Miguel Esteves Cardoso reflete sobre a fotografia como barreira entre nós e a paisagem

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Quando a lente nos separa do mundo (Foto: Instagram)

Após passar uma hora fotografando uma paisagem, corri para casa ansioso para ver as imagens no computador. Para minha surpresa, elas eram bastante diferentes do que eu havia visto. Pareciam de outro mundo, exatamente o que eu desejava.

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Decidi, então, retornar ao local, mas desta vez sem a câmera. Foi quando percebi que, na verdade, nunca havia estado lá de verdade.

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A câmera não é apenas uma barreira entre meus olhos e a paisagem. Ela atua como uma tesoura, recortando tudo até ficar em um retângulo, e como uma plaina, alisando tudo. Mais do que isso, é um limitador. Nossos olhos veem mais e melhor que a melhor lente do mundo. As lentes reduzem, escurecem, distorcem e mentem. Quando olhamos para uma paisagem, estamos imersos nela — sentimos o que vemos, o chão, o céu e tudo ao nosso redor. Cheiramos, ouvimos, estamos presentes. E isso nunca para. E nós nunca paramos de ver.

A câmera captura apenas um fragmento disso, como se fosse um milagre, em menos de um segundo.

Ao voltar ao mesmo local, percebi imediatamente que nunca tinha realmente estado ali. A câmera quase serviu como um véu, impedindo a paisagem de se revelar para mim.

Agora vem a parte triste: rapidamente me cansei de estar ali. Sem a câmera — sem o benefício de acumular fotografias —, o que eu estava fazendo ali?

O fato é que não teria ido até lá apenas para admirar a paisagem. Por quê? Porque não teria nada para mostrar quando voltasse para casa? Porque as pessoas já não viajam sem um propósito claro?

Talvez a experiência de apenas estar seja insuficiente. Talvez, estar no mundo, por si só, não baste. Precisamos conviver, namorar, escrever, comer, fotografar, fazer algo enquanto estamos lá.

Talvez estejamos viciados em trabalhar. Sentimos a necessidade de acrescentar algo ao que já existe: criar, aproveitar, transformar.

Precisamos aprender a ser mais espectadores, menos inquietos — e menos interventores.

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