
Uso prolongado de antibióticos pode desequilibrar a microbiota e acelerar a resistência bacteriana (Foto: Instagram)
O uso de antibióticos por um período maior que o recomendado pelos médicos pode desequilibrar a microbiota intestinal e acelerar a resistência bacteriana, um dos grandes desafios da saúde pública mundial.
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Em vez de assegurar a cura de uma infecção, a extensão desnecessária do tratamento reduz a competição entre os microrganismos naturais do corpo, permitindo a proliferação de patógenos oportunistas, como fungos e bactérias resistentes a tratamentos convencionais.
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O corpo humano abriga bilhões de microrganismos que vivem harmoniosamente no trato gastrointestinal, na pele e nas mucosas. No entanto, quando um antimicrobiano é utilizado, ele não atua apenas sobre o agente causador da doença.
“Nosso corpo convive com muitas bactérias que vivem em harmonia. Quando usamos antibiótico para alguma que está causando infecção, atingimos as demais, o que pode causar uma desregulação da microbiota”, afirma Pablo Eliack, infectologista dos hospitais Unimed Fortaleza, Unimed Sul, São José de Doenças Infecciosas, Unichristus e Haroldo Juaçaba.
A dinâmica farmacológica explica por que o uso excessivo do medicamento requer cautela individualizada. “Cada antibiótico possui características próprias de absorção, distribuição, metabolização e eliminação. Por isso, fatores como função renal e hepática, idade, peso e outros medicamentos em uso podem interferir na dose e no intervalo adequados”, explica a médica infectologista Raíssa Moraes, do Portal Afya.
A especialista destaca que o foco deve ser o equilíbrio, garantindo exposição suficiente ao antibiótico para tratar a infecção, sem expor o paciente desnecessariamente a doses excessivas ou a um período maior do que o necessário. Tanto doses insuficientes quanto excessivas podem trazer problemas.
Um estudo de 2021 do American College of Physicians (ACP) indica que tratamentos antimicrobianos desnecessariamente longos aumentam significativamente o risco de eventos adversos, como infecções graves por Clostridioides difficile, sem oferecer benefícios adicionais na cura da infecção primária.
O trabalho científico defende que cursos mais curtos de antibióticos para infecções comuns, como pneumonia e infecção urinária, apresentam eficácia equivalente e reduzem danos colaterais ao paciente.
A redução da população bacteriana nativa também elimina a barreira natural contra outros microrganismos que habitam o corpo em menor escala.
“A nossa microbiota pode mudar selecionando algumas bactérias. Como o antibiótico para uma pode não atingir outra, a concorrência diminui e essa outra se prolifera no organismo”, explica o infectologista Eliack.
O especialista ainda ressalta o impacto sobre a população de fungos. “O uso de terapia antimicrobiana pode favorecer o crescimento de fungos que também convivem no nosso corpo, como a Candida, pois a redução da microbiota bacteriana favorece o crescimento deles”, afirma.
A exposição prolongada às substâncias químicas funciona como um estímulo adaptativo para as bactérias sobreviventes. Diante do ataque contínuo, os microrganismos desenvolvem mutações genéticas e mecanismos de defesa para impedir a ação do remédio.
“O uso prolongado aumenta a exposição a essas bactérias que, como qualquer ser vivo, tentam se adaptar ao meio para sobreviver. Elas desenvolvem mecanismos que impedem a ação do antibiótico e dificultam seu tratamento”, pontua Eliack. Caso essas bactérias adaptadas voltem a causar um quadro infeccioso no futuro, as opções terapêuticas disponíveis tornam-se escassas.
A definição da duração de um tratamento não é arbitrária e resulta de testes clínicos rigorosos que analisam a gravidade do quadro e o perfil do patógeno. O tempo de tratamento para cada infecção é definido através das evidências científicas de vários estudos bem controlados. Depende do tipo de microrganismo isolado, do sítio e da gravidade da infecção.
Eliack afirma que a ciência médica caminha para protocolos cada vez mais enxutos e conta que, com novas evidências, é perceptível que tratamentos mais curtos são tão eficazes quanto os mais prolongados em boa parte dos casos, com a vantagem de menor risco de desenvolver resistência bacteriana e eventos adversos.
Controlar o tempo exato de administração dos fármacos é fundamental para conter a emergência de superbactérias. Seguir rigorosamente o prazo determinado na prescrição e evitar o uso por conta própria são medidas indispensáveis para conter a perda de eficácia dos medicamentos e preservar a saúde do microbioma.







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