Um mês depois dos incêndios, Maxakali enfrentam falta de água e roças destruídas

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Queimadas atingiram cerca de 3,5 mil hectares da Terra Indígena Maxakali, em Minas Gerais, e destruíram quase 90% das áreas de recuperação do Projeto Hãmhi. (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – Um mês após o início das intensas queimadas na Terra Indígena Maxakali, nos municípios de Bertópolis e Santa Helena de Minas, no Vale do Mucuri, os indígenas ainda enfrentam dificuldades para lidar com os efeitos da destruição. Ao todo, cerca de 3,5 mil hectares foram queimados, o equivalente a aproximadamente 4,9 mil campos de futebol e a 65% do território.

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ESPÉCIES AMEAÇADAS E ÁREAS DE RECUPERAÇÃO ATINGIDAS

Há mais de três anos, o Projeto Hãmhi atua com o povo Maxakali na recuperação da vegetação, no cultivo de alimentos e na formação de indígenas para trabalhar com mudas e reflorestamento. A meta é, como dizem os próprios indígenas, “trazer a floresta de volta”.

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Parte desse trabalho foi destruída pelo fogo. “As chamas atingiram áreas em processo de recuperação, tanto por meio de plantios quanto pelo crescimento natural da vegetação. Ainda estamos calculando os danos”, explicou Kamila. O projeto informou que quase 90% desse esforço foi perdido.

Entre os danos estão a destruição de árvores nativas, como o jacarandá-da-Bahia, espécie ameaçada de extinção, a morte de animais e a perda de nutrientes do solo. As queimadas também deixaram nascentes desprotegidas, o que pode prejudicar a qualidade da água dos rios e tornar ainda mais difícil a produção de alimentos.

“A vegetação também era muito importante como material para cobrir as casas. Com as queimadas, esse recurso ficou escasso, e a necessidade de lonas aumentou bastante”, conta Kamila Paganelli, coordenadora técnico-pedagógica do Projeto Hãmhi, iniciativa dedicada à recuperação ecológica, à soberania alimentar e à proteção ambiental em territórios do povo Maxakali.

O FOGO

Embora haja suspeitas de que o fogo tenha sido provocado por ações criminosas, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que as investigações continuam. Até o momento, ninguém foi responsabilizado.

“A principal dificuldade é recomeçar as roças e os plantios perdidos. Quintais e áreas de cultivo que já produziam alimentos, como batata, frutas e mandioca, precisam ser refeitos, e isso exige recursos. Algumas famílias ainda enfrentam falta de água, e a caça também está bastante escassa”, explica Kamila Paganelli.

Para Rosângela Pereira de Dugne, professora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e integrante da coordenação do projeto, a demora na investigação policial aumenta a insegurança dos indígenas.

“A ausência de investigação e de punição dos responsáveis deixa a comunidade em uma situação de grande vulnerabilidade. O povo Maxakali já enfrenta um histórico de violência, racismo e luta pelo território. A demora nas investigações só aumenta essa insegurança”, afirmou.

COMO O FOGO COMEÇOU

O primeiro incêndio foi registrado em 7 de outubro. Naquele dia, a equipe do Projeto Hãmhi trabalhava em um viveiro de mudas na Aldeia do Pradinho quando começou a receber mensagens e imagens das chamas.

“Percebemos que nossa equipe poderia apoiar os brigadistas Maxakali, levando-os até o local e ajudando no transporte dos materiais de combate ao fogo e dos equipamentos de proteção”, contou Kamila.

Segundo ela, o incêndio começou em um trecho da Terra Indígena frequentado por muitos veículos de pessoas que não pertencem à comunidade. A estrada liga o distrito de Bom Jesus da Vitória aos municípios de Santa Helena de Minas e Bertópolis.

“Não há moradias próximas ao ponto onde o fogo começou, mas, por causa da seca e do vento, as chamas se espalharam por uma grande área de vegetação nativa e chegaram perto das casas Maxakali”, explicou.

O incêndio foi controlado em 10 de outubro. No dia seguinte, porém, um novo foco surgiu, desta vez em uma fazenda vizinha. “Relatos, observações no local e imagens de satélite indicam que as chamas começaram na fazenda, embora ainda não se saiba o motivo”, relatou Kamila.

Ainda não é possível dizer se houve intenção criminosa. “Não sabemos se foi um incêndio provocado para atingir a aldeia ou se o fogo saiu do controle, atravessou a estrada e entrou no território. As chamas se espalharam muito rapidamente, mesmo com a presença de brigadistas do Ibama. Por isso, é preciso investigar”, disse. O fogo só foi controlado em 15 de outubro.

Um áudio em tom de chacota viralizou na região e passou a relacionar os incêndios ao processo eleitoral, aumentando as suspeitas. Segundo Rosângela, a gravação ironizava a tragédia: “É como se tivesse rindo deles, fazendo chacota com o sofrimento deles”.

PROJETOS PEDEM MEDIDAS PARA EVITAR NOVOS INCÊNDIOS

Além de recuperar as áreas destruídas, representantes dos projetos que atuam no território defendem a criação de um Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF). Segundo Rosângela, a proposta já foi apresentada a órgãos públicos, como prefeituras, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

A proposta é definir responsabilidades para prevenir e combater incêndios, incluindo a abertura de aceiros, faixas de terreno sem vegetação que ajudam a conter o avanço das chamas. “É preciso um plano que envolva municípios, estado e União, com responsabilidades definidas para proteger o território, construir aceiros e fortalecer as práticas de queima controlada”, explicou.

VAQUINHA BUSCA ARRECADAR R$ 100 MIL

Enquanto as comunidades tentam se recuperar dos prejuízos, uma campanha on-line foi criada para ajudar a reconstruir as áreas atingidas. Organizada pela Teia dos Povos, a vaquinha foi lançada na terça-feira (3/11) e pretende arrecadar R$ 100 mil.

O dinheiro será destinado à compra de sementes e mudas, à preparação do solo e à alimentação dos indígenas que participarão dos mutirões de recuperação.

AS AUTORIDADES

Em nota enviada em 19 de outubro, o Ibama informou que o pedido dos Maxakali para o reconhecimento oficial da Brigada Voluntária Mãtanãg Kõnãnghi, criada em novembro de 2024, assim como as solicitações de equipamentos, veículos e contratação de brigadistas, serão incluídos no planejamento de contratação de brigadas para 2027.

O Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Ibama afirma que atua continuamente na TI Maxakali e que, em 2024, foi realizado o 1º Curso de Formação de Brigadistas Voluntários, em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Na ocasião, o Prevfogo entregou equipamentos de proteção individual (EPIs), uniformes e todo o material utilizado pelas brigadas do Ibama. Em 2025 e 2026, foram realizadas atividades de queima prescrita sob coordenação do Prevfogo.

Também foram procuradas as prefeituras de Santa Helena de Minas e Bertópolis e a Secretaria de Estado Meio Ambiente, que ainda não haviam respondido.

Tags: Minas Gerais, povos indígenas

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