
IBGE reconhece montanhas como a Serra dos Órgãos no novo mapa do relevo (Foto: Instagram)
Durante muitos anos, a ideia de que o Brasil não possui montanhas foi ensinada em escolas e presente em materiais didáticos. O relevo do país era descrito apenas como composto por planaltos, planícies e depressões. No entanto, uma nova classificação altera essa visão e reconhece oficialmente a presença de montanhas no território brasileiro.
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A atualização foi realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em colaboração com o Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). Este trabalho estabelece critérios técnicos mais claros e resultará em um novo mapa morfológico do país, que incluirá cinco categorias principais de relevo, entre elas, as montanhas.
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Segundo o engenheiro geólogo Fernando Alkmim, professor da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a definição vai além da altitude isolada. “Montanhas são formas de relevo com elevação mínima de 300 metros em relação às áreas ao redor, com topos agudos, encostas íngremes e continuidade espacial. Não podem ser formas isoladas”, explica.
Esse tipo de formação sempre existiu no Brasil, mas nem sempre foi classificado dessa maneira. Ao longo de milhões de anos, o relevo foi submetido a intensos processos de desgaste, que diminuíram a altura das estruturas originais.
“As montanhas brasileiras são antigas e foram erodidas pela ação da água, do vento e por alterações químicas e físicas das rochas”, afirma Alkmim, que é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
O IBGE informou ao Metrópoles que os dados completos e o novo mapa serão divulgados no final de setembro, acompanhados de uma nota metodológica que detalha os critérios adotados.
ONDE ESTÃO AS MONTANHAS
Mesmo sem o novo mapa oficial já publicado, especialistas indicam que essas formações são visíveis em várias regiões do país. Cadeias como a Serra do Mar, que se estende pelo litoral do Sudeste e Sul, e a Serra do Espinhaço, que atravessa Minas Gerais e Bahia, são exemplos citados.
Também fazem parte dessa classificação áreas mais elevadas do Norte, como a região do Pico da Neblina, no Amazonas, ponto mais alto do Brasil. “Basta olhar um mapa do país para perceber essas formações”, diz o professor Geraldo Fernandes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e também membro da ABC.
Do ponto de vista científico, ele reforça que o critério de altitude relativa já seria suficiente para classificar muitas dessas áreas como montanhas. “Se adotarmos o parâmetro de 300 metros em relação à base, o Brasil possui muitas montanhas, embora nem todas estejam claramente mapeadas de forma integrada”, destaca.
MONTANHAS ANTIGAS E MAIS BAIXAS
Uma das razões para o relevo brasileiro ser menos acidentado do que o de outros países está na idade dessas formações. Enquanto cadeias como os Andes são geologicamente mais jovens, as serras brasileiras têm centenas de milhões de anos a mais.
Com o passar do tempo, a erosão atua continuamente sobre essas estruturas, reduzindo sua altitude. “O que vemos hoje pode ser entendido como o esqueleto de montanhas que já foram muito mais altas”, explica Fernandes.
Alkmim acrescenta que o Brasil está localizado em uma região geologicamente estável, sem atividade tectônica significativa recente. Diferente dos Andes, onde ainda há elevação do terreno, no território brasileiro predomina o desgaste ao longo do tempo.
IMPACTO DA NOVA CLASSIFICAÇÃO
A adoção de critérios mais objetivos tende a facilitar a análise do relevo e reduzir ambiguidades. “A classificação ajuda porque estabelece parâmetros claros”, afirma Alkmim.
Ao mesmo tempo, a mudança pode gerar dúvidas iniciais fora do meio acadêmico. Para Fernandes, o debate ainda precisa avançar entre pesquisadores e instituições.
“É importante construir uma definição mais consensual, que ajude tanto na compreensão quanto na formulação de políticas públicas”, pontua.
Isso se torna ainda mais importante porque áreas de montanha são sensíveis às mudanças climáticas e desempenham papel importante na distribuição da biodiversidade. Sem uma definição clara, a proteção desses ambientes pode ficar comprometida.







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