SUS autoriza psicólogo para mulher falecida há 2 anos com depressão

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“Do luto à espera: dois anos por um atendimento psicológico que chegou tarde demais” (Foto: Instagram)

A servidora da Defensoria Pública de Mato Grosso, Janaiara Soares, utilizou as redes sociais para expor a demora no atendimento psicológico pela rede pública de saúde em Cuiabá (MT). Sua mãe, Sidelia Paula da Silva, diagnosticada com depressão, faleceu em 2024. Dois anos após a solicitação da consulta, em julho deste ano, a família recebeu uma mensagem da Secretaria Municipal de Saúde informando que a consulta psicológica havia sido autorizada.

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Janaiara desabafou: “A depressão levou minha mãe, mas o sistema de saúde pública de Cuiabá também tem sua parcela de culpa. Amanhã marca dois anos desde que minha mãe se foi, e no mês passado recebemos uma mensagem dizendo que ela poderá passar por um psicólogo. Essa consulta foi solicitada meses antes do ocorrido”, afirmou.

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Em entrevista à coluna, Janaiara relatou que sua mãe inicialmente hesitou em buscar tratamento na rede privada, acreditando que depressão e medicação eram "coisas de gente doida". Após insistência da família, aceitou o tratamento, mas apenas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Aos 58 anos, Sidelia trabalhava em serviços gerais em uma empresa terceirizada quando faleceu. Segundo Janaiara, ela foi ao posto de saúde, foi atendida por um clínico e encaminhada para acompanhamento psicológico. O pedido foi então inserido na rede de regulação do município.

Janaiara expressou sua frustração: “Mesmo sabendo que o tratamento não garantiria que ela não atentasse contra a própria vida, o sentimento é de tristeza, impotência e sofrimento ao ver que dependemos de um sistema de saúde que é lindo nas propagandas, mas ineficaz na prática.”

O impacto da demora foi ainda maior para a família, pois Sidelia tinha planos para o futuro, incluindo um casamento religioso com seu marido, que estava a um mês de acontecer.

“A transição de preparar um momento feliz para um luto inexplicável foi difícil. Para mim, meu pai e meu irmão, receber essa mensagem dois anos depois é reviver toda a dor novamente.”

TRATAMENTO
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim comentou que a depressão é uma condição séria e não deve ser confundida com uma tristeza passageira.

“Não é apenas uma tristeza que vai passar. É uma condição que pode afetar o funcionamento diário, o sono, a alimentação, a concentração, os relacionamentos e até a capacidade de realizar tarefas básicas”, explicou.

Juliana destacou que nem todos os casos de depressão são emergências médicas, mas a situação se torna urgente com sinais como ideação suicida, planejamento de suicídio, tentativa prévia, sintomas psicóticos ou comprometimento significativo do funcionamento.

“Quando o tratamento é adiado, o sofrimento pode aumentar. A pessoa se isola, perde interesse em atividades, e vê a situação como permanente”, afirmou.

Ela enfatiza que identificar o quadro e iniciar o tratamento adequado rapidamente pode interromper esse ciclo. O acompanhamento psicológico oferece um espaço para que a pessoa expresse sofrimentos muitas vezes não compartilhados.

“Uma pergunta direta pode permitir que a pessoa finalmente fale sobre um sofrimento vivido em silêncio. O acesso rápido é crucial, pois em uma crise, a pessoa pode estar tão fragilizada que não consegue esperar semanas ou meses por atendimento. Precisamos de uma rede capaz de acolher, avaliar o risco e encaminhar para o tratamento adequado, seja na saúde pública ou privada.”

AJUDA
Pessoas em sofrimento emocional podem procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188, onde voluntários oferecem atendimento gratuito e sigiloso. A iniciativa faz parte do Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio, que este ano tem o tema “Escutar é estar presente”.

A coluna entrou em contato com a Secretaria de Saúde de Cuiabá para esclarecer a demora no atendimento e questionar a autorização da consulta após a morte de Sidelia, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

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