Estudo Levanta Suspeitas de Desempenhos Improváveis no Provão Paulista em 50 Escolas

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Estudantes do Provão Paulista realizam prova em escola estadual (Foto: Instagram)

Um levantamento realizado com dados da Secretaria da Educação de São Paulo (Seduc) aponta desempenhos "extremamente improváveis" de alunos no Provão Paulista, concentrados em um grupo seleto de escolas estaduais. O estudo sugere que esses dados podem ter influenciado a seleção de estudantes para universidades públicas.

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A análise da Rede Escola Pública e Universidade (Repu) conclui que a aplicação da avaliação nas três primeiras edições não foi uniforme entre as escolas e que os resultados são "compatíveis com a ocorrência de fraude sistêmica", versão que a Seduc contesta.

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Criado em 2023 pela gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), o Provão é um exame seriado que oferece vagas em universidades públicas de São Paulo (USP, Unesp, Unicamp, Fatecs e Univesp). Os resultados também são usados pelo governo para avaliar a eficácia das escolas.

Os pesquisadores analisaram os microdados das edições de 2023, 2024 e 2025 da prova, fornecidos pela Seduc. Pelo menos 4.305 estudantes do 3º ano do ensino médio tiveram aumentos "extraordinariamente elevados e improváveis", com pelo menos três desvios-padrão — um incremento de cerca de 20 pontos de um ano para o outro.

O estudo compara o desempenho de alunos das redes municipais. Nas Etecs, apenas 0,17% dos estudantes apresentaram resultados atípicos em 2025, proporção considerada normal. Entre os estudantes do 3º ano da rede estadual, os resultados atípicos que eram 0,49% em 2024 subiram para 1,91% em 2025.

DESEMPENHO ATÍPICO EM 50 ESCOLAS
Além disso, metade dos desempenhos atípicos para o 3º ano do ensino médio identificados em 2025 estava concentrada em apenas 50 escolas estaduais – 1,4% das unidades participantes do Provão Paulista – e em apenas oito das 91 Unidades Regionais de Ensino (UREs). Em 44 escolas estaduais, mais de 40% dos estudantes apresentaram desempenhos atípicos, chegando a mais de 90% em algumas unidades.

“Em tese, e por várias razões, um aluno poderia apresentar uma melhora excepcional de um ano para o outro em um exame. O problema ocorre quando, coincidentemente, milhares de resultados excepcionais aparecem concentrados nas mesmas escolas e nas mesmas regiões. Nesse caso, só um milagre poderia explicar o fenômeno”, afirma Fernando Cássio, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos responsáveis pelo estudo.

Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), aponta que, ao mesmo tempo em que os resultados atípicos identificados estão concentrados em algumas escolas e regiões, esse fenômeno se manifesta em várias partes do estado. “É isso o que permite concluir que a fraude, embora não generalizada nas escolas da rede estadual, é certamente sistêmica e incompatível com a hipótese de irregularidades pontuais defendida pelo governo de São Paulo no final de 2025”, diz.

O pesquisador afirma que isso não significa que seja possível identificar retrospectivamente estudantes que tenham fraudado a prova. “A análise estatística não permite determinar se um resultado individual foi obtido de maneira legítima ou irregular. O problema identificado é de outra natureza.”

Para os autores do estudo, nenhuma hipótese alternativa, como características socioeconômicas das escolas e alterações na gestão escolar, podem explicar os números.

A análise também aponta uma “forte associação” entre a proporção de resultados atípicos e a de estudantes dessas escolas que foram convocados para matrícula em quatro instituições públicas de ensino superior no primeiro semestre de 2026.

Dos 14.271 estudantes da rede estadual convocados no primeiro semestre de 2026, 1.608 – 11,3% do total – estudavam em 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados individuais foram classificados como atípicos. Outros 1.266 convocados vieram de escolas com mais de 40% de resultados atípicos, e 1.017, de escolas em que mais da metade dos estudantes apresentou desempenho anômalo.

O QUE DIZ A SEDUC
Em nota, a Secretaria da Educação afirma que os dados apresentados no estudo não permitem sustentar a conclusão de ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista nem de comprometimento do processo seletivo. “Associar resultados estatisticamente atípicos à ocorrência de fraude, sem evidências individualizadas que estabeleçam essa relação, é uma correlação temerária e que extrapola o que os próprios dados permitem afirmar”, diz.

“A Seduc-SP realizou análise complementar das escolas apontadas no estudo e cruzou os resultados com o Saeb, avaliação organizada pelo Inep e aplicada por equipe externa. Entre as 34 escolas com dados comparáveis, 22 apresentaram desempenho elevado e/ou evolução relevante em matemática.”

A pasta diz não minimizar ocorrências anteriores de descumprimento das regras de aplicação. Em 2025, foram identificados seis casos pontuais de estudantes que ingressaram com celulares nas salas e fotografaram questões durante a realização do exame. “Não houve acesso prévio ao conteúdo da prova nesses casos. As provas foram anuladas e as equipes escolares orientadas quanto ao cumprimento do regulamento do Provão.”

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