
Jair Bolsonaro fala sobre política e desinformação em podcast. (Foto: Instagram)
Não existe guerra limpa que respeite as normas do Direito Internacional; todas as guerras são sujas. Dado o horror que causam, se fossem transmitidas ao vivo e sem censura, talvez deixassem de existir. O mesmo se aplica à política, especialmente durante as eleições, quando o poder está em jogo. No entanto, a alternância de poder é um dos pilares da democracia — e, apesar de suas falhas, ainda não se encontrou um regime melhor.
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A desinformação e a propaganda enganosa não começaram com a internet. A história das eleições no Brasil é repleta de boatos, falsificações e manipulações que alteraram os rumos políticos do país muito antes do termo fake news se popularizar.
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Meses antes da eleição presidencial de 1922, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou cartas atribuídas ao candidato Artur Bernardes. Elas chamavam os militares de “canalhas”. Apesar de serem falsificações grosseiras, as cartas geraram uma crise militar profunda e quase impediram a posse de Bernardes.
Na primeira eleição após a ditadura de Getúlio Vargas (1930 a 1945), foram distribuídos panfletos falsos alegando que o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes, teria dito que “não precisava dos votos dos marmiteiros” (trabalhadores das classes mais baixas). A frase inventada prejudicou sua imagem popular na reta final e ajudou a eleger o general Eurico Gaspar Dutra.
A eleição de 1989, entre Fernando Collor e Lula, foi o auge do uso de narrativas emocionais na televisão. Collor apresentou em seu programa eleitoral a enfermeira Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula, que o acusou falsamente de ter sugerido que ela abortasse uma filha do casal. Posteriormente, descobriu-se que Miriam havia sido paga para dar aquele depoimento.
No dia do segundo turno daquele ano, a polícia invadiu o cativeiro do empresário Abílio Diniz, sequestrado, e encontrou panfletos do PT com os sequestradores. Mais tarde, soube-se que os policiais obrigaram os criminosos a vestir camisetas do partido para serem fotografados, criando uma falsa associação deliberadamente nas vésperas da votação.
Boatos espalhados por e-mails e panfletos anônimos diziam que, se o candidato José Serra (PSDB) vencesse a eleição de 2010, ele extinguiria o programa Bolsa Família. Na mesma ocasião, boatos religiosos focados em pautas morais e no aborto foram amplamente usados contra a candidata Dilma Rousseff (PT).
Em 2014, a campanha de Dilma à reeleição veiculou comerciais no rádio e na televisão sugerindo que o projeto econômico da adversária Marina Silva (PSB) entregaria a autonomia do Banco Central aos banqueiros, fazendo com que a comida sumisse, literalmente, do prato dos trabalhadores brasileiros.
“Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, disse Dilma na época. Foi o que Jair Bolsonaro (PL) fez em 2018 para derrotar Fernando Haddad (PT). Circularam massivamente vídeos alegando que Haddad distribuiria livros de educação sexual inadequados nas escolas primárias (falsamente chamados de “kit gay”) e mamadeiras com bicos em formato peniano para creches.
Flávio Bolsonaro reclama de ser vítima de uma notícia falsa sobre sua suposta intenção de, se eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Mas, em 2022, vendo que seu pai, então presidente da República, corria o risco de não se reeleger, o próprio senador foi um dos que impulsionaram o boato de que Lula fecharia igrejas evangélicas caso vencesse a eleição.
Aparentemente, não há falsidade no relato do site PlatôBR de que Flávio participou de festas com garotas de programa anos atrás, tendo empresários e amigos custeado algumas de suas despesas. Há imagens e documentos que comprovariam isso, reunidos por Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio em uma franquia de chocolates no Rio de Janeiro que foi suspeita de lavagem de dinheiro.
O advogado Alan Belaciano aparece no dossiê de Santini como pagador de equipamentos para a academia da residência de Flávio em Brasília, cujo valor ultrapassou R$ 90 mil, além de um relógio de luxo da marca Rolex, modelo em ouro branco, adquirido por R$ 305 mil em fevereiro de 2022. Procurado por jornalistas, Flávio recusou-se a comentar.
A poucos dias da eleição, o tempo fechou para Flávio, e não há sinais de que se abrirá tão cedo.







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