Mortes em intervenções da PM em Minas Gerais aumentam 54% em dois anos

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Militares da Polícia Militar de Minas Gerais em formação diante de mapa do estado (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – O número de mortes em intervenções da Polícia Militar de Minas Gerais subiu 54,1% em dois anos, passando de 133 em 2023 para 205 em 2025. No ano corrente, foram registradas outras 110 mortes entre janeiro e julho, conforme dados obtidos pelo Metrópoles através da Lei de Acesso à Informação (LAI).

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As informações, provenientes da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), incluem registros de mortes em intervenções de agentes de segurança pública, compilados a partir de dados de cada órgão.

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No caso da Polícia Militar de Minas, estão incluídas ocorrências envolvendo policiais em serviço, de folga ou atuando devido à função.

“Analisando os indicadores de 2023 a 2026 sobre a letalidade no trabalho das polícias, observamos esse aumento. A principal razão para esse fenômeno está ligada à atuação do crime organizado e, principalmente, à ocupação de territórios que, infelizmente, ocorreu e ainda ocorre nas cidades de Minas Gerais, especialmente naquelas com maior fluxo econômico e financeiro”, explicou o pesquisador em Segurança Pública Jorge Tassi.

Ele acrescentou que o crime organizado tem avançado sobre as estruturas do Estado e que, nesse contexto, os conflitos acabam por acompanhar esse processo, já que a polícia representa uma forma de reação estatal.

“Portanto, ela atua no processo de repressão e, infelizmente, a letalidade acaba sendo o resultado dessa atividade reativa do Estado”, analisou.

CIDADES COM MAIOR NÚMERO DE OCORRÊNCIAS EM 2026
Belo Horizonte lidera o número de mortes em intervenções da Polícia Militar em 2026, com 17 vítimas entre janeiro e julho. Em seguida, aparecem Contagem (Grande BH), com 11 mortes, e Campo Belo (Centro-Oeste), com oito. Teófilo Otoni (Vale do Mucuri) e Betim (Grande BH) registraram cinco mortes cada.

“É natural que Belo Horizonte acumule em números absolutos a maioria dos crimes de homicídio, ainda que a taxa, por ser muito exorbitante, seja menor do que em algumas dessas cidades. Isso se deve a uma circunstância muito simples, né? Não existe nenhuma cidade que, em termos de população, se aproxime de Belo Horizonte. Então, os números absolutos sempre vão refletir Belo Horizonte como muito acima das demais cidades”, explicou o especialista.

Já Ribeirão das Neves (Grande BH), Poté (Vale do Mucuri), Montes Claros (Norte de Minas) e Esmeraldas (Grande BH) aparecem com três mortes cada.

De acordo com Tassi, as cidades ao redor de Belo Horizonte acabam, naturalmente, seguindo a mesma dinâmica da capital, devido à circulação de renda, dinheiro e cargas na região. Segundo o pesquisador, o fato de BH ser um importante polo logístico contribui para esse tipo de conflito.

“Infelizmente, o crime se instala nesse tipo de espaço porque tem interesse nesses arranjos logísticos locais. Isso é muito importante para o crime organizado. Ele consegue lavar dinheiro, ocupar espaços, levar e trazer produtos e esconder essas atividades em locais onde existe uma complexidade como essa”, completou.

Quando o número de mortes é considerado em relação ao tamanho da população, o cenário muda. Poté (Vale do Mucuri) passa a liderar a taxa entre os municípios: apesar de registrar apenas três mortes, a cidade tem uma população muito menor que a dos demais municípios.

CIDADES COM MAIOR NÚMERO DE OCORRÊNCIA EM 2025
Belo Horizonte também liderou, em números absolutos, as mortes em intervenções em 2025, com 33 vítimas, de um total de 205 no estado.

Quando considerada a população dos municípios destacados, porém, Araguari (Triângulo Mineiro) teve a maior taxa, com cerca de 9,7 mortes por 100 mil habitantes. O total absoluto foi de 12. Em julho daquele ano, Araguari foi parar nos noticiários por ter sido palco de uma perseguição policial que terminou em tiroteio, com cinco suspeitos mortos e dois policiais feridos.

Segundo a PM, os homens estavam em um carro furtado, fugiram de uma abordagem e atiraram contra os militares, que revidaram. O confronto ocorreu em um posto de combustíveis. Foram apreendidas três armas e uma submetralhadora artesanal.

Segundo Tassi, a localização do Triângulo Mineiro ajuda a explicar a presença do crime organizado na região. Segundo polo logístico do estado, a região tem ligação com outros estados e concentra importantes rotas de transporte de cargas.

“Não é por acaso que o Triângulo Mineiro, como segundo polo logístico do estado, também apresenta esse tipo de atuação do crime organizado, principalmente porque tem ligação com outros estados. Está muito próximo de Goiás e de São Paulo e há uma confluência de estradas que levam cargas para o Paraná e para o Centro-Oeste”, explicou.

Segundo o pesquisador, essa dinâmica também ajuda a entender os números registrados em Araguari. “O indicador de Araguari não é nenhuma surpresa para nós, por mais que seja uma cidade menor. É uma cidade de passagem entre estados e acaba acumulando esse tipo de situação”, completou.

Em seguida, a partir dos números disponibilizados pela Sejusp, aparecem Esmeraldas (7,5) e Ribeirão das Neves (3,7) como cidades com maior número de ocorrências com mortes em ações policiais.

OAB APONTA IMPACTO DESPROPORCIONAL SOBRE NEGROS
Segundo Wagner Dias Ferreira, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Minas Gerais (OAB-MG), as mortes atingem de forma desproporcional a população negra, jovem e periférica. Ele cita como referência a ADPF 635, voltada à atuação policial no Rio de Janeiro, mas afirma que o problema também é observado em outros estados.

“Minas Gerais não está fora disso. Quando você vê a quantidade de mortes praticadas pela polícia e a etnia das pessoas mais atingidas, claramente há uma comprovação de que o que está acontecendo gradualmente é o extermínio da população negra e jovem”, disse.

Segundo ele, o problema também alcança o sistema prisional, onde pessoas negras morrem em decorrência de diferentes situações, inclusive, segundo Ferreira, por negligência.

O presidente da comissão defende mudanças na formação e na atuação policial, com maior ênfase em direitos humanos. “As pessoas negras não podem ser tratadas como alvo preferencial. Cada vez mais, a polícia precisa aumentar o diálogo com instituições de direitos humanos e que promovem a consciência e a cultura negras, de modo a quebrar esse estigma que está institucionalizado desde o período colonial”, afirmou.

Ferreira acrescentou que o racismo estrutural não se restringe à atuação policial e lembrou que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou um protocolo para orientar o Judiciário no julgamento de questões que envolvem raça.

Além das ocorrências envolvendo a PM, outras três mortes foram atribuídas a intervenções de forças de segurança: duas da Polícia Civil, em Timóteo (Vale do Aço) e Prata (Triângulo Mineiro), e uma do Corpo de Bombeiros, em São José da Lapa (Grande BH).

O QUE DIZ A PMMG
A PMMG informou, por meio de nota, que possui uma das menores taxas do Brasil por mortes em decorrência de intervenções de agentes do estado, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

“O resultado demonstra que ações com uso de força letal pela corporação são exceções, uma vez que a instituição mantém um investimento contínuo do seu efetivo quanto ao uso diferenciado da força. A PMMG ressalta ainda que, em todas as ações policiais, sobretudo as que há letalidade, medidas de Polícia Judiciária Militar são adotadas, de imediato, e acompanhadas pela Corregedoria da corporação, além de outros órgãos de fiscalização externa”, disse a corporação em nota.

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