
Antonio Carlos Secchin analisa o peso do nome do vice na urna (Foto: Instagram)
Na urna, o nome do vice-presidente aparece pequeno, quase como um rodapé. Poucas pessoas prestam atenção. E é ali, nas letras miúdas, que o Brasil frequentemente guarda suas surpresas.
Quem destacou isso foi um homem que passou a vida lendo rodapés. Antonio Carlos Secchin é poeta, crítico e ocupa a Cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras. João Cabral de Melo Neto dizia que ninguém havia lido sua obra tão bem quanto ele. Secchin quase nunca comenta eleições. Quando o faz, é importante ouvir. Ele escreveu nas redes sociais.
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“Há um aspecto que tem sido negligenciado no debate político, e que pode ser crucial para definir os votos dos indecisos: serão eleitos dois candidatos, o presidente e o vice, não apenas um. No Brasil, desde o fim da ditadura, nada menos que metade dos presidentes, 3 em 6, foi substituída pelo vice por diversos motivos: Tancredo, Collor e Dilma. Assim, na eventualidade de algum incidente (comum em nossa História), a pergunta que o eleitor deve responder é: Quem é mais confiável e capacitado para assumir a presidência? Geraldo Alckmin ou Alfredo Gaspar?”
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DUAS VIDAS
Geraldo Alckmin tem 73 anos e quase cinco décadas de vida pública. Médico de Pindamonhangaba, foi vereador aos 19 anos, depois prefeito, deputado, vice de Mário Covas e governador de São Paulo. Como vice-presidente, também liderou o Ministério da Indústria e Comércio até abril, quando se licenciou para concorrer.
Alfredo Gaspar tem 55 anos. Foi promotor em Alagoas por 24 anos e está em seu primeiro mandato como deputado federal. Ficou conhecido como relator da CPMI do INSS, cujo relatório a própria comissão rejeitou. Nem estava entre os cotados e só apareceu após PP e Republicanos recusarem apoio a Flávio. Pessoas da própria campanha classificaram a escolha, em reserva, como “questionável”. Um foi mais direto e disse “péssimo”.
Pesava sobre ele uma acusação grave, levada ao Supremo por Lindbergh Farias e Soraya Thronicke, de que teria engravidado uma menina de 13 anos em Alagoas. Em 6 de outubro, o ministro Gilmar Mendes arquivou o pedido de investigação, atendendo à Procuradoria-Geral da República, que não encontrou provas suficientes. Gaspar sempre negou, chamou a denúncia de vil e falsa e já ganhou, em primeira instância, R$ 50 mil de indenização contra Soraya.
O HOMEM QUE APRENDEU A DESDIZER
Alckmin nunca foi de palco. Quando o apelidaram de “picolé de chuchu”, achou graça e mandou quem quisesse espetáculo ir ver Tom Cavalcante.
Em abril de 2015, perdeu o filho caçula, Thomaz, num acidente de helicóptero. Não transformou a dor em discurso. Desde então, a família caminha até Aparecida pela Rota da Luz, trilha de romeiros criada no governo dele. No ano passado foi a décima vez, e chegaram à Basílica no dia em que Thomaz faria aniversário.
Perdeu duas eleições presidenciais, saiu do partido que ajudou a fundar e parecia aposentado. Em 2017, tinha acusado Lula de querer “voltar à cena do crime”. Quatro anos depois, com a democracia em risco, aceitou sentar com o velho adversário, numa conversa que Fernando Haddad ajudou a costurar. Desdisse sem se desmentir. Pôs o país na frente da própria biografia.
A voz baixa virou método, assim como suas meias exóticas. Quando o tarifaço de Trump caiu sobre o Brasil, Lula entregou a ele a negociação, por saber ser educado com o pequeno e com o grande. Até o petista Luiz Marinho, que dizia ter ojeriza ao seu perfil, reconhecia o trato gentil.
Está casado com Lu há mais de quarenta anos. Ela criou a Padaria Artesanal, que em um único dia ensina dez tipos de pão a quem precisa de renda. Em um ano, já eram 63 unidades pelo país e mais de duas mil pessoas formadas. Há quem prometa pão. Lu ensina a fazer.
O HOMEM QUE FALA ALTO E SOME NA HORA DE VOTAR
Gaspar se apresentou como “soldado” e “para-choque”. O histórico mostra algumas batidas. Em 2025, quando a senadora Eliziane Gama cobrou dele respeito às mulheres na CPMI, ele respondeu lembrando que a irmã dela poderia ser convocada. As falas foram apagadas das notas taquigráficas. Em março, na leitura do relatório, Lindbergh passou do limite e gritou a acusação. Gaspar devolveu dizendo que só tinha “estuprado” corruptos e chamou o colega de bandido e cafetão. O caso foi parar no Conselho de Ética.
Há ainda R$ 6,2 milhões em emendas Pix enviadas por ele para São José da Laje, em Alagoas. O TCU apontou que parte do dinheiro perdeu o rastro, e a vice-prefeita da cidade tinha trabalhado no gabinete dele. O caso entrou num inquérito maior do STF sobre emendas. Gaspar diz que tudo foi regular. Não há condenação, só perguntas.
E houve um silêncio. Quando a Câmara aprovou a PEC da Blindagem, que as ruas chamaram de PEC da Bandidagem, o ex-promotor que se diz caçador de corruptos não votou. Nem sim, nem não. Para quem tem tanta palavra contra os outros, faltou justamente a que ficaria registrada.
QUANDO O RODAPÉ VIRA TEXTO
A conta de Secchin está certa, e os vices fizeram história. Sarney conduziu a volta da democracia e entregou a Constituição de 1988. Itamar, subestimado por quase todos, deu ao país o Plano Real, com Fernando Henrique na Fazenda. Temer, que em 2015 escreveu a Dilma reclamando de ser um “vice decorativo”, estava na cadeira dela cinco meses depois e aprovou o teto de gastos e a reforma trabalhista. Poucas queixas foram atendidas tão depressa.
Até quem não subiu pesou. José Alencar acalmou o mercado na chegada de Lula, criticou os juros do próprio governo sem romper com ele e enfrentou um câncer com uma coragem que comoveu o país. Decorativo, nunca foi.
Antes deles, Floriano segurou a República recém-nascida, Nilo Peçanha plantou a semente das escolas técnicas federais, Café Filho assumiu após o tiro no Catete e Jango entrou depois da renúncia de Jânio.
A ÚLTIMA LINHA
A poesia reunida de Secchin se chama Desdizer. O título serve para este segundo turno. Um dos vices soube desdizer o que disse, em nome de algo maior. O outro diz o que não se diz e cala quando devia falar. No dia 25, antes de apertar o confirma, fica uma pergunta. Faça como o poeta e leia o rodapé?







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