
Analista examina dados digitais em tablet, ilustrando a desigualdade no comércio de serviços. (Foto: Instagram)
A desigualdade social é semelhante a pelos de gato: aparece nos locais mais improváveis. Na economia de mercado livre, a concentração de riqueza é guiada por uma "força centrípeta", que atrai o dinheiro para poucos. Em contrapartida, o desenvolvimento humano é movido por uma "força centrífuga", que empurra a maioria para a periferia, onde a vulnerabilidade aumenta. Esse cenário se repete entre indivíduos e nações, com o Estado devendo atuar como árbitro em democracias modernas.
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Um exemplo disso é o relatório da ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), intitulado “Atualização do Comércio Mundial: Os países menos desenvolvidos estão atrasados nas exportações digitais”. Ele revela que, mais uma vez, os países desenvolvidos estão colhendo os melhores frutos das evoluções econômicas. Desta vez, os serviços lideram os negócios internacionais, enquanto os países em desenvolvimento ficam para trás. Seria mais eficaz recorrer a mecanismos multilaterais como ONU, OCDE, G20, se os governos se comprometessem com pactos sociais e planos de desenvolvimento focados nas pessoas.
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O relatório da UNCTAD aponta que os serviços já compõem mais de 70% dos insumos intermediários globais. Em 2025, eles representaram 27% das exportações mundiais, com 56% sendo serviços digitalizáveis. Especialistas do Porto Digital, em Recife, veem os produtos digitais como um vetor crucial de exportações, sendo mais fácil exportar software e IA do que produtos físicos. Muitas startups já negociam com clientes globalmente, de forma virtual.
Nos países menos desenvolvidos, as exportações digitais são apenas 16% dos serviços exportados, bem abaixo da média mundial. Isso se deve ao alto custo de conectividade, baixa capacidade técnica e concentração de poder de IA em poucos países e empresas. Assim, surge a desigualdade digital, que aprofunda outras desigualdades sociais. Países pobres enfrentam custos de banda larga quase 20 vezes superiores aos dos ricos, e o uso médio de banda larga nos países ricos é dez vezes maior.
A UNCTAD recomenda que os países menos desenvolvidos invistam em infraestrutura e capacidades digitais para melhorar sua posição nos negócios e nas decisões internacionais. O Brasil tem potencial para ser um jogador importante, devido a suas energias renováveis, minerais e petróleo. No entanto, enfrenta desafios como a educação desfavorável (segundo o PISA 2025), desigualdade social persistente e foco no neoextrativismo para exportação de commodities.
Felipe Sampaio é cofundador do Centro Soberania e Clima, com experiência em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor. É sócio da Terra Consultoria e Inovação, já chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa e dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça. Foi também secretário executivo de Segurança Urbana do Recife e diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo.







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