
Beleza artificial que beira o desconforto (Foto: Instagram)
Em 1970, o engenheiro de robótica japonês Masahiro Mori introduziu o conceito do vale da estranheza: quando um personagem animado ou robô possui características semelhantes às humanas (como a forma de caminhar, o número de dedos e detalhes faciais), mas não é exatamente humano, tendemos a sentir empatia por ele. No entanto, quando essa semelhança se torna "perfeita demais", mas com falhas artificiais, geralmente sentimos estranheza e até repulsa.
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A ideia proposta por Mori ainda é uma hipótese e não foi comprovada cientificamente. Contudo, até hoje, ela guia a maneira como as grandes produtoras de filmes desenvolvem suas criações.
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“Quando assistimos a filmes de estúdios como Disney e Pixar, geralmente conseguimos nos conectar emocionalmente com os personagens porque eles não tentam imitar um ser humano de maneira completamente realista”, esclarece o neurocientista Leandro Freitas Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Especialistas consultados pelo Metrópoles afirmam que ainda não há uma explicação definitiva para as reações descritas pelo vale da estranheza. No entanto, uma das teorias mais aceitas envolve o funcionamento do cérebro humano.
“Nosso cérebro é altamente especializado em reconhecer rostos, expressões faciais e movimentos humanos. Fazemos isso automaticamente o tempo todo. Quando encontramos um personagem que parece humano, esperamos que todos esses sinais sejam consistentes; se houver alguma discrepância, isso gera a sensação de que algo está errado”, explica a psicóloga Flavia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras.
Atributos como olhos que não acompanham a expressão, sorrisos mecânicos ou movimentos pouco naturais causam inconsistências ao cérebro. Quando vemos expressões ou movimentos que não correspondem ao que esperamos, há um conflito entre o que o cérebro previu e o que está sendo observado.
“Esse erro de previsão aumenta a atividade das redes cerebrais envolvidas no processamento social e emocional. Como resultado, surge uma sensação de estranheza e desconforto porque o cérebro não consegue classificar rapidamente o que está vendo”, ensina Oliveira.
HIPÓTESES EVOLUTIVAS PODEM EXPLICAR O VALE DA ESTRANHEZA
De acordo com os especialistas, o funcionamento do cérebro pode estar relacionado a adaptações evolutivas ao longo do tempo. No passado, sem os recursos atuais, nossos ancestrais usavam sinais visuais para prever doenças, risco de morte ou alterações físicas.
Com o tempo, a habilidade de reconhecer sinais foi adaptada. “Algumas características presentes em personagens quase humanos, como pele com aspecto estranho, olhar sem vida ou movimentos rígidos, lembram, ainda que de forma inconsciente, esses sinais usados antigamente”, relata Flavia.
Outra hipótese é que o cérebro humano tenha evoluído para identificar rapidamente quem pertence ao nosso grupo e quem pode ser uma ameaça. Quando há “humanos artificiais” em filmes, fica mais difícil determinar a qual espécie ele pertence, aumentando a sensação de alerta no corpo.
“Essas explicações são hipóteses apoiadas por diferentes estudos, mas ainda não existe uma resposta definitiva sobre a origem do fenômeno”, ressalta a psicóloga.
A IA PODE AJUDAR A DIMINUIR O DESCONFORTO DO CÉREBRO HUMANO?
Com o avanço da inteligência artificial, a tendência é que a criação de personagens quase humanos se torne cada vez mais precisa, reduzindo os atributos que causam repulsa.
Mesmo assim, como o nosso cérebro é extremamente sensível a qualquer imperfeição, por menor que seja, as tecnologias precisam ser muito refinadas para não causar estranhamento.
“O nosso sistema nervoso foi preparado justamente para observar e classificar rapidamente o que está vendo. Superar completamente o vale da estranheza continua sendo um desafio tecnológico e, talvez, também um desafio para a própria neurociência”, pondera Oliveira.






