Jovem descobre câncer de tireoide aos 15 anos e médico comenta aumento de casos

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Anna Laura Rocha mostra o curativo no pescoço após cirurgia para tratar câncer de tireoide com metástase. (Foto: Instagram)

A dor no pescoço foi o primeiro sinal percebido por Anna Laura Rocha, atualmente com 20 anos, residente de Icó, no Ceará. Logo em seguida, surgiram nódulos visíveis no lado direito do pescoço, o que levou a adolescente a procurar atendimento junto aos pais. A investigação revelou um câncer de tireoide com metástases no pescoço e nos pulmões.

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“Não imaginava que seria um câncer, muito menos que a doença teria esse desdobramento e exigiria todo o tratamento pelo qual passei”, relata a estudante de medicina.

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Anna Laura realizou uma ultrassonografia cervical e foi encaminhada para uma punção, procedimento que coleta material para análise. Segundo ela, foram necessários 20 dias para concluir o diagnóstico. O tumor apresentava componentes papilífero e folicular, e as metástases pulmonares foram identificadas posteriormente, nos exames realizados antes da cirurgia.

Apesar do comprometimento pulmonar, ela não sentia falta de ar, cansaço ou outro desconforto respiratório.

POR QUE CÂNCER DE TIREOIDE É COMUM ENTRE OS JOVENS?
O caso chama atenção para uma doença frequentemente detectada em jovens, especialmente mulheres. Rafael De Cicco, cirurgião de cabeça e pescoço e diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, aponta que o câncer de tireoide está entre os mais diagnosticados em mulheres de 20 a 29 anos. Contudo, essa afirmação não se aplica da mesma forma aos homens dessa faixa etária, nos quais predominam outros tipos de tumores.

Segundo o médico, grande parte do aumento nos diagnósticos está relacionada ao maior acesso a consultas, ultrassonografias e exames de imagem mais avançados, capazes de identificar alterações que antes passavam despercebidas. “A maior parte do aumento vem do fato de procurarmos mais”, afirma De Cicco.

O especialista ainda menciona que também há um aumento real, embora menor, possivelmente relacionado à obesidade e a fatores ambientais ainda pouco compreendidos. Assim, o crescimento dos registros se deve tanto a uma maior detecção quanto a um aumento na ocorrência da doença.

De acordo com o cirurgião, a diferença entre os sexos aparece a partir da puberdade e diminui após a menopausa, sugerindo uma influência hormonal, embora o papel do estrogênio ainda não esteja claro.

Entre os fatores de risco conhecidos, o médico destaca a exposição à radiação na região do pescoço durante a infância, o histórico familiar e algumas síndromes hereditárias. Anna Laura afirma que não tinha familiares com câncer e nunca havia feito acompanhamento por alterações na tireoide.

QUAIS SINAIS PRECISAM DE AVALIAÇÃO?
O câncer de tireoide pode se desenvolver sem causar dor ou alterações nos exames hormonais. Por isso, a ausência de sintomas não exclui a doença, como ocorreu com o comprometimento pulmonar de Anna Laura. De acordo com De Cicco, as principais alterações que merecem atenção são:

  • Nódulo na frente do pescoço: é uma das manifestações mais comuns e deve ser avaliado.
  • Caroço na lateral do pescoço: pode corresponder a um linfonodo aumentado, especialmente se persistir por mais de três ou quatro semanas sem melhora.
  • Crescimento progressivo do caroço: aumenta a necessidade de investigação.
  • Rouquidão persistente ou dificuldade para engolir: são manifestações menos comuns e podem estar associadas ao comprometimento de estruturas próximas à tireoide.

A investigação geralmente começa com avaliação médica, dosagem de TSH, exame de sangue usado para avaliar a função da tireoide, e ultrassonografia. Conforme as características encontradas, pode ser indicada uma punção com agulha fina.

“A maioria dos nódulos é benigna, e o objetivo é identificar com precisão os poucos que não são”, explica o cirurgião.

O médico ressalta que jovens sem sintomas ou fatores de risco não devem realizar ultrassonografias de rastreamento indiscriminadamente. A investigação sem indicação pode levar a procedimentos e cirurgias sem benefício.

TRATAMENTO E RETOMADA DOS ESTUDOS
O tratamento depende da extensão da doença e do risco de cada paciente. Segundo o especialista, a cirurgia pode retirar parte ou toda a tireoide, além dos linfonodos comprometidos, quando necessário. O iodo radioativo é utilizado de forma seletiva e, em pacientes jovens, as metástases pulmonares também podem responder ao tratamento.

Anna Laura passou pela retirada total da tireoide e por uma cirurgia para remover estruturas comprometidas no lado direito do pescoço, além de três ciclos de iodoterapia.

O tratamento exigiu viagens para Salvador, períodos de isolamento e restrições alimentares antes das aplicações de iodo. “Enquanto meus colegas saíam e se divertiam, eu precisava permanecer recolhida para tratamentos e dietas rigorosas”, relembra.

A estudante relata fraqueza, queda de cabelo, ressecamento da pele e episódios de taquicardia durante os ajustes da reposição hormonal, além do impacto emocional do afastamento das aulas e do convívio social.

Atualmente, Anna Laura cursa o terceiro semestre de medicina, faz reposição hormonal diária com levotiroxina e mantém acompanhamento médico e psicoterapêutico. Segundo ela, o quadro oncológico está controlado e estável, com consultas e exames periódicos.

“Sinto que meu organismo já se adaptou melhor à reposição hormonal do que nos anos iniciais, então minha qualidade de vida é boa, o que me permite seguir com os estudos, por exemplo.”

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