
Queima de plantio clandestino de maconha em área rural de Minas Gerais (Foto: Instagram)
Belo Horizonte – A logística favorável, a proximidade com o mercado consumidor do Sudeste e a dificuldade de acesso policial são fatores que explicam a escolha de áreas rurais no Norte e Nordeste de Minas Gerais para o cultivo de maconha em larga escala por criminosos.
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Essa análise é do sociólogo e especialista em segurança pública Luiz Flávio Sapori, da PUC Minas, que conversou com o Metrópoles após a descoberta de cinco grandes plantações da droga em várias regiões do estado.
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Para Sapori, a escolha dos locais é estratégica. Além de reduzir custos para o transporte da droga ao Sudeste, as propriedades mais isoladas dificultam a fiscalização policial.
“Existem fatores logísticos que podem reduzir o custo do produto para o Sudeste, além da qualidade do solo e dificuldade de acesso policial a áreas remotas”, explica o especialista.
Neste ano, operações conjuntas da Polícia Civil, Polícia Federal e Polícia Militar de Minas Gerais identificaram cinco grandes áreas de cultivo de maconha no estado. As plantações foram encontradas em cidades como Virgem da Lapa, Grão Mogol, Porteirinha, Unaí e Cachoeira do Pajeú, com cerca de 40 mil pés da droga em uma única propriedade.
A expansão do cultivo em Minas se dá em uma região com geografia estratégica. O Norte de Minas faz fronteira com a Bahia e está ligado ao interior nordestino, onde há histórico de produção clandestina de maconha.
Sapori ressalta que a existência de plantações em diferentes locais não implica necessariamente em uma única organização por trás delas.
Ele explica que o cultivo ilegal de maconha em áreas rurais não é novo no Brasil, com registros no Ceará, Pernambuco, Bahia e também no Paraguai, que abastece o mercado brasileiro.
“Há diversos pequenos ou médios produtores de maconha no Brasil, além da maconha paraguaia. Assim, existem vários fornecedores, tanto nacionais quanto internacionais”, afirma.
Segundo Sapori, a lógica é semelhante a outros mercados ilegais: quem cultiva não é sempre quem distribui. Os produtores podem atuar como fornecedores independentes, vendendo a droga para organizações criminosas que controlam a distribuição.
“O produtor, quem planta a maconha, não é necessariamente ligado a uma facção. Ele fornece um produto geralmente comprado por facções como o Comando Vermelho ou PCC”, explica.
Outra dificuldade para a polícia é identificar os verdadeiros financiadores das plantações. Sapori destaca que há diversas maneiras de estruturar esse tipo de negócio, como convencer pequenos produtores a cultivar a droga ou usar laranjas para comprar terras.
“Geralmente, o investidor compra a terra e usa laranjas para legalizar a posse com documentos oficiais”, afirma.
Essas pessoas podem ser cidadãos comuns que emprestam nome e documentos por pequenas quantias, ocultando a identidade de quem realmente investe.
Investigações em Minas devem revelar se os responsáveis pelas plantações têm ligação ou são grupos independentes. A análise de movimentações financeiras, propriedades e equipamentos pode ajudar a polícia a identificar os financiadores.
Para Sapori, a localização isolada é apenas parte da estratégia. Manter o anonimato é essencial para a continuidade das plantações.
Em áreas rurais, onde propriedades são distantes, os responsáveis pelo cultivo podem esconder a atividade ilegal entre plantações convencionais. A cannabis pode ser camuflada, dificultando a identificação.
“A planta da cannabis muitas vezes está escondida, camuflada por cultivos convencionais da região”, afirma.
A relação com vizinhos também pode ser importante. Embora a cooptação ou coerção não seja descartada, ameaças sistemáticas seriam contraproducentes para manter o negócio oculto.
“Esse tipo de empreendimento só terá sucesso se mantiver algum grau de anonimato”, diz.
As descobertas recentes mostram que esse modelo já deixou rastros em diferentes pontos de Minas. Em Virgem da Lapa, foram encontrados cerca de 30 mil pés de maconha e uma estrutura com bombas de água, equipamentos de secagem, balança de precisão e anotações sobre irrigação.
Em Francisco Sá, foram apreendidas cerca de 1,8 tonelada de maconha, além de estruturas de cultivo e processamento.
Os números ainda não indicam que Minas Gerais se tornou um grande polo nacional de produção de maconha. Mas, para Sapori, fatores econômicos, geográficos e de segurança explicam a escolha de certas áreas do estado por produtores clandestinos.
O desafio das forças de segurança não é apenas localizar os pés de maconha, mas identificar quem financia as propriedades, administra os cultivos e o destino da produção. “Isso depende muito da investigação e do trabalho de inteligência da polícia”, resume o especialista.







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