Especialista da USP culpa falta de estratégia por enchentes em São Paulo

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Túnel do Anhangabaú alagado após chuva intensa em São Paulo; taxista observa carro submerso ao lado de ônibus (Foto: Instagram)

São Paulo — "Perdi meu carro hoje no Vale do Anhangabaú. Estou em cima do carro, com passageiro". Esse relato, compartilhado em vídeo nas redes sociais, é de um taxista que perdeu o carro após a chuva que atingiu a capital paulista na última quarta-feira (14/10). As imagens mostram o Túnel do Anhangabaú completamente alagado, com veículos submersos e pessoas ilhadas.

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As mudanças climáticas recentes têm se tornado cada vez mais evidentes no estado de São Paulo. A capital, em particular, tem sido palco de inúmeros desastres relacionados a tempestades intensas em curtos períodos.

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No entanto, São Paulo, conhecida como "terra da garoa", está no centro de uma discussão sobre a responsabilidade pelas tragédias: seria a chuva a verdadeira culpada ou a falta de estratégia e investimento dos órgãos públicos?

Em entrevista, o cientista Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), critica a ideia de que as chuvas são as principais responsáveis pelas enchentes na capital e no estado. Ele destaca a falta de investimentos estratégicos e a má utilização de aparatos científicos para prevenir tais eventos.

Artaxo também menciona que as chuvas em São Paulo têm aumentado desde a década de 1930, mas o número de dias com precipitações acima de 80 a 100 milímetros em 24 horas quadruplicou.

“Quando chove, a quantidade de água é muito maior, aumentando a possibilidade de enchentes. É importante destacar que a culpa não é da chuva, mas da falta de preparação da cidade para eventos de chuva forte que estão se tornando mais frequentes e intensos. É inaceitável que São Paulo, com seus recursos, ainda enfrente enchentes, impactando especialmente a população de baixa renda”, afirma Artaxo.

Esse apontamento está alinhado à redução de 55% nos recursos destinados a sistemas de drenagem, conforme a Lei Orçamentária Anual do estado. De R$ 314,8 milhões em 2025, o valor caiu para R$ 140,8 milhões.

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) afirma que o Governo do Estado possui um plano de R$ 25 bilhões em investimentos em resiliência. Contudo, Artaxo acredita que esses valores podem não refletir uma ação governamental eficaz.

O cientista reforça que, sem estratégia, os órgãos podem gastar em áreas desnecessárias, deixando de investir em pontos cruciais como o aumento de áreas verdes e o treinamento da Defesa Civil.

Questionado sobre ações individuais para mitigar impactos climáticos, Artaxo é claro: “Não há soluções individuais efetivas, somente políticas públicas”.

Ele critica a proximidade dos planos diretores com interesses do setor imobiliário, que afetam as mudanças urbanas e a redução de áreas verdes.

Para tornar as cidades mais habitáveis, Artaxo propõe uma transição civilizatória, rompendo com o modelo exploratório atual e reorganizando a vida a partir de novas perspectivas socioecológicas. Isso inclui reduzir a impermeabilização, investir em transporte público, usar menos combustíveis fósseis e reavaliar o sistema econômico atual.

“O crescimento econômico precisa ser reestruturado para uma sociedade mais sustentável. Temos que construir um novo modelo econômico, não baseado no esgotamento dos recursos naturais ou na superexploração do trabalho”, conclui o cientista.

Leia nota do Governo do Estado na íntegra:

O Governo de São Paulo atua de forma integrada no combate às enchentes, com medidas de prevenção e drenagem, além de ações para fortalecer a segurança hídrica e a capacidade dos municípios de enfrentar eventos climáticos extremos. Sob a coordenação da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), o Estado conta com um plano de R$ 25 bilhões em investimentos em resiliência. O plano reúne grandes obras estruturantes e intervenções locais para reduzir áreas de risco, ampliar a capacidade de resposta das cidades e diminuir os impactos das chuvas intensas e demais eventos dessa natureza.

Para financiar essas ações, o Estado combina recursos do orçamento próprio com verbas do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de linhas de crédito da Desenvolve SP para os municípios. Somam-se a essas iniciativas a concessão da Sabesp, que prevê R$ 260 bilhões em investimentos até 2060, e a PPP de R$ 9,5 bilhões para o desassoreamento e a manutenção dos rios Tietê e Pinheiros, atualmente em andamento.

No ano passado, o Estado concluiu investimentos em obras de maior porte, como o piscinão Jaboticabal e o reservatório Franco Montoro. Para este ano, o orçamento prevê o início de projetos como os piscinões do Córrego Tapera Grande, em Francisco Morato, e a construção de dois novos piscinões localizados em Mauá e Santo André, a contenção da margem esquerda do Córrego Pirajuçara, que beneficia os municípios de Taboão da Serra e Embu das Artes, a atualização dos planos diretores de macrodrenagem do Alto Tietê e de São Luiz do Paraitinga e a obra de proteção de margem do Rio São Lourenço, em Miracatu, entre outras.

O Governo de São Paulo investiu ainda cerca de R$ 1 bilhão, por meio da Defesa Civil do Estado, em ações de prevenção e resposta a desastres. Desse total, R$ 506,3 milhões foram destinados ao SP Sempre Alerta, programa criado pela atual gestão para integrar as ações preventivas e reduzir os impactos de chuvas extremas e incêndios. Os investimentos incluem ainda R$ 319 milhões em 296 obras de recuperação em 213 municípios; R$ 145,2 milhões na entrega de 526 veículos e 1.847 equipamentos aos municípios; R$ 9 milhões em ajuda humanitária; e R$ 16,4 milhões em apoio a 16 municípios atingidos por eventos climáticos extremos.

O monitoramento também foi ampliado, com a instalação de 12 sirenes em áreas de risco e dois radares meteorológicos. Somente em 2026, a Defesa Civil emitiu 4.973 alertas — 4.524 por SMS e 449 por Cell Broadcast. Desde 2023, o órgão também capacitou 19 mil agentes municipais.

Para os próximos quatro anos, o Governo de São Paulo estabeleceu uma agenda com diretrizes específicas de sustentabilidade, adaptação e resiliência climática. Entre as principais diretrizes estão investimentos em ações de adaptação e resiliência climática, com obras e serviços de drenagem, desassoreamento, reservatórios, parques, restauração ecológica e ampliação dos sistemas de abastecimento e saneamento. A estratégia é estruturada a partir do Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), que integra ações de prevenção, monitoramento e resposta aos impactos de eventos extremos.

O programa SP Sempre Alerta será ampliado com foco em prevenção, preparação, resposta e recuperação. O plano contempla ainda o fortalecimento da infraestrutura estadual e municipal, a atualização de instrumentos de planejamento e monitoramento hídrico, a ampliação das ações de desassoreamento e proteção de mananciais e o avanço de projetos específicos de adaptação climática, inclusive para áreas costeiras.

A segurança hídrica terá investimentos robustos para ampliar a disponibilidade de água e reduzir a vulnerabilidade dos municípios. Na área de concessão da Sabesp, serão mais de R$ 9 bilhões nos próximos anos para redução de perdas e ampliação da oferta de água. Também estão previstos novos reservatórios na Baixada Santista e no interior, além dos projetos das barragens de Pedreira e Duas Pontes e do sistema adutor do PCJ, na região de Campinas.

A agenda ambiental está diretamente relacionada à adaptação climática. O plano prevê ampliação da restauração ecológica, proteção de mananciais, fortalecimento das Unidades de Conservação, modernização da gestão de resíduos, prevenção e combate a incêndios florestais e investimentos em economia de baixo carbono e transição energética. Desde 2023, mais de 45 mil hectares de florestas foram colocados em restauração no Estado, incluindo cerca de 10 mil hectares em áreas de nascentes.

Outro eixo estruturante é o IntegraTietê, maior programa de revitalização do rio e de seus afluentes da história de São Paulo, com previsão de mais de R$ 30 bilhões em investimentos até 2029. O programa reúne ações de saneamento, controle de cheias, desassoreamento, recuperação ambiental, lazer, turismo, eficiência logística e governança.

Em relação ao Fundo Clima, é importante fazer uma distinção. A linha de financiamento do BNDES podendo financiar iniciativas de diferentes setores. Portanto, não se trata de recurso destinado ao Estado ou de um fundo ao qual os governos estaduais tenham obrigação de recorrer.

O Governo de São Paulo trabalha com uma estratégia própria de financiamento de políticas públicas, combinando recursos do orçamento estadual, fundos estaduais, organismos multilaterais, linhas de crédito específicas, concessões, PPPs e outras modalidades de parceria e financiamento, de acordo com a natureza e as características de cada projeto.

Desta forma, a política estadual de adaptação, resiliência, segurança hídrica, restauração ecológica e transição para uma economia de baixo carbono é financiada por diferentes instrumentos e fontes de recursos. Entre eles está o Finaclima-SP, mecanismo de financiamento que oferece oportunidades de aplicação de recursos financeiros em projetos estruturados que contribuam para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa, adaptação e resiliência para acelerar a transição climática no estado. Com ele, o Estado planeja ampliar o apoio a ações de restauração ecológica vinculadas aos Termos de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA). Como exemplo, temos o Acordo SP+Verde, que viabilizou a conversão de R$ 8,2 milhões e a formalização de compromissos para recuperar aproximadamente 3 mil hectares de áreas degradadas no Estado.”

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) registrou uma média de 11,4 milímetros de chuva até o fim da quarta-feira (14/10) na capital. Somente na região do Córrego do Anhangabaú, foram 42 mm de chuva em 40 minutos, o equivalente ao esperado para 11 dias de outubro. O volume corresponde a 37% da média prevista para o mês em toda a cidade, de 112 mm. Houve ainda rajadas de vento e o extravasamento do Córrego do Sapateiro, na Vila Mariana, conforme o texto da gestão municipal.

Ainda de acordo com a prefeitura, em decorrência dos eventos climáticos registrados na cidade, a Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) registrou 26 ocorrências de quedas de árvores. A Defesa Civil, da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), entre as 19h de quarta-feira (14/10) e as 7h desta quinta-feira (15/10), atendeu 2 desabamentos (1 na Zona Sul e 1 na Zona Centro-Oeste) e 3 atendimentos de alagamento, todos na Zona Centro-Oeste. Já a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou seis semáforos apagados por falha nos equipamentos e três em amarelo piscante, na manhã de hoje. As equipes de manutenção foram acionadas para os locais.

A gestão também destacou que investiu R$ 11,4 bilhões em drenagem entre 2021 e setembro de 2026, mais que o dobro aplicado pelas gestões anteriores entre 2011 e 2020. Além disso, a atual gestão entregou nove reservatórios para o controle de cheias desde 2021, sendo seis piscinões e três pôlderes, entre outras obras. O Município conta com o Plano de Prevenção às Chuvas (PPC 2026/2027), que mobiliza 161 equipes e mais de 1.500 profissionais para o atendimento de ocorrências. A operação inclui moto-inspetores para agilizar as vistorias e equipes de plantão da Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) durante as madrugadas, para agilizar a resposta às emergências.

“Ao longo de todo o ano, as equipes da SMSUB e das 32 Subprefeituras realizam ações preventivas de zeladoria em toda a cidade. Até setembro de 2026, foram retiradas 149.572,81 toneladas de detritos dos córregos e realizada a limpeza de 149.492 bocas de lobo, poços de visita e galerias. No mesmo período, a Operação Cata-Bagulho recolheu 55.376,75 toneladas de resíduos, por meio de ações programadas semanalmente, quinzenalmente e sob demanda. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ainda possui a Operação Chuvas, com 178 pontos de monitoramento que são ativados conforme as condições meteorológicas e o risco de alagamentos. Com base nas informações do CGE, os agentes são remanejados para locais estratégicos para monitorar as vias e realizar bloqueios, quando necessário. A operação abrange pontos próximos a rios e córregos, além de túneis”, complementou a nota.

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