
Boicotes políticos e ameaças ampliam a tensão em Minas Gerais após a eleição presidencial. (Foto: Instagram)
Belo Horizonte — A disputa pela Presidência da República terminou no último domingo (25/10), mas a polarização política continua provocando tensões em Minas Gerais, mesmo após o resultado. Nos dias que sucederam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), começaram a circular listas de boicote a comércios e vídeos de empresários defendendo a demissão de trabalhadores de esquerda. O cenário alimentou ameaças nas redes, divergências entre parlamentares da direita e até conflitos em gestões municipais.
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A onda de boicotes ganhou força logo depois da divulgação do resultado da eleição presidencial. Em várias cidades mineiras, apoiadores da direita começaram a compartilhar listas de estabelecimentos comerciais e empresas apontados como apoiadores de Lula, incentivando consumidores a não frequentar esses locais.
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O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) endossou a intensificação das manifestações políticas em Minas e passou a defender nas redes sociais a “liberdade de escolha”. “Ora, nós temos o direito de escolher para onde vai o nosso salário, que nada mais é do que o fruto do suado e sagrado trabalho de cada um”, afirmou em um vídeo.
Uma das publicações mais controversas do parlamentar tratou do projeto Cozinhando Bem, que distribui alimentos a pessoas em situação de rua em Porto Alegre (RS). Na ocasião, Nikolas ironizou a perda de patrocínio da iniciativa depois que seu fundador, o chefe Julio Ritta, declarou apoio a Lula.
DIVERGÊNCIA NA DIREITA
A posição de Nikolas contrastou com manifestações de outras lideranças da direita mineira, entre elas integrantes do próprio PL. O deputado federal Zé Vitor (PL-MG), presidente da legenda no estado, criticou os boicotes e a intolerância política. Segundo ele, a disputa eleitoral não deve transformar adversários em inimigos.
“Quando é que nós deixamos os partidos políticos nos engolir? Que vergonha, dos dois lados. Tanta ofensa, tanta intolerância, tanta gente tratando o outro como inimigo só porque ele pensa diferente”, declarou.
O parlamentar também mencionou os boicotes a comerciantes e produtores rurais e criticou o desprezo a beneficiários de programas sociais por causa de suas posições políticas. “Quando foi que a gente deixou de enxergar pessoas e passamos a enxergar eleitores?”, questionou.
As críticas se juntam às declarações do governador eleito de Minas, Cleitinho Azevedo (Republicanos), que pediu o fim das brigas políticas. Ele afirmou que os boicotes deveriam mirar os privilégios da classe política, e não comerciantes e trabalhadores.
“Quem tem que ser boicotado, gente, é a classe política. Agora, cobre do seu político que foi eleito”, declarou o governador eleito em vídeo publicado na quarta-feira (28/10).
O irmão dele, o prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Novo), também condenou a prática e defendeu o respeito às diferenças políticas. “Não se pode pagar o mal com o mal”, afirmou.
SECRETÁRIO DEMITIDO DE PREFEITURA
Os boicotes também repercutiram nas administrações municipais. Nessa sexta-feira (30/10), o prefeito Otacílio Costa, de Conceição do Mato Dentro, na Região Central de Minas, comunicou a exoneração de um secretário em meio à controvérsia envolvendo comerciantes da cidade.
Em pronunciamento nas redes sociais, o chefe do Executivo e presidente do PSB Minas disse que sua gestão não aceita perseguição política e defendeu que os moradores sejam tratados igualmente, independentemente de suas escolhas eleitorais.
“Na nossa gestão, nós não podemos admitir esse tipo de situação lamentável, onde se incentiva o boicote a comerciantes que não são de um partido político ou de outro”, declarou.
O prefeito ainda recordou episódios de perseguição política que, segundo ele, enfrentou após as eleições de 2016 e ressaltou que não permitiria situações semelhantes em sua administração.
AMEAÇAS DE AGRESSÃO APÓS POST DE NIKOLAS
A onda de boicotes também resultou em ameaças de agressão. O humorista e produtor mineiro Bruno Motta, de 46 anos, contou que recebeu milhares de mensagens agressivas depois que Nikolas ironizou uma publicação sua.
De acordo com ele, o caso começou quando relatou nas redes sociais o cancelamento de uma apresentação corporativa por razões políticas. O deputado compartilhou a publicação e debochou: “Tá assustadinho, gente”.
O humorista afirmou que, após a repercussão, recebeu mensagens ofensivas e ameaças de pessoas que diziam que poderiam agredi-lo se o encontrassem pessoalmente ou fossem a seus espetáculos.
“GRAVES IRREGULARIDADES”
O Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que recebeu diversas denúncias de ameaças contra trabalhadores motivadas por posicionamentos políticos. A procuradora regional do Trabalho Luciana Marques Coutinho afirmou que o órgão atuará para identificar os responsáveis pelas publicações, classificadas por ela como “graves irregularidades”, e investigar possíveis irregularidades.
“Todas as provas devem ser guardadas e juntadas. A pessoa que posta esse tipo de conteúdo pode ser responsabilizada”, disse a procuradora, que orientou os trabalhadores a registrar as ameaças e enviar as denúncias ao MPT.
Segundo a procuradora, ameaças e constrangimentos ligados às posições políticas dos trabalhadores podem caracterizar assédio eleitoral e gerar consequências trabalhistas, civis e até criminais.
Entre as sanções possíveis estão indenizações por danos morais, a reintegração de trabalhadores demitidos, caso queiram voltar ao emprego, e a obrigação de fazer uma retratação pública. Empresas também podem ser condenadas a interromper essas práticas e impedidas de obter empréstimos em bancos públicos, conforme as medidas aplicáveis a cada caso.
Tags: Minas Gerais, Cleitinho Azevedo, Nikolas Ferreira, Zé Vitor, boicotes políticos, MPT







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