O que perguntei a Fidel Castro em Havana há quase 40 anos

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Fidel Castro discursando em Havana durante recepção à comitiva brasileira em março de 1987 (Foto: Instagram)

No dia 15 de março de 1987, uma segunda-feira, um pequeno grupo de jornalistas e políticos embarcou em um avião Bandeirante acompanhando Abreu Sodré, então ministro das Relações Exteriores do governo José Sarney, para a primeira viagem a Cuba após a retomada das relações diplomáticas entre os dois países.

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Essas relações haviam sido cortadas um mês após a instalação da ditadura militar no Brasil em 1964, e foram restabelecidas em 14 de junho de 1986. Entre os políticos que participaram da viagem estavam os deputados federais Aécio Neves (PMDB) e Roberto D’Ávila (PDT); entre os jornalistas, Boris Casoy, Luiz Recena, Carlos Chagas, Beatriz Tilman e eu.

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Passamos pelo menos cinco dias em Havana. O encantamento de Sodré, um político conservador, por Fidel foi tão grande que ele só se referia a ele como “Comandante” e não parava de fotografá-lo com uma câmera de bolso.

– Fidel é um homem perigoso porque tem um charme pessoal tão grande que é melhor evitá-lo – comentou Sodré ao voltar ao Brasil.

Durante a viagem, ocorreram três ou quatro encontros entre o ministro e sua comitiva com Fidel. Apenas uma gafe marcou a viagem. Ao ser levado por Fidel para ver um gado de linhagem nobre nos arredores de Havana, Sodré ficou impressionado com um dos animais.

– Que bela vaca – disse ele ao líder cubano.

– É um boi – respondeu Fidel.

A assessoria de Fidel havia informado que Sodré possuía um grande rebanho no Brasil. Na verdade, Sodré tinha fazendas de café em São Paulo.

Como representante dos jornalistas, presenciei o episódio e pude ocupar um lugar na Mercedes preta e blindada que conduziu Fidel e Sodré durante o passeio. Aos pés de Fidel, havia uma pequena metralhadora.

No dia seguinte, no Palácio da Revolução, Fidel nos recebeu para um jantar suntuoso. A mesa principal estava decorada com cascatas de lagostas e camarões recém-pescados. Não me lembro dos outros pratos, mas eram muitos. Após o cafezinho e os licores, Fidel, inesperadamente, se ofereceu para uma entrevista.

Como conseguir novidades de alguém com respostas prontas e longas para todas as perguntas, mesmo as mais difíceis? Tentamos, mas sem sucesso.

Quando chegou a minha vez, e para surpresa dos meus colegas, perguntei:

– O senhor gosta de cozinhar e se gaba disso. Poderia nos dar uma receita de lagosta?

E ele deu. Anotei e publiquei no Jornal do Brasil, para o qual eu estava trabalhando ali. A receita do “chef” Fidel Castro consistia em cozinhar a lagosta em duas etapas rápidas, misturando métodos de cozimento na água e grelha (ou frigideira). Reproduzo aqui:

  1. O pré-cozimento exato

Coloque a lagosta inteira em uma panela com água fervente e sal;
O tempo deve ser milimetricamente cronometrado: exatamente de 2 a 3 minutos;
Esse processo serve apenas para firmar a carne e facilitar a remoção da casca, mantendo o interior praticamente cru e extremamente suculento.
2. O corte e a limpeza

Retire a lagosta da água fervente e dê um choque térmico em água fria;
Corte a cauda ao meio (no sentido do comprimento) e remova a veia escura (o intestino).
3. O toque final (grelhada na manteiga)

Em uma frigideira grande ou grelha bem quente, derreta uma quantidade generosa de manteiga com alho picado;
Coloque os pedaços de lagosta e grelhe rapidamente por mais 2 ou 3 minutos, apenas até que a carne mude de cor e fique levemente dourada.
Fidel insistiu que adicionar temperos pesados ou molhos ácidos (como muito limão ou tomate) arruinava o sabor delicado da lagosta.

Cometi o erro, em 16 de outubro de 2014, de publicar neste blog uma foto minha ao lado de Fidel tirada por Sodré. Fui acusado por alguns leitores de ser comunista.

Entre 2018 e 2020, a foto viralizou nas redes sociais de maneira enganosa, dessa vez associada ao ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. Um dia, bem-humorado, o ministro me telefonou pedindo:

– Noblat, informe aos seus leitores que o homem na foto é você, não eu. Não somos tão parecidos assim.

Informei, mas pouco adiantou. De vez em quando, o ministro ainda é alvo de críticas por ter sido fotografado junto a Fidel.

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