
Colunistas avaliaram o desempenho de Lula e Flávio Bolsonaro no debate da TV Globo antes do segundo turno. (Foto: Instagram)
O último confronto televisivo entre Flávio Bolsonaro e Lula antes do segundo turno ocorreu em uma das disputas mais acirradas da história. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência da República, participaram do debate da TV Globo na noite de sexta-feira (23/10). Depois do encontro, colunistas foram convidados a avaliar o desempenho dos presidenciáveis e dar notas a cada um.
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O resultado expressa a percepção dos colunistas sobre a atuação dos candidatos durante o debate.
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Cada colunista deu notas de 0 a 10 para os dois candidatos. A classificação final representa a média das avaliações individuais: 0 é a menor nota e 10, a maior. Além das pontuações, os jornalistas analisaram os principais momentos do confronto.
Confira as notas e os comentários de cada colunista.
GABRIELLA FURQUIM
Flávio Bolsonaro – 5
Lula – 5
Nos palanques, Flávio Bolsonaro defende com entusiasmo um “tesouraço” nos moldes do presidente argentino Javier Milei. No debate, porém, o candidato do PL abordou a proposta com menos firmeza. Questionado por Lula sobre a possibilidade de adotar políticas de cortes implementadas no país vizinho, Flávio preferiu reiterar que “a esquerda” havia quebrado a Argentina, sem detalhar a resposta. Na prática, isso significa prometer seguir o modelo econômico de Milei no Brasil.
Embora tenha evitado entrar nos detalhes do tesouraço, Flávio Bolsonaro insistiu em discutir o preço dos alimentos. Perguntou a Lula há quanto tempo o presidente não ia a um supermercado e mencionou o sofrimento de quem não consegue comprar tudo de que precisa. Como solução, propôs juros menores, investimentos nos pequenos negócios e um programa para comprar a dívida. As medidas são parecidas com as apresentadas por Lula, que respondeu chamando a proposta de “cópia”.
As diferenças entre os projetos econômicos ficaram mais claras na discussão sobre a dívida pública. Flávio Bolsonaro apontou os gastos do governo atual e ressaltou o impacto futuro, nas contas públicas, de medidas anunciadas por Lula durante a campanha. O candidato do PL também observou que o aumento da dívida pública afeta diretamente a taxa de juros.
Quem esperava que Lula apresentasse novas propostas para a economia saiu decepcionado. O presidente defendeu políticas e ações que já foram adotadas ao longo dos últimos anos de governos petistas. Projetos como o Desenrola estão na terceira edição sem alcançar os efeitos esperados.
Lula incluiu a independência do Banco Central (BC) na discussão sobre a taxa de juros e voltou a responsabilizar a autarquia pelo índice. Perguntou a Flávio Bolsonaro sobre a medida de seu pai, Jair Bolsonaro, que retirou o BC do controle do Planalto. Flávio defendeu a decisão, dizendo que ela impedia reajustes dos juros na “canetada”.
Para lidar com a dívida pública, Lula defendeu o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A abordagem já está desgastada e se distancia cada vez mais da realidade, após anos de crescimento modesto do PIB. O presidente, ainda assim, falou em distribuição de renda e afirmou que, antes de seu governo, o avanço econômico beneficiava apenas “os magnatas”.
TIAGO PAVINATTO
Flávio Bolsonaro – 9
Lula – 1
Se fizesse parte de uma banca avaliadora de debates, daria notas 9 e 1, respectivamente, aos candidatos à Presidência da República Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Não é por ser, como dizem os governistas mais exaltados, “fascista” de pai e mãe, nem por ter amizade pessoal com Jair Bolsonaro, mas por razões estritamente lógicas.
Flávio fica com 9: sete pontos pela oratória — correção gramatical, linguagem acessível, vocabulário respeitoso, fluidez, dicção, tom de voz, pertinência temática e organização cronológica — e dois pela postura paciente e pacífica. Não ganhou 10 porque repetiu demais o “eu prometo”, embora seja difícil evitar essa expressão em um debate político, principalmente no segundo turno. Começou mal, mas percebeu isso rapidamente e deixou de lado o estilo de preleção à moda de Tarcísio de Freitas, que marcou sua fala inicial.
Lula recebe nota 1, apenas pelo vigor físico demonstrado aos 81 anos — uma qualidade real de quem continua plenamente apto, física e mentalmente, a debater. No restante, teve uma atuação catastrófica. Mesmo com a ajuda evidente do mediador César Tralli — por deferência, temor reverencial, motivo patronal ou misericórdia —, não soube controlar o tempo de fala, algo que havia dominado em 2022.
Também desrespeitou a regra de regionalidade no primeiro bloco: fazia perguntas genéricas e acrescentava no fim expressões como “no Sudeste” ou “no Rio Grande do Sul”. Em todos os blocos, atrapalhou a tréplica do adversário ao inserir novas perguntas durante a réplica e repetiu demais “ele não respondeu”. Sobre o português, não há o que comentar. Lula ainda usou ofensas em tom agressivo, em meio a uma fala fragmentada, hesitante e pouco clara. Isso sem falar no tal “GÚGU”.
DEMÉTRIO VECCHIOLI
Lula – 7
Flávio Bolsonaro – 5
Em um debate mais substancioso que o da Band, Lula apresentou menos propostas do que Flávio, mas conseguiu expor bem seu legado. Também teve êxito ao mostrar que o adversário não estava preparado — não para o debate, mas para comandar o país — e insistiu que Flávio decorava as falas. Ainda recebeu de presente uma declaração capacitista do adversário, que soube aproveitar.
Na minha avaliação, o aspecto negativo foi a dificuldade para compreender as regras do debate e acertar a câmera. Isso pode passar ao eleitor a imagem de fragilidade de um homem que já está na casa dos 80 anos.
Sobre Flávio, a impressão é que recebeu treinamento para agir como Tarcísio de Freitas, despejando propostas, números e informações. Prometeu não fazer coisas que a campanha de Lula vinha dizendo que ele faria, como deixar de corrigir o salário mínimo acima da inflação. Isso também evidencia o discurso populista: Flávio pretende ampliar tudo e, ao mesmo tempo, cortar muitas despesas.
Apesar da resposta que levou de Lula no direito de resposta sobre a fala dos “9 dedos”, Flávio conseguiu um bom trecho para as redes com a narrativa de que Lula deveria pedir desculpas. O deslize com o nome da mãe da menina Ana Clara e a resposta muito frágil sobre a defesa do acusado de assassinato podem afastar o voto feminino, assim como as declarações ruins sobre Belém e o “carioca mais nordestino”.
REINALDO AZEVEDO
Lula – 8
Flávio Bolsonaro – 5
Todos querem saber quem ganhou o debate. Para mim, a resposta é inequívoca: Lula. Pergunta após pergunta, ele deu as melhores respostas quando os assuntos eram específicos. Flávio é que precisou fazer mea-culpa pelo voto contrário à ampliação da licença-maternidade; foi também Flávio quem teve de admitir que estava errado sobre o Bolsa Família e se desculpar por chamar o oponente de “Nove Dedos”, apelido infame usado nas redes sociais para se referir ao petista.
O presidente, por sua vez, não precisou pedir desculpas por nada. A cada resposta, bloco após bloco — com exceção do último, de 16 minutos, oito para cada candidato —, o filho de Bolsonaro foi, como se diz, “jantado” pelo adversário. A razão é simples: o formato exigia que o candidato do PL fosse técnico, deixasse de lado a baixaria e evitasse acusações vazias. Ficou evidente que ele não sabia exatamente do que estava falando.
Lula teve uma pequena desvantagem, sem gravidade, no bloco final, de confronto livre. Em tese, poderia até ter sido o mais fácil para ele. Falar sobre um evento à distância, no conforto do sofá, é um pouco como ser engenheiro de obra pronta. Eu mesmo não revejo meus programas porque sempre me vêm ideias melhores do que as que consegui articular ao vivo, sem ponto. Se a questão é lambança, quem pediu dinheiro a Vorcaro foi Flávio, não Lula; quem é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro é Flávio, não Lula; quem é sócio de Willer Tomaz, cujos bens acabaram de ser tornados indisponíveis, é Flávio, não Lula.
Mas esse é sempre o campo em que o presidente não consegue ter um desempenho exemplar. Sua cabeça é, digamos, talhada para disputas de natureza política ou, como diriam os especialistas, para a economia política. Na desqualificação do adversário, não há dúvida de que o candidato do PL se sai melhor. Só não sabe o que fazer com o Brasil.
Uma observação, para recordar meus tempos de professor: Lula merece nota 8 — não leva 10 por causa do último bloco. Flávio fica com 5. Só não recebe uma nota vermelha porque recorreu a um truque que também conheço daquela época: dizer impropriedades fingindo dedicação e seriedade.
Se o desempenho no debate fosse equivalente à vitória no domingo, o candidato à reeleição já poderia se preparar para o próximo mandato.
MANOELA ALCÂNTARA
Lula – 7
Flávio Bolsonaro – 7
O candidato à reeleição teve atuação melhor que no debate da TV Band. Conseguiu se comunicar e apresentar propostas. Destacou promessas para MEIs, abordou direitos humanos e das mulheres e voltou a defender o fim das bets para “sobrar dinheiro”.
Demonstrou mais vigor e ainda tentou relacionar declarações de Flávio sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) ao governo de Jair Bolsonaro, lembrando, por exemplo, a pandemia.
Por outro lado, falhou com um discurso vazio, sem dados e pouco claro. Não quantificou avanços como as obras de ferrovias, os investimentos e a infraestrutura. Disse várias vezes que fez mais e melhor, mas se limitou a pedir que o eleitor “desse um Google”. Não aproveitou bem o tempo nem os temas do debate.
Não conseguiu reagir às respostas de Flávio e, mesmo depois de um pedido de desculpas, continuou dizendo que ele “não respondeu”.
No bloco final, Lula fez várias acusações falsas contra Flávio. Falou de fotos de Flávio com Vorcaro que não existem, propôs novamente a quebra de sigilo e acusou o ministro André Mendonça, do STF, de ser aliado de Flávio. Nesse momento, concentrou-se nas acusações e deixou o nível do debate que vinha mantendo.
Flávio, por sua vez, adotou uma postura menos agressiva, mas errou ao atacar Lula logo no início, chamando-o de “9 dedos”, em referência a uma deficiência causada por acidente de trabalho. O comentário desviou a discussão das propostas para a ofensa pessoal e abriu espaço para críticas à sua postura. Ele também mencionou uma dificuldade de Lula para escutar.
Foi mais propositivo que no debate da TV Band, respondeu a perguntas, pediu desculpas e prometeu mudanças. Apesar da exposição de seu voto contrário ao aumento da licença-maternidade, direcionou falas às mulheres e prometeu proteção, trabalho e redução da violência.
Conseguiu conversar com o público do agro e concentrou suas propostas em tecnologia na saúde, no agro e nas rodovias. Prometeu manter programas sociais e elevar o salário mínimo com ganho real.
Elogiou o SUS e citou como exemplo o tratamento recebido pelo pai depois de levar uma facada em 2018. Também voltou a destacar o combate às organizações criminosas.
Na rodada de perguntas e respostas, Flávio atacou Lula, cobrou explicações sobre relações com Daniel Vorcaro e voltou a adotar um tom mais agressivo e irônico.
ISADORA TEIXEIRA
Flávio Bolsonaro – 6
Lula – 5
O candidato à reeleição iniciou o debate visivelmente mais travado e insistiu em perguntar a Flávio sobre o valor hipotético do salário mínimo em São Paulo. Não usou todo o tempo disponível, deixando o adversário mais à vontade e com mais tempo de tela.
Depois de ser chamado de “nove dedos”, Lula respondeu bem ao contar como perdeu o mindinho em um acidente de trabalho. Naquele momento, aproximou-se dos trabalhadores, sobretudo dos mais jovens, que não acompanharam o político desde o início da trajetória. Transformou o debate em uma disputa entre ricos e pobres, como se houvesse dois países.
Lula falou bastante do passado, mas pouco do que propõe para o futuro. Defendeu o Desenrola e indicou que não pretende recorrer a cortes para melhorar a economia, mas não explicou como tiraria a promessa do papel. No confronto livre, tentou desgastar Flávio com a disputa por uma ilha envolvendo Willer Tomaz, amigo do candidato, e o jogador Richarlison. Perdeu força, porém, ao não responder às perguntas sobre o whisky de R$ 500 mil que teria recebido de Daniel Vorcaro.
Flávio parecia mais preparado para administrar o tempo. O candidato do PL falou mais de suas promessas, entre elas reajustar o salário mínimo acima da inflação e manter o Bolsa Família, com auxílio aos beneficiários para abrir empresas. Tentou afastar a polêmica criada pela declaração da coordenadora econômica da campanha. Faltou explicar, contudo, como faria o “tesouraço” se eleito.
Errou ao chamar Lula de “nove dedos”. O pedido de desculpas pareceu irônico e abriu espaço para Lula contar sua história e se aproximar dos trabalhadores. Em outro momento, Flávio pareceu arrogante ao dizer que não entendia o que Lula falava.
O candidato voltou a defender mudanças na segurança pública, como reduzir a maioridade penal para 14 anos em casos de crimes hediondos, ampliar a Lei Sansão e combater a criminalidade nas fronteiras. Mencionou várias vezes o governo de Jair Bolsonaro e foi confrontado por isso. No fim, respondeu às acusações de Lula e se destacou ao insistir no whisky, detalhando o que poderia ser feito com os R$ 500 mil gastos na bebida.
NEILA GUIMARÃES
Flávio Bolsonaro – 6
Lula – 4
Flávio Bolsonaro surpreendeu pela desenvoltura, paciência e elegância nas respostas. O senador mostrou habilidade para construir raciocínios a partir das intervenções de Lula e converter as perguntas do adversário em oportunidades de reforçar seu discurso. Um exemplo foi quando o presidente cobrou que ele se desculpasse por chamá-lo de “nove dedos”.
Flávio pediu desculpas, mas aproveitou para perguntar se Lula também se desculparia por problemas atribuídos ao governo, como a insegurança pública. Recorreu à mesma estratégia ao discutir investimentos no SUS. Ao confirmar que pretende fortalecer o sistema, lembrou o atendimento recebido por Jair Bolsonaro após a facada em Juiz de Fora, em 2018. O senador também foi bem ao tratar de segurança pública e custo de vida, assuntos de forte apelo eleitoral.
Lula teve dificuldade para administrar o tempo e, em alguns momentos, deixou passar oportunidades de desenvolver argumentos e contextualizar as respostas. Voltou a explorar a diferença de idade entre os dois, mas acabou permitindo que Flávio invertesse o argumento. O senador disse que mal conseguia compreender o que Lula falava, numa provocação que associou a dificuldade de comunicação à idade do presidente.
Na apresentação, Lula também ficou sem gravata, ao contrário do debate da Band. A mudança de imagem pode ser entendida como tentativa de transmitir mais informalidade e jovialidade. Ao abordar assuntos como o chamado “tesouraço” e a saúde, voltou ao governo Jair Bolsonaro e à condução da pandemia para criar contraste com a gestão anterior. Lula também insistiu na quebra dos sigilos bancários dos candidatos, argumento já usado no debate anterior. A estratégia, porém, perdeu força retórica diante da necessidade de apresentar elementos concretos que sustentassem suspeitas de irregularidades. No geral, o presidente teve dificuldade para impor o ritmo do confronto e conter os ataques do adversário.
IGOR GADELHA
Lula – 9
Flávio Bolsonaro – 8
O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tiveram desempenho melhor no debate da TV Globo, na noite de sexta-feira (23/10), do que no encontro da Band, no domingo (18/10).
Lula conseguiu deixar Flávio visivelmente desconfortável ao citar episódios relacionados à relação do senador com Daniel Vorcaro e um polêmico passeio de lancha com aliados e garotas de programa durante a pandemia.
O petista também pautou Flávio em diferentes momentos, levando o adversário a declarar apoio a algumas de suas propostas e iniciativas, como o aumento real do salário mínimo e a tarifa zero no transporte público.
O presidente da República, entretanto, também teve pontos negativos. Um deles foi a voz fraca, que pode dar a alguns eleitores a impressão de que o petista estava sendo agressivo com Flávio.
Lula também errou ao falar mais de suas ações passadas do que de seus planos para o futuro, apesar dos alertas de vários aliados, nas últimas semanas, de que precisava apresentar promessas e propostas futuras.
Flávio, por sua vez, falou mais do futuro e pareceu mais propositivo. Entre as novas promessas do senador estava o pedágio zero para motociclistas em todo o país.
O senador também foi menos desrespeitoso com Lula. Seu único deslize foi debochar da deficiência do petista, chamando-o de “nove dedos”. Depois que o presidente o cobrou e o chamou de “miliciano”, Flávio pediu desculpas.
Flávio, no entanto, poderia ter respondido melhor sobre segurança pública. Ao mencionar o caso da menina Ana Clara, demonstrou solidariedade à mãe da garota, que estava na plateia, mas chamou a mãe pelo nome da filha.
Em resumo, Lula venceu no saldo de pontos. Resta saber se a boa atuação no último confronto antes do segundo turno será suficiente para o petista virar o resultado nas urnas.
MIRELLE PINHEIRO
Flávio Bolsonaro – 8
Lula – 8
Flávio Bolsonaro corrigiu boa parte dos erros do debate da Band. Na Globo, mostrou-se mais preparado, com dados sobre investimentos e questões regionais. Tentou se apresentar como alguém apto a administrar o país, e não apenas a se opor a Lula. Também ficou evidente a tentativa de conquistar votos no Nordeste, embora a promessa de ser o “mais nordestino dos cariocas” tenha parecido artificial. Na discussão sobre ferrovias, o excesso de números e a dificuldade de desenvolver a linha de raciocínio deram a Lula a chance de questionar seu domínio do tema.
A segurança pública foi uma das principais apostas de Flávio. Ele insistiu no assunto mesmo diante de perguntas sobre outros temas, tentando levar o debate para um terreno que considera favorável. Repetidas vezes, buscou associar Lula às facções criminosas, explorando o medo da violência e responsabilizando o presidente pelo avanço do crime organizado. A estratégia ajudou a sustentar sua linha de ataque, mas também revelou dificuldade para aprofundar outros assuntos sem retornar ao mesmo discurso.
Flávio ganhou força ao longo do debate, principalmente quando passou a abordar temas delicados para o governo petista. Respondeu a parte dos ataques e tentou transformar provocações em frases de efeito para as redes sociais. Ainda assim, cometeu erros relevantes. A referência aos nove dedos de Lula foi desrespeitosa e deu ao presidente a oportunidade de uma de suas melhores respostas da noite. Também se confundiu ao falar do assassinato da menina Ana Clara, chamando a mãe pelo nome da filha. No bloco final, quando vieram à tona o caso Vorcaro e outras acusações da campanha, mostrou mais disposição para o confronto. Teve resultado melhor que no debate anterior.
Lula começou em vantagem. Mais tranquilo, percebeu rapidamente a dificuldade de Flávio para desenvolver algumas respostas e explorou a falta de experiência administrativa do adversário. Foi especialmente eficaz no segundo bloco, com a discussão sobre salário mínimo, programas sociais e declarações controversas do candidato do PL. Sua reação à provocação sobre os dedos foi um dos pontos altos da noite: expôs o ataque pessoal e levou Flávio a pedir desculpas, embora o adversário já tivesse uma resposta preparada sobre os problemas enfrentados pela população em situação de rua.
O presidente, porém, gastou tempo demais defendendo seu próprio histórico. Nos primeiros 45 minutos, falou muito das realizações passadas e pouco sobre o que pretende fazer em um novo mandato. A voz prejudicada também afetou algumas intervenções, sobretudo quando tentou elevar o tom.
Lula ainda teve dificuldade para administrar o tempo proposto pela emissora. Foi mais eficiente nos confrontos diretos do que ao apresentar propostas. No bloco final, pressionou Flávio ao citar o passeio de lancha durante a pandemia, enquanto o debate finalmente incluía personagens e episódios que haviam dominado a campanha, como Daniel Vorcaro. Teve bons momentos e colocou o adversário na defensiva, mas não manteve esse desempenho durante toda a noite. A melhora de Flávio impediu Lula de sair com uma vitória clara.
MATHEUS LEITÃO
Lula – 8
Flávio Bolsonaro – 5
O presidente chegou mais preparado do que no debate da Band e conseguiu definir a pauta em vários momentos. Seus melhores pontos foram as respostas que devolveram acusações, como a do tigrinho, quando relacionou as bets ao governo Jair Bolsonaro, que não regulamentou o setor, e a cobrança sobre o caso Ana Clara, que deixou Flávio na defensiva diante da mãe da vítima.
Lula também citou a denúncia de Richarlison e explorou o discurso de soberania ao criticar o alinhamento com Trump. Fez Flávio Bolsonaro se desculpar pela declaração sobre seus nove dedos e admitir que errou ao votar contra o aumento da licença-maternidade.
Por outro lado, perdeu a oportunidade de rebater a acusação sobre o Comando Vermelho com a investigação que envolve aliados do PL no Rio. Em algumas respostas, preferiu atacar a defender o próprio governo em temas como endividamento e saúde. Também se atrapalhou um pouco com o tempo de cada bloco.
O senador manteve o foco em áreas que provocam insatisfação com o governo, como segurança, custo de vida e endividamento, e acertou ao menos um dado verificado pelo g1, sobre obras inacabadas. A crítica à Caixa também expôs o acordo do governo com o Centrão, embora tenha sido enfraquecida pelo apoio do PP à candidatura dele.
Os principais erros foram de tom e contexto. Houve a fala sobre os nove dedos de Lula, quando deixou de seguir o conselho do governador Tarcísio de Freitas para ser mais humilde, e o episódio em que chamou a mãe de Ana Clara pelo nome da filha.
Defender o policial diante dela pode ter um custo, especialmente na noite em que Flávio prometeu cuidar das mulheres. Também não respondeu à pergunta sobre o bolsa-farelo e fez declarações sem contexto sobre o Comando Vermelho, a dipirona e as Santas Casas.
ANDRÉ SHALDERS
Flávio Bolsonaro – 6
Lula – 4
Saiu o “Flávio Marçal” debochado do debate da Band e entrou o “Flávio Humildão”. O senador colocou Lula contra a parede ao prometer, ao menos de boca, manter todas as políticas sociais petistas.
Veja a conversa sobre o reajuste do salário mínimo: Lula pergunta se Flávio manterá a política, e ele responde que sim, duas vezes. Lula então diz: “por que você não responde?”. A interação pareceu estranha. Flávio também escapou bem da provocação de Lula sobre o episódio da morte da menina Ana Clara.
Em alguns momentos, Lula parecia confuso, sem entender ou sem querer seguir as regras do debate. Em outros, deixou a oportunidade para Flávio, como na pergunta sobre a autonomia do Banco Central.
O melhor momento do petista foi a resposta à provocação de Flávio, que o chamou de “nove dedos”. “Não vou aceitar que um grã-fino com uma prática política duvidosa me ofenda me chamando de nove dedos”, afirmou.
RAMIRO BRITES
Lula – 6
Flávio Bolsonaro – 5
As regras do debate da Globo e a incapacidade do presidente e do senador de falar fora de suas bolhas no confronto da Band fizeram com que o encontro fosse mais civilizado que o do domingo anterior. O primeiro bloco mostrou Flávio nervoso e Lula impaciente.
A imagem de Flávio excessivamente educado contrastou com o tom provocador do primeiro debate. Quando escorregou em uma provocação, precisou pedir desculpas ao adversário, colocando-o em uma posição de subserviência.
No terceiro bloco, Lula desempatou ao encurralar o candidato da oposição diante de mães de vítimas de violência na plateia. Confrontado, Flávio retomou o tom beligerante do debate de domingo e gaguejou ao responder sobre a menina Ana Clara.
O bloco final demonstrou que nenhum dos dois candidatos consegue manter um diálogo no confronto direto. Mais uma vez, prevaleceu a conversa “sem pé, nem cabeça” vista no debate da Band. No encerramento, com mais tempo para as considerações finais, Flávio reduziu a vantagem aberta pelo petista no terceiro bloco.
TÁCIO LORRAN
Lula – 6
Flávio Bolsonaro – 5
Lula conseguiu apresentar propostas nos três primeiros blocos, mas se destacou sobretudo ao citar ações do governo e do PT. Nesse ponto, ficou à frente de Flávio. Uma dificuldade percebida durante o debate foi administrar o tempo: em algumas ocasiões, terminou de falar antes de o tempo disponível acabar, mostrando dificuldade com o formato e o ritmo da discussão.
Flávio Bolsonaro apareceu de gravata no debate desta quinta-feira, tentando adotar uma postura mais respeitosa, inclusive com o presidente Lula — diferente do tom mais agressivo do último debate da Band. Nos três primeiros blocos, apresentou algumas propostas, embora parte delas fosse genérica. Errou ao falar da menina Ana Clara e ao chamar Lula de “nove dedos”. Pediu desculpas logo depois, o que pode ter amenizado a situação.
THIAGO HERDY
Lula – 7
Flávio Bolsonaro – 5
Com a eleição empatada na véspera do segundo turno, prefiro analisar o debate pela perspectiva dos eleitores que ainda não escolheram em quem votar ou poderiam mudar de lado.
Para 10 grupos de pesquisa qualitativa com eleitores indecisos, monitorados por um instituto de São Paulo e acompanhados à distância, a disputa continua aberta. Lula foi um pouco melhor, mas ninguém definiu o voto 100%.
Os momentos em que o presidente se atrapalhou e demonstrou cansaço incomodaram os grupos. Bem treinado e dominando o tempo e a linguagem da TV, Flávio acertou ao falar do salário que não sobra no fim do mês para as classes B e C.
Mas os dois cortes mais fortes do debate nas redes sociais favorecem Lula. A provocação do adversário sobre seus nove dedos permitiu que ele transformasse uma ofensa pessoal em uma questão de dignidade humana. A insistência de Flávio em defender o policial no caso Ana Clara também repercutiu mal entre esses eleitores.
VINÍCIUS PASSARELLI
Lula – 7
Flávio Bolsonaro – 6
Lula teve desempenho superior ao do debate anterior. Mostrou mais segurança e tentou controlar o tom do confronto, adotando uma postura mais ofensiva e fazendo perguntas diretas a Flávio. A tentativa do petista de apresentar o senador como inexperiente e pouco conhecedor do Brasil pareceu funcionar em alguns momentos. Lula desestabilizou Flávio ao mencionar a mãe da menina Ana Clara e o levou a pedir desculpas pela fala dos “nove dedos”.
Lula também fez o candidato do PL se comprometer com o reajuste do salário mínimo e das aposentadorias, além de manter o programa Pé-de-Meia. O petista ainda procurou reforçar o apelido de miliciano do adversário e mencionou a gestão da pandemia por Jair Bolsonaro.
Um dos pontos fracos de Lula foi a discussão econômica. O petista questionou a independência do Banco Central e deixou dúvidas sobre a intenção de rediscutir o modelo. Também foi pressionado por Flávio sobre a carestia e o endividamento das famílias. Outra falha ocorreu quando, em um ato falho, disse querer “acabar com a polícia”. Lula ainda teve dificuldade para administrar o tempo e pareceu desconhecer as regras, sendo “ajudado” pelo apresentador César Tralli, o que provocou protestos de Flávio.
Flávio Bolsonaro concentrou-se na economia e fez perguntas retóricas diretamente ao público sobre poder de compra e sensação de segurança. Ficou encurralado ao ter de se desculpar pela fala dos “nove dedos” e reconhecer que errou ao votar contra o aumento da licença maternidade.
O senador conquistou alguns direitos de resposta, mas não os usou para rebater exatamente as acusações do petista. Aproveitou o tempo extra para tratar de temas como direito animal e políticas para mulheres. Tentou mostrar humildade ao reconhecer que Lula teve boas ideias no passado. Na segurança, uma das principais bandeiras do candidato do PL, a presença da mãe da menina Ana Clara pareceu desestabilizá-lo, e ele errou o nome dela ao se dirigir à mulher.
No bloco final, em que os candidatos puderam falar livremente e trocar acusações sobre casos de corrupção, nenhum se destacou. As respostas de ambos ficaram dentro do roteiro esperado.
No balanço, Lula teve desempenho ligeiramente superior ao de Flávio e “controlou” o ritmo do debate durante boa parte do programa. O senador, por outro lado, conseguiu sair de situações de pressão e transmitiu suas principais mensagens.
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