Especialistas desvendam a ilusão do “sorriso” das raias e alertam sobre a pareidolia

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Visitantes registram raias que parecem sorrir em aquário; expressão é ilusão de pareidolia (Foto: Instagram)

Vídeos e fotos de raias que parecem estar "sorrindo" ao serem acariciadas ou alimentadas se tornaram comuns nas redes sociais. Para muitos, essa cena é vista como um sinal claro de felicidade. No entanto, do ponto de vista biológico e neurobiológico, essa expressão simpática é apenas uma coincidência anatômica e uma ilusão criada pela mente humana.

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O que parece ser um olhar amigável é, na verdade, uma combinação das estruturas na face ventral (parte inferior) da raia. “A abertura que se interpreta como sorriso é a boca, enquanto os pontos que muitos confundem com olhos são, na verdade, as narinas, parte do sistema olfatório”, explica Fernando Resende, professor de medicina veterinária no Uniceplac. Ele acrescenta que os verdadeiros olhos estão na superfície dorsal (parte superior), permitindo à raia observar o ambiente enquanto procura alimento no fundo dos rios ou oceanos.

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Esse fenômeno de ver características humanas em objetos ou animais é conhecido como pareidolia. A professora de biologia Carol Braga explica que o cérebro humano é programado para reconhecer padrões familiares. “A disposição dessas estruturas lembra dois olhos e uma boca sorrindo, e nosso cérebro imediatamente reconhece isso como um rosto. Mas, anatomicamente, não é uma expressão de felicidade”, destaca a bióloga.

Para a divulgação científica e conservação marinha, essa percepção ambígua traz tanto vantagens quanto desafios. Por um lado, a aparência cativante desperta empatia no público. “Estudos sobre antropomorfização indicam que ver características humanas nos animais pode estar associado a uma maior preocupação com sua proteção”, aponta Resende. No entanto, Carol alerta que um animal que parece estar "sorrindo" pode estar sendo manipulado ou submetido a estresse.

RAIAS TÊM SENTIMENTOS OU SENTEM DOR?
Após superar a ilusão do "sorriso", surge a questão: raias podem sentir emoções ou dor? A resposta requer distinguir o estresse fisiológico de estados subjetivos como a felicidade. O estresse em elasmobrânquios (grupo que inclui raias e tubarões) é bem documentado, com alterações metabólicas mensuráveis causadas por captura, contenção ou manipulação. Quanto à dor e bem-estar, a ciência está progredindo.

Embora os peixes ósseos tenham uma senciência mais estudada, evidências comportamentais e neurobiológicas sugerem que peixes cartilaginosos também respondem a estímulos nocivos de forma complexa. No entanto, classificar essa sensibilidade como "felicidade" ainda carece de respaldo científico. “Existem evidências de aprendizagem, memória, preferência, habituação e comportamento social em tubarões e raias, mas a investigação experimental de estados emocionais positivos nesses animais ainda é limitada”, afirma Resende.

Apesar disso, raias podem demonstrar capacidade de aprendizagem associativa, memória espacial e discriminação visual. Espécies de água doce do gênero Potamotrygon, por exemplo, foram documentadas utilizando jatos d’água para manipular objetos e obter alimentos. Um estudo recente no Aquário de São Paulo mostrou que o enriquecimento alimentar, como esconder o alimento no substrato, estimula comportamentos naturais de busca, aumentando a diversidade comportamental e reduzindo a inatividade do animal.

Além disso, em rotinas de aquários, raias aprendem a associar a presença de cuidadores ou horários específicos com a oferta de comida, aproximando-se da superfície por condicionamento e antecipação. Em vez de descartar as imagens virais das redes sociais, pesquisadores e educadores defendem transformar o fascínio popular em aprendizado real. “A melhor estratégia é usar o mito como porta de entrada para a ciência”, sugere Resende. A partir do interesse pelo falso "sorriso", é possível explicar a complexa biologia, os sistemas de orientação e a urgência de preservar esses intrigantes habitantes dos mares e rios.

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