
Rio transborda em vilarejo nepalês após avalanche de gelo e lama (Foto: Instagram)
Após uma avalanche de gelo, rochas e lama ter descido pelas montanhas do Nepal em 26 de agosto, destruindo vilarejos, pontes, escolas, casas e usinas hidrelétricas, o governo nepalês decidiu alterar o vocabulário utilizado para descrever a catástrofe.
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O governo não está mais apenas solicitando ajuda internacional, mas sim reivindicando compensação climática. A diferença entre os termos não é meramente semântica. Enquanto a ajuda depende da generosidade de quem a oferece, a compensação reconhece a existência de uma dívida.
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O desastre teve início na região fronteiriça com o Tibete e se espalhou pelos vales dos rios Bhote Koshi e Trishuli. Em pouco mais de uma semana, mais de 1.200 mortes foram confirmadas e milhares de pessoas continuavam desaparecidas. Aproximadamente 20 mil casas precisarão ser reconstruídas. Famílias foram levadas a abrigos, comunidades ficaram isoladas e trabalhadores permaneciam soterrados em túneis de usinas hidrelétricas.
Os danos podem atingir US$ 5 bilhões, representando mais de um décimo da economia total do Nepal. A conta não fecha. Para um país rico, uma tragédia dessa magnitude seria devastadora; para uma nação pobre, pode comprometer anos de desenvolvimento, aumentar a dívida pública e consumir recursos que deveriam ser destinados a escolas, hospitais, saneamento e redução da pobreza.
O ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, resumiu a posição do país: o Nepal praticamente não contribuiu para o aquecimento global, mas está pagando um preço altíssimo. De acordo com o Banco Mundial, o país é responsável por apenas 0,1% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Por isso, o governo solicitou recursos à China, aos Estados Unidos e à Índia, três dos maiores emissores do mundo, e recorreu ao Fundo para Resposta a Perdas e Danos, criado no âmbito das Nações Unidas para apoiar países particularmente vulneráveis aos impactos climáticos.
Ao chamar esses recursos de compensação, e não de caridade, o Nepal toca no ponto mais sensível das negociações climáticas: quem deve pagar pela destruição causada por um problema que não foi igualmente criado por todos?
Durante décadas, os países ricos construíram sua prosperidade queimando carvão, petróleo e gás. Agora, comunidades que pouco se beneficiaram desse desenvolvimento perdem casas, lavouras, infraestrutura e vidas para secas, inundações, ondas de calor e outros desastres agravados pelo aquecimento global.
Os que menos contribuíram para a crise não deveriam ter que se endividar para sobreviver a ela.
No entanto, é exatamente aí que a palavra “compensação” causa desconforto. Ao criar o Fundo de Perdas e Danos, os países fizeram questão de registrar que o mecanismo se baseia na cooperação e não implica em “responsabilidade ou compensação”. Em outras palavras: aceitaram contribuir, mas não admitiram formalmente que estão pagando uma dívida.
Essa ambiguidade ajuda a entender por que o fundo ainda está tão distante das necessidades reais. Mesmo que todos os compromissos anunciados sejam cumpridos, os recursos disponíveis representam uma fração das perdas enfrentadas anualmente pelos países em desenvolvimento. Uma única tragédia no Nepal pode consumir várias vezes o dinheiro mobilizado pelo mecanismo internacional.
Há ainda uma observação importante. Cientistas já identificaram que a inundação foi desencadeada por uma avalanche de gelo e rochas, mas ainda não estabeleceram que o aquecimento global tenha causado diretamente aquele desabamento específico.
Sabemos que o aumento das temperaturas acelera o derretimento de geleiras, desestabiliza encostas e amplia os riscos associados ao gelo nos Himalaias. Sabemos também que as populações das montanhas estão expostas a uma combinação cada vez mais perigosa de eventos em cascata. Atribuir um desastre específico às mudanças climáticas, portanto, exige investigação.
A força da discussão levantada pelo Nepal está justamente em não depender de uma relação simplista entre uma tonelada de carbono emitida em um país e uma pedra que se desprende em outro. A responsabilidade climática também se mede pela exposição acumulada ao risco, pela capacidade desigual de recuperação e pela origem histórica do aquecimento que torna essas regiões progressivamente mais instáveis.
A tragédia do Nepal mostra que a avalanche não destruiu apenas casas e pontes. Abalou também o vocabulário confortável com que o mundo costuma tratar as vítimas da crise climática.







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