iniciou investigações comerciais contra o Pix e classificou as facções brasileiras PCC e CV como grupos terroristas.
A escalada coincidiu com a aproximação entre Trump e Flávio Bolsonaro. O presidente norte-americano declarou apoio público ao senador e o recebeu na Casa Branca no período em que anunciava novas medidas contra o governo brasileiro.
Nos bastidores, a tensão também atingiu o campo eleitoral. Reportagem do The Washington Post revelou que dois representantes do governo norte-americano planejavam viajar ao Brasil para questionar a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro antes do pleito. A viagem foi frustrada após o Itamaraty negar os vistos diplomáticos.
O episódio gerou reação inclusive dentro dos Estados Unidos. Integrantes democratas do Comitê de Relações Exteriores do Senado americano acusaram o governo Trump de disseminar teorias conspiratórias sobre as eleições brasileiras. Em nota conjunta, os parlamentares afirmaram que levantar dúvidas infundadas sobre processos eleitorais "mina a confiança na democracia" e prejudica aliados internacionais dos Estados Unidos.
Enquanto enfrenta embates com Washington, o governo brasileiro também vive uma sequência de desgastes diplomáticos com países vizinhos alinhados politicamente a Trump. Nesta semana, o Paraguai convocou o embaixador brasileiro em Assunção após declarações de Lula sobre a Guerra do Paraguai. O governo paraguaio classificou as falas como ofensivas e o Congresso local aprovou uma manifestação de repúdio contra o presidente brasileiro.
Dias antes, a Argentina havia provocado outra crise diplomática. Durante a convenção do Partido Liberal (PL), em São Paulo, o presidente Javier Milei participou do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e fez ataques a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos e chamou de volta, para consultas, o embaixador brasileiro em Buenos Aires.
Para analistas, a aproximação entre governos conservadores da América do Sul e o movimento liderado por Trump reduz o isolamento internacional da oposição brasileira e cria novas formas de articulação política além das fronteiras nacionais.
Se os Estados Unidos representam o principal vetor de pressão, China e União Europeia aparecem como polos de apoio da política externa brasileira. Após as sanções comerciais impostas por Washington, Pequim ampliou a compra de produtos brasileiros, credenciou empresas nacionais para exportação de café e aprofundou acordos nas áreas de inteligência artificial, infraestrutura, minerais críticos e integração financeira.
No campo diplomático, o presidente Xi Jinping reiterou apoio à soberania brasileira durante conversa com Lula e reforçou o papel do Brasil como parceiro estratégico do BRICS. Já a União Europeia avançou na implementação provisória do acordo comercial com o Mercosul, apesar de resistências de alguns países europeus. O tratado abre novos mercados para produtos brasileiros, mas também estabelece mecanismos de salvaguarda que permitem restrições caso normas ambientais ou sanitárias sejam consideradas incompatíveis.
Na prática, o futuro governo brasileiro terá de administrar interesses muitas vezes conflitantes entre Washington, Bruxelas e Pequim.
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Clayton Pegoraro, tentativas de influência estrangeira sempre existiram, mas ganharam novas ferramentas na era digital. "Isso pode acontecer por meio das redes sociais, de taxações comerciais, de revogação de vistos. Sempre haverá forças políticas e geopolíticas tentando influenciar outros países. Do ponto de vista do Direito Internacional, isso pode ser ilegítimo, mas faz parte da dinâmica das grandes potências", afirma.
Na avaliação do especialista, entretanto, o centro da campanha continuará sendo a agenda doméstica. "Acredito que o debate eleitoral permanecerá muito mais concentrado em temas internos, como economia, emprego, corrupção e crescimento do país. O eleitor tende a avaliar prioritariamente essas questões", diz.
Já na avaliação de Vitor de Pieri, a principal novidade da eleição de 2026 não está apenas nas pressões internacionais, mas na incorporação definitiva da geopolítica ao debate político brasileiro. Segundo ele, o risco é que a política brasileira passe a reproduzir disputas ideológicas importadas, deslocando o foco dos interesses estratégicos nacionais.
"A eleição de 2026 não representa apenas uma disputa entre candidatos ou programas de governo. Ela também envolve diferentes concepções sobre o lugar do Brasil na ordem internacional", afirma. Na avaliação do pesquisador, o desafio para o próximo governo será preservar autonomia estratégica, diversificar parceiros comerciais e manter capacidade de negociação simultânea com diferentes polos de poder.






