
Cartas psicografadas exibem trechos idênticos a publicações antigas em redes sociais, reforçando suspeitas de fraude (Foto: Instagram)
Em meio a um silêncio devastador e sob o peso de uma dor intensa, várias famílias depositaram suas esperanças em uma promessa de milagre. No abismo do luto, onde qualquer esperança brilha como um farol, a fé se tornou uma armadilha, questionando a capacidade mediúnica de uma das mais renomadas espíritas do país.
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Nas últimas três semanas, uma investigação do Metrópoles revelou um esquema doloroso de ilusão, abuso emocional e poder, afetando famílias no DF e em outros estados. As cartas psicografadas, supostamente especiais, seriam forjadas com informações de fontes abertas, boletins de ocorrência e, principalmente, redes sociais.
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A reportagem conversou com várias pessoas que procuraram a médium Maira Rocha, popular nas redes sociais com 757 mil seguidores no Instagram. Os relatos são alarmantes: há trechos copiados de perfis e textos desconexos, como a menção de espíritos de pessoas ainda vivas. Maira chegou a inventar nomes e fatos inexistentes.
Em um caso, afirmou que o espírito de um garoto pediu que a poupança de R$ 300 mil feita por seus pais fosse doada ao seu centro.
A Federação Espírita Brasileira (FEB) recomenda cautela com médiuns que pedem doações. O princípio da religião é claro: “De graça recebestes, de graça dai”. A FEB alerta: desconfie de médiuns que cobram por seus serviços, pois devem seguir a orientação de Jesus.
Maira fundou a Casa de Caridade Inácio Daniel em Águas Claras, a 20 km da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Todas as pessoas ouvidas relataram medo de represálias. Maira não aceita que seus métodos sejam questionados, nem o conteúdo das mensagens psicografadas.
ASSÉDIO PROCESSUAL
Aqueles que desafiaram ou questionaram a autenticidade de sua conexão espiritual se tornaram alvos de retaliação feroz. A estratégia inclui assédio processual, com ações cíveis e criminais, além de boletins de ocorrência acusando críticos de intolerância religiosa. "Quem questiona é silenciado pela força jurídica, financeira e política de Maira", revelou uma vítima.
Uma mulher que perdeu o marido relata como sua vida virou um inferno após descobrir que as cartas de Maira eram falsas. “Tive crise de pânico. Ela me iludiu e foi um grande trauma. Maira destruiu o pouco que eu tinha”.
A credibilidade do dom mediúnico de Maira começou a ruir quando frequentadores notaram padrões nos materiais recebidos. As cartas continham trechos copiados de postagens antigas no Facebook e Instagram. Detalhes como a cor de roupas, frases cotidianas, fotos antigas apareciam nas cartas, revelando-se como compilações de dados extraídos da vida digital dos enlutados.
O caso se agrava ao analisar a liderança da Casa de Caridade Inácio Daniel. Maira enfrenta denúncias de charlatanismo, pois nenhuma informação em suas psicografias é inédita: todas podem ser rastreadas em fontes abertas ou matérias de imprensa online.
PSICOGRAFIA IMPRECISA
Ex-frequentadores e membros do meio espiritualista afirmam que as psicografias de Maira são imprecisas, com conceitos errôneos coletados às pressas na internet. No auge do desespero, a carga emocional impede a percepção das falhas. Após o impacto inicial, a má-fé se torna clara.
Ex-frequentadores perceberam que informações das psicografias eram retiradas de postagens no Instagram, Facebook e outras redes, algumas até falsas. Uma nota no site oficial explica que qualquer pessoa pode receber uma mensagem de um ente querido, bastando inserir o nome em um livro nas sessões. O serviço é gratuito, mas não há garantia de receber o recado. “O telefone só toca de lá pra cá”, explica a Casa de Inácio Daniel.
Entretanto, muitos relatam que a realidade é diferente. Os textos vêm de publicações em redes sociais, segundo relatos ao Metrópoles.
Paulo*, de 52 anos, recebeu um bilhete de sua mãe falecida, Gabriela*. Emocionado ao ler o conteúdo de Maira, percebeu depois que informações estavam erradas e outras haviam sido retiradas do Instagram e Facebook. O texto começava com uma lembrança que coincidia exatamente com um comentário no Facebook de Gabriela.
O padrão se repetia em todo o texto. O problema maior foi a citação de uma neta inexistente, provavelmente por causa de publicações de uma nora sobre a filha Fernanda*, de outro casamento. A mensagem ainda omitia nomes de netos.
A família percebeu que Maira realizava uma investigação antes das psicografias. Um parágrafo retirado de uma comunidade de ciclistas no Facebook mostra que a médium pesquisava a vida do falecido e seu círculo social.
A mesma carta traz similaridades com postagens na rede social, como parabenizar um filho pela formatura, informação repetida em um post público.
Outras coincidências foram notadas, como um recado da avó falecida sobre uma festa de 15 anos e um pedido para não pintar mais o cabelo do neto, informações públicas em posts antigos da senhora.
Após descobrirem a fraude, os parentes denunciaram a médium à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).
Uma mulher também afirma ter sido vítima de Maira Rocha. Fábia* relatou que perdeu os pais e, vulnerável, chegou à Casa Inácio Daniel, onde foi convidada a trabalhar voluntariamente. Ela e as irmãs recebiam supostos recados dos pais desencarnados.
Desde as primeiras mensagens, os filhos e sobrinhos alertaram que o conteúdo parecia retirado de informações publicadas em redes sociais, mas as mulheres, em um momento sensível, preferiram não acreditar.
A suspeita surgiu quando Maira afirmou ter estado com a mãe de um auxiliar de uma médium do Rio de Janeiro. Ao contar ao homem, ele disse que a mulher descrita não era sua mãe, mas a própria médium para quem trabalhava.
Somente depois disso, começaram a olhar com mais atenção os detalhes dos transcritos. Uma carta falsamente psicografada dizia que a falecida foi ao casamento do filho em espírito, mas ela estava viva na ocasião.
Uma situação similar ocorreu nas mensagens para a mesma família. O bilhete usava um apelido de rede social, que a falecida jamais usou.
Outro trecho mandava beijos para todos os netos, mas esquecia de dois e mencionava um tal de Júlio, que não existe.
A família percebeu que a apuração de Maira não se limitava às redes sociais: a investigação era mais profunda. Uma frase parecia retirada de uma busca por um CNPJ de uma loja da família.
Diferente dos recados soltos, quando a carta psicografada foi escrita, as irmãs disseram que não conseguiram se emocionar, devido às informações desconexas.
A verdade ficou insustentável quando a família percebeu que Maira usava informações óbvias, fáceis de encontrar, como elogiar os quadros de uma das filhas, postados abertamente nas redes.
No TikTok, um perfil expôs contradições das cartas de Maira Rocha. Em um vídeo, o autor narra como a médium coletou informações de amigos e parentes de uma ciclista falecida para psicografar uma carta.
DENÚNCIAS
Uma fonte da Federação Espírita Brasileira (FEB) confirmou ao Metrópoles ter recebido denúncias de pessoas lesadas por Maira Rocha. Muitas são idosas, com pouca habilidade em redes sociais, e não percebiam o teor dos recados.
A fonte afirmou que psicografar cartas é um trabalho sério, desenvolvido por médiuns respeitados, mas é complexo e não se resume a pedir uma mensagem.
“Orientamos as pessoas a buscarem o espiritismo sério. As mensagens são espontâneas, você não pede e já recebe. Milhares procuravam Chico Xavier e só 10, 15 recebiam as mensagens”.
Questionar faz parte do trabalho mediúnico: “O que é errado é o médium se incomodar com a dúvida. O princípio do espiritismo é questionar. Quando você recebe uma mensagem, deve questionar. Colocar à prova é padrão da casa espírita. Se o médium não aceita isso, tem algo errado”.
A orientação da FEB é procurar uma casa espírita séria e de credibilidade.
“Nosso papel é orientar que as pessoas busquem uma casa séria. A dor humana cria um espaço fértil para enganação, a pessoa quer se apegar a algo”.
FEDERAÇÃO ESPÍRITA DE BRASÍLIA (FEB) FAZ ALERTA
Procurada pela reportagem, a FEB não citou Maira nominalmente, mas alertou sobre golpes de pessoas que usam o espiritismo para se promover e ganhar dinheiro.
“Com as redes sociais, cresceram as tentativas de disseminar informações duvidosas, para cooptar e enganar pessoas. O Espiritismo não é imune a isso. Recebemos vítimas de golpes por sites, pessoas ou perfis que prometem mensagens de entes queridos — geralmente, pessoas vulneráveis pela perda”.
A FEB explicou como golpistas agem ao se deparar com alguém vulnerável, especialmente após a perda de um ente querido.
“Nos momentos de dor, o ser humano fica vulnerável e quer se agarrar a um fio de esperança. Torna-se uma potencial vítima de pessoas que usam a tecnologia para explorar a dor humana”.
MÃE DESESPERADA E ATAQUE A JORNALISTAS
Uma quinta vítima procurou a Polícia Civil após descobrir que a carta do filho falecido era um vídeo publicado nas redes anos atrás. No boletim de ocorrência, a mulher contou que se desesperou ao descobrir a verdade.
“Como mãe enlutada, revivi um desespero intenso, como se enfrentasse novamente a perda do meu filho”.
Após se revoltar e questionar a Casa sobre as mentiras, Maira Rocha planejou vingança: usar as redes sociais, com meio milhão de seguidores, para expor informações da vítima.
Maira usa o mesmo método para atacar jornalistas que investigam denúncias de charlatanismo na Casa Daniel Inácio. Nas últimas semanas, o perfil oficial expôs profissionais do UOL e da Rede Globo que fizeram reportagens ou apuravam informações sobre a casa.
Sabrina*, sexta vítima, disse ter sido enganada e coagida por Maira, por isso desistiu de denunciar a médium. Desde que descobriu a verdade sobre a psicografia, precisou de acompanhamento psiquiátrico devido a crises de ansiedade.
“Me iludi demais. Desde que meu marido faleceu, foi um trauma muito grande, principalmente da forma que foi. A Maira destruiu o pouco que eu tinha. Tive uma crise de ansiedade muito forte”.
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim afirmou que pessoas em luto ficam mais vulneráveis, especialmente ao descobrir que podem ter uma resposta de quem já se foi.
“É nesse campo que pode atuar o charlatanismo. A pessoa, ainda digerindo o luto, precisa de respostas. Segundo suas crenças, quer saber onde aquela pessoa está, se está bem e deseja proximidade. Por isso, se apega a mensagens, sinais, objetos, lugares ou qualquer informação que traga essa sensação de contato”.
Para Juliana Gebrim, o processo piora quando a pessoa descobre que foi enganada, pois os sentimentos passam a ser de violação e quebra de confiança.
“Quando uma pessoa vulnerável confia em alguém e descobre que foi enganada, o impacto é grande. Pode haver revolta, frustração, raiva, vergonha e quebra de confiança. É como uma violação do santuário daquela pessoa morta. Não é apenas uma mentira. É uma experiência que atinge a crença, a dignidade e a relação que tentava se reconectar com a memória do ente querido”.
A reportagem acionou Maira para comentar as acusações e aguarda retorno para atualização deste texto.
O QUE DIZ A PCDF
O Metrópoles procurou a PCDF, que confirmou a instauração de um inquérito policial.
“Informo que na 11ª DP há um inquérito instaurado (441/2026-11ªDP) para apurar fatos ocorridos no Núcleo Bandeirante em 2019. Apesar do lapso temporal, o registro da ocorrência foi em 21/09/2025 e a investigação está em andamento. Esta investigação possui apenas uma vítima”.
Chama atenção que a 11ª DP, mesmo registrando a ocorrência em setembro de 2025, só instaurou o inquérito em agosto deste ano, quase um ano depois.
*Todos os nomes das vítimas são fictícios.







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