Pés quentes, útero quente? Médicos afirmam que técnica contra cólica menstrual é mito

Publicado por

–


Andar descalça no frio não resfria o útero nem causa cólicas menstruais, segundo especialistas. (Foto: Instagram)

Embora a medicina tradicional chinesa associe o aquecimento dos pés a um “útero quente”, não há comprovação científica para a ideia de que andar descalça em um piso frio resfrie o órgão reprodutor feminino e provoque dores menstruais.

++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos

As cólicas menstruais têm causas biológicas, hormonais e anatômicas, e são desencadeadas pela produção de prostaglandinas — substâncias inflamatórias produzidas pelo endométrio que estimulam as contrações do músculo uterino.

++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro

O organismo humano conta com mecanismos de autorregulação térmica que protegem os órgãos internos das mudanças na temperatura externa, sem depender do calçado usado ou do contato dos pés com superfícies frias.

O útero fica na cavidade pélvica e acompanha a temperatura central do corpo, mantida estável entre 36 °C e 37 °C pela homeostase. Segundo o ginecologista e obstetra Sérgio Floriano, professor da Universidade São Judas, o corpo feminino tem isolamento físico e vascular que protege a região reprodutiva do frio externo.

“O organismo prioriza manter aquecidos os órgãos vitais e reprodutivos, esteja você com os pés frios ou quentes”, explica Sérgio.

O médico explica que, em dias frios, ocorre vasoconstrição periférica: o cérebro orienta o estreitamento dos vasos sanguíneos nas extremidades. “Por isso os pés ficam frios: o corpo reduz o calor deles para manter o útero aquecido”, afirma.

AS CRENÇAS POPULARES E AS COMPROVAÇÕES DA CIÊNCIA

A ligação entre a temperatura das extremidades do corpo e a saúde reprodutiva tem origem em tradições antigas e na medicina tradicional chinesa, que relacionam as extremidades à circulação de energia. Estudos recentes analisam a relação entre a sensação de frio e a dor, mas não indicam uma ligação direta de causa e efeito.

Um estudo observacional feito em Taiwan em 2023 identificou a sensação de extremidades frias entre os fatores associados à dismenorreia. Outra pesquisa observacional, realizada com 419 mulheres, relacionou o consumo de bebidas geladas no inverno a dores mais intensas em pacientes que já relatavam sensibilidade térmica nas mãos e nos pés.

A ginecologista e professora Cláudia Lima ressalta que é preciso cautela na interpretação desses dados. “São estudos observacionais que encontram associações, mas não comprovam causa e efeito”, pondera. Segundo ela, até agora não há evidências suficientes de que pés frios resfriem o útero ou causem cólicas menstruais.

USO DO CALOR PARA ALÍVIO DA DOR E SINAIS DE ALERTA

Embora o frio nos pés não provoque as dores, o calor aplicado localmente pode ajudar a reduzir o desconforto, com respaldo científico. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2018 analisou a terapia térmica e confirmou resultados favoráveis do uso de calor no abdômen para aliviar cólicas menstruais.

Especialistas alertam que crenças populares não devem impedir a mulher de buscar uma avaliação médica adequada quando a dor é maior do que o suportável.

Dores intensas que atrapalham as atividades do dia a dia podem estar relacionadas a condições médicas como endometriose, miomas uterinos, adenomiose ou doença inflamatória pélvica.

“Tomar uma bebida quente ou manter os pés aquecidos pode trazer conforto. O problema é quando uma crença faz a pessoa adiar a procura por atendimento médico”, alerta a ginecologista.

Acompanhe notícias de Saúde e Ciência pelo WhatsApp e fique por dentro das atualizações. Acesse um canal de notícias no aplicativo.

Para saber mais sobre ciência e nutrição, confira as reportagens de Saúde.

Tags: ciência, Saúde, Saúde feminina

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *