Instituto Conhecer Brasil, liderado por Karina Gama, assume projeto de Wi-Fi em SP

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Karina Gama, à frente do Instituto Conhecer Brasil, alvo de investigação sobre contrato de R$ 108 milhões para Wi-Fi gratuito em periferias de SP (Foto: Instagram)

Antes de firmar um contrato de R$ 108 milhões para instalar e manter milhares de pontos de internet gratuita nas periferias de São Paulo, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), liderado por Karina Gama, estava envolvido principalmente em feiras, eventos educacionais, projetos culturais e atividades religiosas.

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Documentos da Polícia Civil de São Paulo revelam uma alteração significativa no foco da entidade, que passou de iniciativas culturais e do segmento gospel para a execução de um dos principais programas de conectividade da Prefeitura de São Paulo.

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Fundado em 1990, o ICB inicialmente se associou a projetos culturais e religiosos financiados, entre outros meios, por emendas parlamentares. Com o tempo, a entidade também obteve recursos para iniciativas esportivas e de letramento digital.

Em 2024, o instituto deu um grande passo ao firmar um acordo com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) no valor de R$ 108 milhões para instalar, operar e manter 5 mil pontos de Wi-Fi público em comunidades da capital.

A parceria tornou-se alvo de uma investigação da Polícia Civil sobre possíveis irregularidades na contratação, pagamentos e execução do projeto.

A polícia, ao solicitar autorização judicial para buscas, destacou a mudança no perfil de atuação do ICB.

Os investigadores apontam que o ICB não tinha experiência prévia no setor de telecomunicações, atuando tradicionalmente em “feiras e eventos literários ou religiosos”.

O instituto foi o único participante do chamamento público que resultou no acordo de R$ 108 milhões.

LITERATURA E EVENTOS GOSPEL
Um projeto que ajuda a traçar a trajetória do ICB é o encontro literário IDE, realizado em 2018, quando o instituto estava localizado na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo.

O IDE era um evento de literatura cristã que reunia autores e figuras do meio gospel.

O contrato para o evento foi assinado por Karina Ferreira da Gama, que já liderava o ICB.

Karina também se envolveu em outras organizações. Em 2020, ela assumiu a direção da Academia Nacional de Cultura (ANC), que mais tarde também receberia recursos de emendas parlamentares.

Em 2023, conforme documentos anexados à investigação, Karina participou de uma reunião no gabinete do prefeito Ricardo Nunes.

No mês seguinte, foi solicitado à Secretaria Municipal de Cultura uma parceria para o Mega Dance Musical, no Parque Ibirapuera.

O projeto, ligado à Força Jovem Universal, braço jovem da Igreja Universal, previa R$ 1,084 milhão. A documentação da polícia liga os recursos a emendas dos vereadores Atílio Francisco e Rinaldi Digilio.

ATLETAS CRISTÃOS
Outra empresa ligada a Karina é a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural. Fundada em 2005, obteve em 2021 autorização para captar R$ 4,9 milhões para produzir uma série sobre atletas cristãos.

Na época, Mario Frias era secretário especial da Cultura do governo federal. O projeto foi cancelado e não captou os recursos autorizados. Assim, os R$ 4,9 milhões não foram recebidos pela empresa.

A mesma empresa aparece posteriormente associada a serviços prestados nas eleições de 2022, com um pagamento de R$ 13 mil pela campanha de Felipe Carmona.

EMENDAS DE MARIO FRIAS
Nos anos seguintes, entidades ligadas a Karina passaram a receber recursos de emendas parlamentares. Em 2025, Mario Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão ao ICB. Uma era para um projeto esportivo e a outra para letramento digital.

O instituto afirmou que os dois projetos eram independentes do WiFi Livre SP e que os recursos tinham destinação própria.

A Academia Nacional de Cultura também aparece nesse histórico, recebendo em 2024 R$ 2,6 milhões em emendas Pix de deputados federais do PL, além de R$ 200 mil do deputado estadual Gil Diniz.

O dinheiro estava vinculado ao projeto documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”.

R$ 108 MILHÕES
Foi em junho de 2024 que o ICB assumiu o projeto de maior dimensão mencionado na investigação.

O Termo de Colaboração nº 01/2024-SMIT previa R$ 108 milhões para a implantação, operação e manutenção de 5 mil pontos de internet sem fio em comunidades de São Paulo.

A mudança de perfil chamou a atenção da Polícia Civil. Na representação à Justiça, os investigadores afirmaram que o ICB não tinha experiência anterior no setor de telecomunicações e destacaram que somente a entidade participou do chamamento público.

A polícia também registrou que o Tribunal de Contas do Município havia identificado ao menos 20 problemas no edital e recomendado a suspensão do procedimento.

VALORES
O custo do projeto também foi analisado pelos investigadores. A Polícia Civil comparou o acordo com contratos anteriores da Prefeitura com a Prodam, empresa municipal de tecnologia.

Segundo a polícia, as contratações anteriores previam R$ 230 para implantação e R$ 306 para manutenção por ponto. No acordo com o ICB, o valor poderia chegar a R$ 1,8 mil mensais por ponto.

Os investigadores consideraram a nova contratação como “substancialmente mais onerosa para os cofres públicos” e afirmaram que, naquele momento, não haviam encontrado justificativa técnica ou econômica para a diferença.

A Prefeitura contesta essa comparação, afirmando que o projeto do ICB inclui não apenas o fornecimento de internet, mas equipamentos, infraestrutura, obras civis e elétricas, mapeamento e projetos executivos, entre outros serviços.

EXECUÇÃO
O andamento do programa também foi analisado.

O plano de trabalho previa 5 mil pontos de conectividade até junho de 2025. A representação policial registra que 3,2 mil haviam sido instalados e que três termos aditivos foram assinados para prorrogar obrigações.

A Polícia Civil também investiga suspeitas de pagamentos realizados antes da execução correspondente dos serviços. Segundo a representação, R$ 26 milhões teriam sido pagos sem a respectiva entrega.

Outro ponto mencionado no documento envolve mais de R$ 11 milhões pagos ao ICB em julho e agosto de 2024, referentes a 3,2 mil pontos. A representação registra que apenas seis estariam funcionando naquele momento.

FORNECEDORES
Para executar o programa, o ICB contratou várias empresas. Os sete maiores contratos com fornecedores somavam cerca de R$ 98 milhões.

Entre as empresas citadas nos autos estão Make One Tecnologia Digital, Ultra IP Tecnologia e Serviços, Favela Conectada, posteriormente chamada Urban Connect, Complexys Soluções Integradas e Fastfuture Tecnologias Emergentes. Parte dessas empresas foi alvo das buscas da Polícia Civil.

A Make One aparece na representação relacionada a quatro faturas que somavam R$ 8,5 milhões. A Urban Connect é citada em relação a um contrato de R$ 12 milhões. A Complexys entrou no radar por uma nota fiscal de R$ 2 milhões que, segundo a investigação, havia sido cancelada.

NOVOS ACORDOS
Conforme divulgado pela coluna, a investigação revelou que o acordo de R$ 108 milhões não era o único vínculo entre o ICB e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

Durante a Operação WiFi Livre, realizada em 1º de junho deste ano, policiais cumpriram um mandado de busca na sede da SMIT.

No 27º andar, o diretor financeiro João Paulo Santana de Jesus apresentou a documentação completa do acordo de R$ 108 milhões e as respectivas prestações de contas.

Na mesma ocasião, entregou documentos de “outros 04 (quatro) termos de colaboração” celebrados entre o ICB e a secretaria.

DARK HORSE
Computadores, celulares, pen drives e documentos foram recolhidos durante as buscas. A Justiça também autorizou a extração de mensagens, e-mails, planilhas e arquivos armazenados em nuvem vinculados aos equipamentos apreendidos.

A Polícia Civil tenta reconstruir o caminho percorrido pelos recursos públicos, verificar as subcontratações feitas pelo instituto e descobrir quem participou da autorização, fiscalização e execução dos pagamentos.

Foi nesse contexto que a investigação paulista acabou se aproximando do caso Dark Horse.

Karina, representante legal do ICB, também é ligada à Go Up Entertainment, produtora do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mario Frias é produtor executivo da obra.

A Polícia Civil registrou entre as hipóteses investigadas a possibilidade de recursos públicos destinados ao programa de Wi-Fi terem sido desviados para outras finalidades, inclusive para a produção do filme.

A Prefeitura de São Paulo nega que recursos municipais tenham sido usados na produção e afirma não existir relação entre o WiFi Livre SP e o filme.

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