
Flávio Bolsonaro e Lula frente a frente ilustram a disputa apertada do primeiro turno (Foto: Instagram)
O primeiro turno das eleições de 2026 chegou ao fim, mas a disputa eleitoral está longe de ser concluída. Flávio Bolsonaro liderou com 47,03% dos votos válidos, totalizando 56,1 milhões de votos. Lula, por sua vez, obteve 45,16%, o que corresponde a pouco mais de 53,8 milhões de votos. A diferença entre eles foi de cerca de 2,2 milhões de votos. No entanto, o mais relevante não é apenas essa diferença, mas o que ela revela sobre o país. Um dado que não pode ser ignorado é a formação de um Congresso fortemente inclinado à direita. O PL contará com 121 deputados, a maior bancada, e 28 senadores. Isso indica que a disputa não se restringirá apenas à Presidência, mas também à correlação de forças dentro do Estado e à capacidade de avançar ou barrar direitos.
++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos
O Brasil vive um momento de grande insatisfação política, desilusão com a esquerda, frustração com governos, cansaço com promessas e feridas abertas por experiências de abandono. Há também um eleitorado influenciado por discursos religiosos, moralistas e punitivos, movido pelo medo, raiva e desejo de romper com o que é visto como o sistema. Ignorar tudo isso como simples ignorância seria um erro político enorme.
++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro
No entanto, há algo ainda mais difícil de enfrentar: um Brasil que olha para o passado como se fosse um lugar ao qual se pode retornar. A força eleitoral do bolsonarismo revela a permanência de uma sociedade profundamente hierarquizada, onde alguns defendem direitos para si e aceitam a retirada dos direitos dos outros. A liberdade é celebrada quando significa liberdade econômica, mas vista como ameaça quando envolve direitos trabalhistas, liberdade religiosa, direitos das mulheres, da população negra, LGBTQIA+ ou proteção ambiental. Assim, o debate vai além do eleitoral e se torna histórico.
O Brasil aboliu a escravidão em 1888, mas não rompeu profundamente com a estrutura social construída durante séculos de escravização. O resultado disso aparece em situações que parecem banais, pois nos acostumamos com elas. Existe um Brasil ressentido com as cotas. Um Brasil que se incomoda com a presença de pessoas negras, indígenas e quilombolas nas universidades e em espaços profissionais historicamente ocupados pelas elites. A legislação brasileira ampliou essas políticas de acesso, incluindo pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência no sistema de reserva de vagas das instituições federais de ensino.
A mudança não ocorre apenas no número de matrículas. Ela se manifesta quando uma pessoa negra entra em uma sala de aula onde sua presença, por décadas, seria considerada improvável. Aparece quando uma mulher negra se torna médica. Quando um indígena ocupa uma universidade. Quando uma pessoa LGBTQIA+ chega a uma profissão que sua família jamais imaginou possível. O ressentimento diante dessa ascensão não precisa ser declarado para existir. Ele pode aparecer na desconfiança, na desqualificação, na pergunta sobre quem abriu a porta, na suspeita de que aquela pessoa não deveria estar ali.
A fotografia social do Brasil está mudando. E uma parte do país ainda parece acreditar que determinados lugares possuem dono. O quarto de empregada é uma das imagens mais incômodas dessa permanência histórica. Durante décadas, muitas casas brasileiras foram construídas com um pequeno espaço separado para quem trabalhava ali, geralmente uma mulher negra, distante da intimidade da família que a empregava. Não é correto transformar todo quarto de empregada numa senzala, porque são experiências históricas diferentes. Mas é impossível ignorar a continuidade simbólica de uma arquitetura que separa quem serve de quem é servido.
A legislação mudou. A Emenda Constitucional 72, de 2013, ampliou os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores domésticos. A categoria passou a contar com garantias que deveriam ser elementares em qualquer relação de trabalho. Ainda assim, o trabalho doméstico permanece marcado por desigualdades históricas e pela informalidade. E existe uma contradição reveladora: uma sociedade que, durante décadas, naturalizou a mulher negra entrando pela porta dos fundos, pode ter dificuldade para aceitar essa mesma mulher conhecendo seus direitos, exigindo registro, descanso, jornada regulamentada e remuneração adequada.
Quando a pessoa que sempre serviu começa a discutir as regras do serviço, a hierarquia deixa de parecer natural. Essa é uma das chaves para compreender o Brasil. A classe que ocupa o topo da pirâmide econômica também produz valores sobre trabalho, autoridade, mérito, família, segurança e comportamento. Esses valores não permanecem no topo. Eles atravessam a sociedade. Quem está abaixo da pirâmide também pode reproduzir a lógica que o mantém abaixo dela. É por isso que uma pessoa pobre pode defender políticas que enfraquecem direitos trabalhistas. Uma pessoa negra pode reproduzir o racismo contra outra pessoa negra. Uma pessoa que vive na periferia pode defender a exclusão de outro grupo vulnerabilizado. Uma pessoa que depende do serviço público pode acreditar que políticas sociais são privilégios. A posição econômica de alguém não determina automaticamente sua consciência política.
E aqui existe uma contradição que a eleição torna ainda mais evidente. Escândalos podem se acumular sem necessariamente produzir mudança eleitoral. Investigações envolvendo corrupção, relações com empresários, presentes de alto valor e festas privadas com garotas de programa aparecem no noticiário. Reportagens recentes também revelaram festas de luxo ligadas ao caso Banco Master, com presença de autoridades e empresários, além de eventos no Madame Satã, em São Paulo, e festas em embarcações de alto padrão. A investigação sobre o chamado caso Master também alcançou Flávio Bolsonaro, que passou a ser formalmente investigado no inquérito relacionado ao filme Dark Horse.
Pouco importa, para uma parcela desse eleitorado, a quantidade de escândalos que aparece no caminho. Pouco importa o luxo dos jatinhos, as festas privadas, os relatos de garotas de programa, os presentes milionários ou as suspeitas que chegam aos tribunais. O que está em jogo para esse eleitor não é a biografia moral do candidato. É outra coisa: impedir que determinadas transformações sociais avancem. Essa é a parte que precisamos compreender. O escândalo pode ser relativizado. A desigualdade, não.
Uma parcela da sociedade pode tolerar comportamentos que condenaria em outros grupos porque identifica naquele político alguém capaz de preservar uma determinada ordem social. A fidelidade ao grupo passa a valer mais do que a coerência entre discurso e comportamento. É uma lógica antiga. O senhor da casa podia exigir moralidade de quem trabalhava para ele, enquanto suas próprias regras eram outras. A autoridade não precisava obedecer ao código que impunha aos demais. Por isso, quando o discurso político fala de família, moral, costumes e bons valores, é preciso observar também quem é cobrado por esses valores e quem recebe autorização social para escapar deles.
A discussão sobre a escala 6×1 ganha outra dimensão. O trabalhador que deseja descansar, conviver com os filhos, cuidar de sua casa, estudar ou simplesmente ter tempo para si está discutindo uma coisa que o mercado não consegue devolver depois: tempo de vida. O plano apresentado por Flávio Bolsonaro propõe maior flexibilização das relações trabalhistas e alternativas que ampliam a possibilidade de negociação das condições de trabalho. A posição sobre a escala 6×1 precisa ser analisada nesse contexto, e não reduzida à afirmação de que ele seria simplesmente “contra a CLT”. Essa formulação é imprecisa e facilita que o debate seja desviado. O ponto substantivo está no grau de proteção trabalhista, que deve permanecer garantido por lei, e no espaço que deve ser entregue à negociação individual ou coletiva.
A pergunta política continua sendo relevante: até onde pode ir a flexibilização sem transformar liberdade contratual em liberdade para o mais forte impor suas condições ao mais fraco? Essa pergunta deveria interessar especialmente às periferias, aos morros e às favelas. É nesse ponto que a esquerda precisa compreender uma derrota que não se explica apenas pela comunicação eleitoral. Não basta falar para quem já concorda. É preciso compreender por que trabalhadores, pessoas negras, moradores de periferias, religiosos e setores populares podem se sentir mais representados por um discurso que promete ordem, autoridade e ruptura do que por um discurso que apresenta políticas sociais como solução para suas vidas.
A política contemporânea mostra que o eleitor pode votar contra benefícios materiais se acreditar que defende sua fé, família, moral ou grupo. Isso não o torna ignorante; apenas prova que os interesses econômicos não são os únicos a guiar uma escolha política. Existe uma raiva profunda no país que nasce de experiências reais como abandono, desemprego, violência e corrupção, mas que também é mobilizada por discursos que criam inimigos. Compreender a origem desse sentimento é uma tarefa política essencial, que difere totalmente de legitimar a retirada de direitos.
O primeiro turno deveria obrigar a esquerda a olhar para o Brasil profundo sem paternalismo. Escutar sem imaginar que já conhece o que o outro pensa. Falar sobre trabalho sem transformar trabalhador informal em estatística. Falar sobre segurança sem tratar quem vive na favela como alguém que precisa escolher entre o medo do crime e o medo do Estado. Falar sobre religião sem considerar que toda pessoa religiosa é adversária da democracia. É preciso reconhecer esse conflito sem transformar todo eleitor de direita em inimigo. O Brasil precisa entender o que as urnas estão mostrando.
Há um país que quer conservar determinadas hierarquias. Existe outro que quer ampliá-las para quem historicamente ficou de fora. E existe uma multidão entre esses dois movimentos, cansada, desconfiada, trabalhando, pagando contas, criando filhos e procurando alguma forma de recuperar a sensação de que a política ainda pode alterar sua vida.
As urnas não inventaram esse Brasil. Apenas acenderam a luz. Agora é preciso olhar para aquilo que apareceu. Porque a eleição não revelou apenas quem chegou na frente. Revelou uma disputa muito mais antiga: quem pode subir, quem pode ocupar, quem pode falar, quem pode mandar, quem deve servir e quais direitos cada grupo considera legítimos. Essa disputa não termina na urna.







Leave a Reply