Cerrado pode armazenar até seis vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

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Solo do Cerrado pode armazenar até seis vezes mais carbono por hectare que a vegetação amazônica, aponta estudo. (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – O Cerrado pode guardar no solo até seis vezes mais carbono por hectare do que a vegetação amazônica. Embora esse estoque seja importante para conter as mudanças climáticas, campos, savanas e outras formações abertas ainda recebem menos atenção nas políticas ambientais e nos mercados de carbono, segundo pesquisadores.

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Publicado na revista científica Plants, People, Planet, um estudo defende a inclusão desses ecossistemas nos mecanismos de financiamento climático. A pesquisa também alerta que plantar árvores indiscriminadamente em áreas naturalmente abertas pode prejudicar a biodiversidade e modificar o funcionamento desses ambientes.

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De acordo com os pesquisadores, os solos do Cerrado podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, seis vezes mais do que a vegetação da Amazônia. Parte desse carbono está no solo há até 20 mil anos.

“Todos os padrões e métodos usados nos mercados de carbono se baseiam em áreas florestais. Por isso, atualmente não é possível incluir campos, savanas e outros ecossistemas abertos”, afirmou a autora principal, Franciele Peixoto, analista ambiental do estado de Goiás.

Para o biólogo e professor de ecologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fernando Silveira, um dos autores do estudo, parte do carbono estocado no Cerrado fica sob a terra, o que torna mais difícil contabilizá-lo.

“Em locais com solos hidromórficos, como veredas e campos úmidos, a decomposição microbiana ocorre muito devagar. A matéria orgânica se acumula sem se decompor rapidamente. Ao longo de milhares de anos, isso forma um estoque subterrâneo de carbono”, explica.

Segundo o professor, o carbono armazenado no subsolo pode ficar mais protegido ao longo do tempo do que aquele concentrado na vegetação acima da terra. “Esse estoque subterrâneo é mais seguro no longo prazo e contribui com mais segurança para mitigar as mudanças climáticas”, afirma.

CARBONO INVISÍVEL NAS POLÍTICAS CLIMÁTICAS

Silveira avalia que os métodos usados para calcular créditos de carbono ainda dão preferência às florestas e à biomassa visível, como troncos e galhos. Assim, parte do carbono dos solos e das raízes de ecossistemas abertos pode não entrar nos cálculos.

“O Cerrado é como a ponta de um iceberg: uma parte está à vista, mas o que fica sob o solo não pode ser visto. Com isso, o carbono estocado nesses ambientes acaba subestimado”, diz.

Para transformar esse quadro, o professor defende métodos que permitam medir e validar o carbono subterrâneo.

“É necessário criar mecanismos para mudar a metodologia dos créditos de carbono. O modelo aplicado às florestas observa principalmente o que está acima do solo e não serve para medir o que está debaixo da terra”, afirma.

A pesquisa também destaca a conversão da vegetação nativa em lavouras, pastagens e áreas urbanas. Mais de 46% da vegetação original do Cerrado já havia sido desmatada, conforme estudo de 2022 citado no material da pesquisa.

Além de liberar carbono, a transformação desses ambientes pode colocar em risco estoques cuja formação demora muito tempo. Silveira explica que a recuperação do Cerrado campestre pode ser bem mais lenta do que a de áreas florestais.

“As plantas do Cerrado crescem mais devagar e concentram grande parte de sua estrutura sob a terra, nas raízes e em outras estruturas subterrâneas. Por isso, a recuperação do carbono também leva mais tempo”, afirma.

O professor diz que, enquanto uma floresta pode recuperar parcela considerável de sua estrutura em algumas décadas, áreas abertas do Cerrado com poucos nutrientes podem levar séculos para se restabelecer. Ele cita estimativas segundo as quais a recuperação de metade da condição original desses campos pode demorar até 800 anos, conforme o ambiente.

PLANTAR ÁRVORES NEM SEMPRE É A SOLUÇÃO

Na avaliação do pesquisador, também é preciso rever a ideia de que plantar árvores sempre beneficia o clima. Em campos e savanas naturais, a existência de árvores não significa necessariamente recuperação ambiental: essas formações têm características próprias e espécies adaptadas à alta incidência de luz.

“Quando os ambientes abertos não são valorizados, surge a ideia de que a solução é plantar árvores. Mas isso pode modificar o bioma, e as plantas do Cerrado precisam de luz”, afirma Silveira.

O professor menciona os campos rupestres da Serra do Cipó, de Diamantina e da Chapada Diamantina como exemplos da diversidade desses ambientes. De acordo com ele, dependendo das áreas comparadas, essas formações podem abrigar uma riqueza de espécies vegetais muito maior que a das florestas.

Por essa razão, o pesquisador defende que as iniciativas de restauração levem em conta as características originais de cada ecossistema. Em vez de plantar árvores sem critério, a prioridade deve ser proteger a vegetação nativa e desenvolver técnicas apropriadas para recuperar áreas realmente degradadas.

CERRADO É ESTRATÉGICO PARA A SEGURANÇA HÍDRICA

A relevância do bioma não se limita ao armazenamento de carbono. O Cerrado também é fundamental para a recarga de aquíferos e para abastecer rios que atendem diferentes regiões do país.

“O Cerrado é chamado de pai das águas. Sua localização estratégica no Planalto Central conecta os biomas brasileiros e fornece água a diversas regiões”, afirma Silveira.

O professor ressalta que oito das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras têm nascentes no Cerrado. A destruição da vegetação pode prejudicar o abastecimento e a segurança hídrica das populações que dependem desses rios, além de afetar a agricultura.

“Destruir o Cerrado compromete a segurança hídrica de cerca de 50 milhões de brasileiros e também a produção agrícola”, alerta.

Em Minas Gerais, o professor destaca o norte e o noroeste do estado e áreas da Serra do Espinhaço como regiões que precisam de atenção. Ele também chama a atenção para os efeitos da mineração em áreas importantes para a dinâmica da água.

Para Silveira, proteger o Cerrado requer uma visão integrada da vegetação, dos solos, dos aquíferos e da biodiversidade. A perda de áreas naturais também ameaça a conexão entre os biomas brasileiros.

EDUCAÇÃO E POLÍTICAS DE CONSERVAÇÃO

Para o professor da UFMG, a menor valorização dos ecossistemas abertos tem origem histórica e cultural. Ele avalia que a educação ambiental e o imaginário associado às florestas contribuíram para que campos e savanas fossem vistos como ambientes menos importantes.

“Os brasileiros não conhecem nem valorizam o Cerrado como deveriam. Precisamos mudar o sistema educacional e mostrar a importância dessas regiões. Isso é cultural; aprendemos com os europeus”, afirma.

Silveira também defende que as políticas de combate ao desmatamento não concentrem suas ações somente na Amazônia. Para ele, proteger um bioma não pode significar destruir outro.

“Se há mecanismos para impedir o desmatamento na Amazônia, eles também precisam valer para o Cerrado. O Cerrado não pode ser uma zona de sacrifício. É necessário olhar para os ambientes abertos e preservar a integração entre todos os biomas brasileiros”, diz.

O estudo recomenda ampliar o reconhecimento de campos, savanas e outros ecossistemas abertos nas políticas climáticas, desenvolver métodos para contabilizar o carbono presente no solo e nas raízes e destinar recursos à conservação e à restauração apropriada desses ambientes.

Tags: cerrado, Minas Gerais

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