Tony Bellotto fala sobre carreira, política e desafios pessoais em entrevista

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Tony Bellotto: dos Titãs ao Jabuti, o roqueiro e escritor em plena estrada (Foto: Instagram)

Tony Bellotto cresceu em Assis, filho de professores contrários à ditadura. Anos depois, encontrou nos Titãs uma forma de se expressar para o país. Ele escreveu "Polícia" após conhecer uma delegacia por dentro. Com a banda, ajudou a criar músicas que o Brasil canta há quarenta anos — e que ainda encantam e provocam.

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A escrita também o levou por outros caminhos. Tony criou o detetive Remo Bellini, foi atrás de pessoas e documentos para escrever Dom e retornou à cidade da infância em Vento em setembro. Neste romance, a violência e a repressão permeiam a vida dos personagens. O livro lhe rendeu o Jabuti de Romance Literário em 2025.

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Atualmente, Tony continua na estrada com os Titãs. Entre os músicos que partiram, os que seguiram outros caminhos e a doença que ele enfrenta, há uma história de amizade e de trabalho conjunto que permanece viva no palco.

Em entrevista ao Que Dia, o músico e escritor falou sobre literatura, ditadura, apoio a Lula e sua convivência com o câncer de pâncreas. Ele também explicou por que considera Anitta uma artista de rock e deixou aberta a possibilidade de voltar ao detetive Bellini.

Tony Bellotto – Foi muito gratificante ganhar esse prêmio, pois publico desde 1995, quando saiu meu primeiro romance, Bellini e a esfinge. Desde então, nunca tinha recebido nenhum prêmio literário e nem esperava ganhar.

Sempre achei que o fato de ser um guitarrista de rock, uma figura pop, me distanciava um pouco dessa visão mais acadêmica da literatura e dos prêmios. Foi uma surpresa muito agradável. Já estava muito feliz de estar indicado e concorria com escritores que admiro muito, como Chico Buarque e Jeferson Tenório.

Quando anunciaram Vento em setembro, foi uma emoção enorme. Senti o prestígio que um prêmio desses traz: as vendas do livro melhoram e, no dia seguinte, recebi várias propostas para transformá-lo em filme. Foi uma satisfação pessoal muito grande.

Tony Bellotto – Sempre tive vontade de escrever. Desde a adolescência, esse desejo era muito forte, assim como o de tocar. Foram formas artísticas que me seduziram desde muito pequeno. Quando comecei a tocar violão, com 11 anos, já lia muito e tinha uma curiosidade especial de perceber que alguém escrevia aquilo. A figura do escritor já me fascinava.

A carreira musical chegou antes. Com 20 e poucos anos, já fazíamos sucesso, tínhamos gravado “Sonífera Ilha”, e deixei um pouco de lado a ideia de escrever. Mas houve um momento em que pensei: “Se eu não escrever, não vou realizar esse desejo. Ele vai virar um desses sonhos frustrados que a gente carrega”.

Foi assim que comecei a escrever o Bellini. Na época, lia muita literatura policial e me pareceu mais fácil escrever um livro tendo uma estrutura de romance policial. Criei esse detetive, que é uma espécie de alter ego.

Faz tempo que não escrevo um romance dele, mas as pessoas me pedem muito. Outro dia, meu editor falou: “Está na hora de fazer outro Bellini”. Talvez eu faça. Na minha cabeça, ele ficou como um detetive do começo dos anos 1990, fora do uso tecnológico que fazemos hoje. Nos livros, não há telefone celular ou, quando há, são aqueles primeiros, rudimentares. Teria de adaptá-lo a essa nova realidade.

É um personagem que me deu muita alegria. Bellini e a esfinge é meu livro que mais vendeu até hoje. Mesmo passando algum tempo sem escrever sobre ele, está sempre presente, me assombrando.

Tony Bellotto – Pode acontecer. Ele precisa aparecer para mim. Talvez com exceção do primeiro, que foi um livro mais pensado, mais difícil, os outros sempre apareceram como uma inspiração muito clara de que aquela devia ser uma história com o Bellini.

Ele narra em primeira pessoa, então tenho de pegar o jeito de falar, aquela personalidade. Faz tempo que isso não acontece, mas ele pode aparecer a qualquer momento. Estou sentindo que está perto.

Tony Bellotto – A violência é muito presente no convívio humano. Desde cedo, senti isso muito forte. Não digo só essa violência mais óbvia dos roubos, dessa verdadeira paranoia que vivemos no Brasil, de não poder pegar o celular na rua porque alguém vem e rouba.

Desde a infância, sinto uma violência muito grande na convivência das pessoas. No próprio convívio masculino, dos meninos, existe uma violência intrínseca nas brigas, na cobrança de ser corajoso, forte, de “ser homem”.

Ela está presente na nossa vida de muitas formas e naturalmente aparece nos meus livros. A violência gera situações intensas, de limite, em que abandonamos um pouco aquilo a que nos adaptamos para viver em sociedade e temos atitudes radicais. Como literatura, é muito estimulante e motivadora.

No Brasil, também tem relação com essa diferença social muito grande entre quem ganha muito pouco e quem ganha muito. A violência já se impõe nessa comparação e na convivência de estratos sociais tão diferentes. Acho que é um dos problemas do Brasil e uma das coisas que explicam essa violência tão intensa.

Tony Bellotto – Gosto muito de jornalismo. Leio jornal, vejo jornalismo na televisão diariamente, tenho amigos jornalistas. Acho interessante essa busca pelo que está acontecendo no mundo real. A grande diferença é que, na ficção, você trabalha basicamente com a imaginação.

Dom foi interessante nesse sentido, porque tenho uma certa preguiça de ter de ser muito fiel à realidade. Talvez isso me afaste do jornalismo ou da ideia de escrever biografias, que já me ofereceram.

O pai do Pedro me procurou logo depois que ele morreu. Li uma mensagem no site dos Titãs: “Sou o pai do bandido Pedro Dom, queria muito falar com você”. Fiquei um pouco assustado e nem respondi.

Anos depois, o diretor Breno Silveira me procurou. Queria filmar a história do Pedro e disse que o pai fazia questão de que eu escrevesse o roteiro. Foi aí que comecei a ter contato com o pai dele. O filme não deu certo a princípio, abandonamos a ideia, mas eu tinha feito algumas anotações.

Alguns anos depois, ele voltou a me procurar: “Você tem de escrever a história do Pedro. O filme não saiu, mas faça um livro”. Eu dizia que era escritor de romances, que não queria fazer um trabalho de pesquisa com a obrigação de ser muito fiel à realidade. Para escrever um livro, você precisa estar muito motivado.

Cheguei a pensar em indicar o Guilherme Fiuza, que tinha escrito Meu nome não é Johnny. Mas a Malu, minha mulher, estava arrumando umas gavetas e encontrou as anotações que eu havia feito para o filme. Olhei aquilo e pensei: “Isso daria um bom livro, mas um livro de ficção”.

Liguei para o pai do Pedro e disse: “Topo fazer, mas vou fazer um livro de ficção, do meu jeito”. Ele respondeu: “Faça como você quiser”.

As balizas eram a realidade, os fatos que aconteceram. Mas, na história de um criminoso, havia muitas áreas obscuras, períodos em que não tinha quem pudesse dizer o que aconteceu: os anos na penitenciária, o tempo escondido na Rocinha, fugindo da polícia. Foi interessante juntar uma história real e poder usar a imaginação. Gostei muito de fazer, mas deu trabalho.

Tony Bellotto – Algumas vezes me perguntaram se eu não queria escrever a história dos Titãs, por exemplo. Temos um livro muito bem escrito pelo Alzer e pela Érica Marmo, uma biografia que depois ganhou uma versão atualizada.

Nunca me motivou ter de ser muito fiel às datas e ao que exatamente aconteceu. Até porque cada um tem uma visão muito própria da realidade.

Uma vez, um jornalista perguntou por que o nome Titãs. Na minha memória, estávamos na casa do Britto, no escritório do Almino Affonso, tocando. Olhamos para uma enciclopédia com “Titãs da música”, “Titãs da literatura”, “Titãs da ciência” e tivemos a ideia de ser os Titãs do Iê-Iê.

Quando o Britto respondeu à mesma pergunta, disse que estávamos na minha casa, na biblioteca do meu pai. É engraçado: você lembra de uma coisa de um jeito diferente de como outra pessoa lembra. A realidade precisa ser muito bem checada.

Houve uma época em que peguei lembranças da carreira e fiz um livro de ficção, No buraco. É a história de um guitarrista um pouco decadente, nos seus 50 anos, que teve uma banda de um sucesso só. Ele lembra do começo da carreira com melancolia e ressentimento. Coloquei muita coisa que vivi, mas pelo filtro e pela lente da ficção. É isso que me move.

Tony Bellotto – Quando comecei a pensar nessa história, pensei muito no menino que some de uma festa. Vivi em Assis e o livro tem muita coisa biográfica, também pela lente da ficção. A festa comemora o desvirginamento dele, uma coisa que eu via acontecer naquela época.

No começo, achei que pudesse ser uma história do Bellini, que seria chamado para procurar o menino. Depois percebi que a história podia ser mais que isso, unir uma coisa do passado com outra contemporânea.

Os livros do Bellini são inteiros narrados em primeira pessoa. Para contar Vento em setembro, precisaria de vozes diferentes. Surgiu a ideia de ter um narrador nos dias de hoje, o Davi, por meio de quem ficamos sabendo o que aconteceu no passado. Quando narra sobre si mesmo, fala em primeira pessoa. Quando conta a história que ouviu do passado, narra em terceira pessoa.

Até digo que é meu livro mais psicanalítico. Estava fazendo psicanálise, falando muito da minha vida e do meu passado. Ao mesmo tempo, comecei a fazer esse trabalho na literatura, contando uma história passada nos lugares onde vivi: Assis, São Paulo, Santos, onde entrei na faculdade de arquitetura antes de abandonar tudo para me dedicar aos Titãs.

Cada livro exige ser contado de uma maneira diferente. Foi muito prazeroso escrever esse. Tem uma trama elaborada, e acho que isso foi um dos motivos de se destacar. No começo, pensei que as pessoas não fossem entender, que estava cheio de nós. Foi muito bom ver o reconhecimento.

Tony Bellotto – Às vezes, converso com alguém da minha idade e a pessoa diz que a adolescência foi a melhor época da vida. Acho estranho, porque vivemos uma ditadura militar e eu sentia essa presença velada o tempo todo.

Não era uma violência direta, não é que eu, como criança e adolescente, estivesse apanhando na rua. Mas o peso do medo numa ditadura é muito grande.

Ainda em Assis, escrevi uma redação e o diretor me chamou para conversar. Ele foi até legal, queria me dizer: “Você sabe que vivemos um período complicado. Não se exponha demais, porque provavelmente vai correr algum risco”. Eu tinha 13 anos e havia colocado alguma indignação na redação.

Como filho de professores universitários, sabia da situação. Havia histórias de colegas do meu pai que foram presos, fugiam ou desapareciam, o que era pior. Aquilo era muito opressor. Sentia o mal-estar quando ficávamos sabendo de obras censuradas, de um filme que não poderíamos ver. Meus pais se indignavam muito.

Essa história de descobrir os torturadores dos seus pais é incrível. É uma viagem a um nó lá no fundo de você mesmo.

Acho que existia uma violência mesmo quando não se manifestava claramente: uma melancolia, uma tristeza. Claro que havia alegria, bailes de carnaval, eu tinha 15, 16 anos. Mas a ditadura se fazia presente pela opressão física, psicológica, pelo medo. Isso transparece nos meus personagens porque eu vivia e sentia isso nas outras pessoas.

Tony Bellotto – Reconheci. Começamos a nos conhecer por volta de 1980. A ditadura já estava terminando, havia os movimentos pelas Diretas Já, mas ainda existia o departamento de censura.

Quando gravamos o primeiro disco, em 1984, “Bichos Escrotos” já estava pronta. Pensamos em colocá-la, mas o produtor, a gravadora, disseram: “Nem adianta mandar para a censura, porque não vai passar”.

Guardamos a música. Quando a gravamos, em 1986, foi censurada para execução pública. Era uma coisa louca: você podia ouvir em casa, no disco, mas não podia tocar no rádio nem na televisão. Acabou tocando porque os radialistas desobedeceram à ordem.

A geração dos Titãs, Legião Urbana, Paralamas, Ira!, Ultraje a Rigor, Capital Inicial tem isso em comum: crescemos na ditadura e, quando chegamos à idade adulta, pudemos falar coisas que não podiam ser faladas. O rock brasileiro dos anos 1980 tem essa riqueza de ser o extravasamento de um grito que estava represado.

Em Vento em setembro, narro uma situação que vivi em São Paulo, no fim dos anos 1970: fui a um show da Rita e a polícia entrou, parou o show e começou a fazer uma batida para procurar drogas e prender pessoas.

Também havia a Tenda do Calvário, no porão da igreja em Pinheiros. Tinha shows de rock e, de vez em quando, a polícia entrava e prendia pessoas. Tudo isso ajudou a me formar como pessoa, músico e escritor. Foi surgindo tanto na música quanto nos livros.

Tony Bellotto – Afeta a própria criação. Você está fazendo uma música e pensa: “Isso não vai passar”. Já te afeta num momento crucial.

Imagino o que passaram músicos que viviam de fazer música naquela época, como Caetano, Gil e Chico Buarque. O Chico sofreu a ponto de mandar músicas com um pseudônimo. Quando o censor sabia que era dele, já olhava pensando: “Vamos cortar, porque esse cara escreve coisas perigosas”. Mesmo quando não aparecia nada, devia pensar que havia alguma coisa escondida. É terrível.

Tony Bellotto – A questão política sempre foi muito presente para mim, pela infância e adolescência, por ter pais professores e conhecer o absurdo da ditadura, da falta de liberdade, de como isso afeta profundamente a criação e a vivência.

Desde cedo, tive o impulso de participar das campanhas políticas. Na primeira eleição depois da ditadura, aquela em que o segundo turno foi entre Lula e Collor, apoiei Mário Covas no primeiro turno. Por muito tempo, fui uma espécie de social-democrata, naquela centro-esquerda. Dava preferência aos candidatos tucanos, Mário Covas, Fernando Henrique. Gostava dessa turma.

O surgimento da extrema direita no mundo e no Brasil me assustou demais. Quando comecei a ver Bolsonaro aparecendo no Rio como candidato a deputado, pensei: “É capaz de esse cara acabar querendo ser governador”. Aconteceu uma coisa muito pior: ele foi presidente do Brasil.

Comecei a sentir uma necessidade muito grande de lutar contra o fascismo, porque essa extrema direita tem os ideais do fascismo e traz traços teocráticos, pelo uso que esses líderes fazem da religião, contra a ideia do Estado laico.

Passei a participar mais ativamente das campanhas do Lula. Gosto muito dele e acho que foi e continua sendo o nome capaz de vencer a extrema direita.

Quem viveu a ditadura sabe como isso é pavoroso. Quando havia pessoas na frente dos quartéis pedindo a volta da ditadura, eu via muita gente jovem e pensava: “Essas pessoas não sabem o que estão falando”. É uma coisa que não pode acontecer.

Vou me engajar sempre que achar que a democracia está em risco, e ela está. Todo governo recebe críticas, mas acho Lula muito eficiente nas políticas públicas. Vejo pessoas que conseguiram entrar numa faculdade ou conseguiram emprego graças a essas políticas. Isso é muito importante.

Quando começam a comparar Lula e Bolsonaro, digo: “Veja o que Bolsonaro fez e o que Lula fez”. Isso já responde.

Tony Bellotto – John Lennon era um dos meus heróis. Jimi Hendrix, nem preciso dizer, pela guitarra que tocava. Nos anos 1960 e 1970, transmitiam com a música essa necessidade do respeito aos direitos individuais. Isso sempre me norteou.

No Brasil, eram Caetano, Gil, Chico. Também tinha ídolos como Jane Fonda, uma atriz muito bonita e talentosa, de quem eu gostava pelo trabalho político, por se colocar a favor dos direitos humanos, dos homossexuais, do direito ao aborto.

O respeito ao direito de cada um fazer o que quiser dentro de uma democracia sempre me norteou. Rita Lee também foi uma referência, e Rubem Fonseca na literatura. Se começar a falar, não paro.

Tony Bellotto – A prisão foi muito traumática na minha vida, na nossa vida. Já tínhamos gravado dois discos, fazíamos sucesso. Era uma banda numerosa, com uma música muito variada: algumas canções consideradas pop, outras mais punk.

Estávamos vivendo um grande sonho, viajando, fazendo shows pelo Brasil, vivendo daquilo que sempre quisemos. Quando houve a prisão, caímos na realidade. A própria continuidade da banda foi questionada, porque shows foram desmarcados e produtores não queriam se envolver com uma banda que tinha problemas com a polícia.

Tivemos uma atitude que acho importante na vida: quando acontece algo ruim, pensar no que pode ajudar naquela experiência. Tiramos dali uma ira, uma forma de registrar o descontentamento nas músicas.

Depois da prisão, produzimos Cabeça Dinossauro, um disco brilhante, que comemoramos agora aos 40 anos e que acho que será sempre lembrado como nosso grande disco. Foi muito formado por essa revolta.

“Polícia” foi composta nessa época, motivada por isso, assim como outras músicas entraram nesse conceito: “Estado Violência”, “Igreja”, “Homem Primata”. Foi uma experiência muito difícil, negativa, mas trouxe uma abertura de pensamento para levar a música para esse lugar.

Até hoje, há questões no Brasil que não podem sequer ser discutidas. A questão das drogas é uma. Acho que existe uma hipocrisia muito grande, conceitos moralistas que impedem a discussão da legalização. A mesma coisa acontece com a descriminalização do aborto.

Vivemos num Estado laico. Sabemos que mulheres pobres morrem ou têm problemas de saúde por abortos malfeitos, mas as bancadas religiosas dizem que isso vai contra a moral da religião e não pode ser discutido.

Cabeça Dinossauro e músicas como “Polícia” vieram dessa conscientização política de que, quando fazemos uma democracia, temos de tentar ocupá-la com todas as liberdades que pode oferecer.

Tony Bellotto – Revisitar o disco tem sido muito interessante. Concordo quando dizem que é atual. Não ficou datado, não é um disco que você ouve e pensa apenas nos anos 1980.

Isso tem relação com a estética, com a crueza da gravação, e com os temas. Tivemos o cuidado de não abordá-los de forma panfletária. Falamos de instituições e questões humanas por meio de um eu lírico, de um narrador que reclama porque vivencia aquilo de forma violenta, desconfortável ou insuportável.

Há temas que permanecem, como a violência e o abuso policial. Mesmo com o fim da ditadura, vemos isso acontecer nas democracias.

Algumas músicas me parecem até mais atuais hoje. É o caso de “Igreja”. Esse perigo de uma visão doutrinária querer impor regras morais de determinada religião como regras políticas, ou de a igreja querer se imiscuir na educação, deve ser evitado.

Religião deveria ser uma escolha íntima, individual. A pessoa deve ter direito de exercer a religião que quiser, ou nenhuma. Educação e política não podem ter uma religião. Acho que essa ameaça hoje é até maior do que em 1986.

As músicas continuam atuais talvez porque tratem de questões sempre presentes na convivência humana, ou porque não tenhamos avançado tanto quanto deveríamos nesses quarenta anos.

Tony Bellotto – Quando declarei pela primeira vez que Anitta era rock, antes de “Bichos Escrotos”, o pessoal mais radical me criticou: “Você está maluco? Anitta é rock?”.

Há muito tempo, rock deixou de ser só uma forma musical. É uma forma de viver e de se manifestar. Nasceu com uma atitude ousada de Elvis Presley, um homem que começou a requebrar nos anos 1950. A atitude sexual dele era tão forte quanto a música.

Digo que Anitta é rock porque é uma mulher livre, autônoma, que vive como quer. Não precisa de homem para sustentá-la nem para dizer o que deve fazer. Tem uma sexualidade livre, que considero uma atitude rock and roll, no sentido de o direito individual ser respeitado ao máximo.

Quando gravou “Bichos Escrotos”, comprovou minha teoria e fez a música chegar a um público que não a conhecia.

É uma música que foi censurada, mas sempre foi muito querida pelas crianças. Quando recebemos fãs no camarim, muitos levam filhos ou netos e dizem que adoram “Bichos Escrotos”. Vem a menininha, que mal sabe falar, e canta. Que eu saiba, nunca atrapalhou o desenvolvimento de ninguém. Pelo contrário, abre a cabeça das pessoas.

Na semana em que Anitta lançou a gravação, percebemos um aumento enorme nos acessos à música nas plataformas. Foi muito legal e confirmou minha tese de que ela é rock and roll.

Tony Bellotto – O que sempre me atraiu numa banda é esse fazer coletivo. É positivo porque te coloca na realidade: você faz uma música que acha maravilhosa, mas ela precisa passar pelo crivo dos companheiros. Eles precisam gostar para ser gravada e adotada pela banda.

Isso sempre estimulou cada um a caprichar. O produto final acabava muito mais rico do que aquilo que cada um poderia fazer individualmente.

Muitos integrantes saíram para carreiras solo muito bem-sucedidas. Eu, Britto e Branco permanecemos, agora com Beto Lee e Mário Fabre. Acreditamos que o trabalho coletivo melhora o resultado.

Uma característica dos Titãs sempre foi não ter a figura de um líder. São vários cantores, muita gente fazendo coisas diferentes. Quando Paulo Miklos saiu, Branco e Britto me disseram: “Você vai ter de cantar agora, porque sempre fomos uma banda com vários cantores”.

Comecei uma coisa nova aos 60 anos. Sempre cantei para compor, em casa, mas as músicas eram gravadas pelos outros vocalistas. Essa descoberta foi muito legal. Cantar tem me dado muita satisfação.

Não tenho nenhuma vontade de fazer um trabalho solo musical. Meu trabalho na música é de banda, dessa química em que cada um dá uma ideia e a coisa cresce. Talvez também porque a literatura seja tão individual. Ali estou sozinho, tomando as decisões. Já faço uma carreira solo que me satisfaz. Na música, continuo com a banda.

Tony Bellotto – Está muito boa. É mais fácil decidir coisas em três do que era em sete. Algumas coisas melhoraram. Claro que sentimos falta dos ex-companheiros, mas temos uma política de continuar pensando como banda.

Quando aparece um dilema, perguntamos: “O que Marcelo Fromer diria agora?”. Ou, diante de um verso: “O que Nando faria aqui?”. Usamos o que aprendemos com os ex-integrantes para manter vivo aquele espírito coletivo.

No começo, houve uma tendência de chamar Arnaldo de líder, porque tinha uma performance brilhante, peculiar, um cabelo único. Ficávamos putos: “Não temos líder, todo mundo tem o mesmo peso de voz aqui. Isso é uma democracia”.

Numa banda, todo mundo contribui igualmente, da maneira que pode.

Tony Bellotto – Marcelo é muito presente para mim e para os outros. Britto tem uma frase muito boa: Marcelo era o melhor amigo de todos nós. Ele se fazia presente para cada um como melhor amigo.

Era muito brincalhão. Há brincadeiras que fazia e que repetimos até hoje no camarim, gírias próprias para determinadas situações. Esse tipo de coisa mantém a presença dele.

Musicalmente, quando fazemos um arranjo e Beto Lee pergunta o que deve tocar, dizemos: “Pensa no que Marcelo faria”. Ele tinha soluções simples, uma maneira pragmática de tocar, um ritmo marcado, característico do punk e da new wave.

Também tocamos músicas das quais é coautor, como “Homem Primata”. Está sempre presente, musicalmente e como companheiro.

Tony Bellotto – Foi muito difícil receber o diagnóstico de um câncer difícil de tratar, com uma taxa de mortalidade muito grande, o câncer de pâncreas. Mas, quando soube, brotou uma força interna que eu nem sabia que tinha.

Sou ateu. Não considero que meu câncer seja fruto de nada além do fato de estar vivo e de que isso acontece com pessoas vivas. Pensei: “O que posso fazer? Minha ideia é continuar vivo, e vivo de verdade, fazendo as coisas de que gosto, tocando, trabalhando o máximo possível”.

A médica disse que o tumor ainda tinha um tamanho que permitia operar e retirar. Fiz a cirurgia e me recuperei, o que também foi difícil e trabalhoso.

Voltei às minhas funções normais, mas continuo em acompanhamento, porque é um câncer muito insidioso, traiçoeiro. Não digo que estou curado, que me livrei dele. Estou convivendo com esse câncer.

Até brinquei numa entrevista que implico com essa expressão de que alguém “luta contra o câncer”. Sou pacifista: não luto contra meu câncer, negocio uma convivência pacífica. Isso já vai ser bastante.

Tenho tido sorte, porque os tratamentos têm sido positivos. Sou otimista por natureza. Recorri muito aos estudos de zen-budismo que fiz na adolescência, quando lia os autores da geração beat. Não tenho religião, não acredito em Deus, mas sinto no zen uma sabedoria humana que podemos empregar na vida prática: lidar sem tanta dramaticidade com os problemas, viver um dia de cada vez. Enquanto está legal, vamos em frente.

Estou muito bem, fazendo shows, escrevendo. Tento engordar, porque perdi muitos quilos na cirurgia. Estou feliz de levar minha vida, convivendo com essa doença difícil sem deixar que vire uma tristeza ou uma preocupação exagerada.

Também tive muita ajuda do Branco, que passou por um câncer de garganta muito difícil, fez cirurgias e tratamentos e está muito bem no palco, inclusive cantando. Brincamos que conseguiu a voz rouca que sempre quis ter, aquela voz de Max Cavalera.

Tony Bellotto – Que delícia ouvir isso, Matheus. Fico emocionado. Também sou seu fã, gosto muito do que escreve. Sou fã da sua mãe, amigo dela, e me considero seu amigo.Essas trocas são muito importantes. Gosto do convívio com você, estou presente nos seus projetos e conte comigo. Fico muito feliz de ser seu herói, porque os meus me ajudam muito. Pensei imediatamente em Jimi Hendrix, que morreu tão jovem e é meu herói até hoje. Vamos em frente com nossos heróis, que a vida vale a pena.

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