Preconceito e desinformação dificultam atendimento ginecológico para lésbicas no Brasil

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Representação simbólica do atendimento ginecológico: útero de pano e estetoscópio. (Foto: Instagram)

Mulheres lésbicas ainda enfrentam desafios ao buscar atendimento ginecológico no Brasil. Relatos de preconceito, falta de preparo dos profissionais e dúvidas que permanecem sem resposta durante as consultas indicam que o cuidado nem sempre atende às necessidades dessa população.

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Uma das dificuldades mais comuns surge logo no primeiro contato. “A maioria dos profissionais assume que todas as pacientes têm relações com homens”, explica a ginecologista Paolinne Silva, do Sírio-Libanês, em Brasília.

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Ela acrescenta que isso faz com que muitas mulheres não se sintam representadas ou ouvidas. “É comum sair da consulta com as mesmas dúvidas, pois o médico nem sequer pergunta sobre o tipo de relacionamento”, destaca.

Além das suposições, o preconceito pode se manifestar de forma direta ou sutil. Comentários inadequados e perguntas padronizadas, como a referência automática a “marido”, são frequentes nos consultórios.

Para a ginecologista Bruna Heinen, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, esse comportamento afeta o cuidado. “Quando o profissional assume a orientação sexual, ele deixa de investigar aspectos importantes da saúde sexual da paciente”, explica.

Essa experiência negativa leva algumas mulheres a evitarem consultas. Segundo as especialistas, muitas deixam de buscar atendimento por receio de constrangimento ou por acreditarem que não precisam de acompanhamento.

MITOS QUE AFASTAM DO CUIDADO
Um dos mitos mais comuns é a ideia de que mulheres lésbicas não precisam se preocupar com infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). No entanto, isso não é verdade.

Bruna enfatiza que infecções como papilomavírus humano (HPV), herpes, sífilis e hepatites podem ser transmitidas entre mulheres por contato direto, secreções ou compartilhamento de objetos.

Outro mito frequente é a dispensa de exames preventivos. “A orientação sexual não elimina o risco. O HPV pode ser transmitido entre mulheres”, reforça.

EXAMES CONTINUAM INDICADOS
Na prática, a recomendação segue os mesmos critérios adotados para outras pacientes. O rastreamento do câncer do colo do útero continua indicado conforme a idade e o histórico de saúde.

“Esse acompanhamento não depende da orientação sexual, mas dos fatores de risco e das diretrizes de saúde”, explica Bruna. O exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, e os testes para outras ISTs continuam sendo fundamentais.

COMO DEVE SER O ATENDIMENTO
O cuidado adequado começa antes mesmo do exame físico. A maneira como a paciente é recebida influencia diretamente a qualidade da consulta.

“É importante usar linguagem respeitosa e não fazer suposições sobre orientação sexual ou práticas”, afirma Bruna. Ela destaca ainda a necessidade de explicar cada etapa do atendimento, pedir consentimento e respeitar limites.

Paolinne reforça que a escuta é o fator central. “O profissional precisa entender o contexto da paciente e o que se aplica a ela para promover saúde.”

FORMAÇÃO AINDA É INSUFICIENTE
Apesar de avanços pontuais, a formação médica ainda não prepara os futuros profissionais adequadamente para esse tipo de atendimento. O tema costuma aparecer de forma limitada e muitas vezes dentro de uma visão heteronormativa.

“As falhas incluem desde a falta de treinamento em comunicação até a ausência de discussão sobre práticas sexuais diversas e prevenção de ISTs entre mulheres”, ressalta Bruna.

Para ela, é necessário ampliar o tema na graduação, na residência e na educação continuada, além de criar protocolos que garantam um ambiente seguro.

O cenário também envolve dificuldades de acesso à informação e a profissionais preparados. Sem um atendimento adequado, parte dessa população segue com dúvidas, sem acompanhamento regular ou afastada dos serviços de saúde.

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