
Duas mulheres com câncer de mama relatam demora para avançar no atendimento pela rede pública do Distrito Federal. (Foto: Instagram)
“Hoje, sinto que a morte está sempre ao meu redor. A cada dia que passa, perco um dia de vida”, relata uma professora de 37 anos diagnosticada com câncer de mama em julho deste ano. Desde então, ela enfrenta uma longa espera sem conseguir começar o tratamento oncológico na rede pública de saúde do Distrito Federal.
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A mulher, que preferiu não se identificar, contou que recebeu o diagnóstico de câncer invasivo em 28 de julho, durante consulta com um mastologista. Os exames indicaram um tumor de alto grau (G3), com índice de proliferação celular de 70%.
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A primeira unidade procurada foi o Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB). Após a regulação, ela seria encaminhada ao Hospital de Base, ao Hospital Regional de Taguatinga ou ao Hospital Universitário de Brasília para começar o tratamento.
“Todos os exames de estadiamento foram solicitados para que, quando chegasse a consulta oncológica, já estivéssemos com os resultados e pudéssemos seguir para a quimioterapia. Segundo a mastologista, ela precisaria ser neoadjuvante devido ao tamanho do tumor e à presença de metástase nas axilas”, afirmou.
A paciente disse que, desde a primeira consulta com a mastologista, havia preocupação com a possibilidade de a mama se romper por causa do tamanho do tumor. Isso acabou ocorrendo poucos dias depois.
“Poucos dias depois da consulta, o rompimento aconteceu, e comecei a peregrinar por hospitais para tentar uma orientação sobre o que fazer. Estou com a mama exposta e sinto o tumor avançar pelo tamanho, mas ainda não tive a chance de acessar o tratamento para lutar. A cada dia que passa, perco um dia de vida”, relatou.
Desde 1º de setembro, a professora aguarda uma consulta com oncologista pela rede pública do DF, embora o pedido esteja classificado como prioridade 1.
Além da situação, ela enfrenta dificuldades ao procurar os prontos-socorros. Segundo a paciente, como ainda não iniciou o tratamento oncológico, recebe a orientação de “esperar a regulação e fazer curativos em casa”.
A professora procurou o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e a Defensoria Pública do DF (DPDF), pois o prazo previsto em lei para começar o tratamento após o diagnóstico já foi ultrapassado.
De acordo com ela, depois do pedido, o MPDFT abriu um procedimento e encaminhou o caso à Defensoria Pública para que fossem avaliadas medidas jurídicas capazes de assegurar o atendimento. O órgão também pediu informações ao HMIB sobre a assistência oferecida e sobre uma possível necessidade de internação.
A Lei nº 12.732 de 2012, conhecida como Lei dos 60 dias, determina que pacientes com câncer comecem o primeiro tratamento pelo SUS em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico, ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica registrada no prontuário médico.
Em nota, a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) informou que a paciente está “regulada para consulta com oncologista, com previsão de agendamento ainda para este ano”.
OUTRA PACIENTE PASSA POR SITUAÇÃO SEMELHANTE
A publicitária Manuella Abrantes de Oliveira, de 40 anos, vive uma situação parecida. A suspeita de que algo estava errado começou no fim de agosto deste ano, quando ela sentiu um nódulo na mama direita durante o banho e não imaginou que pudesse ser algo grave.
“Como estava fazendo musculação, pensei que talvez fosse alguma alteração causada pelos exercícios. Acabei deixando passar uma ou duas semanas sem procurar atendimento, mas, no dia 3 de setembro, decidi que precisava investigar. Fui à Unidade Básica de Saúde (UBS) e pedi para ser examinada”, contou.
“A enfermeira responsável fez o exame clínico e ficou bastante assustada com o tamanho do nódulo. Ela perguntou se eu conseguiria fazer uma ultrassonografia das mamas com urgência. Pela reação dela, percebi que havia motivo para preocupação”, acrescentou.
Após a consulta, Manuella disse que foram solicitados exames e marcados procedimentos para o dia seguinte, entre eles exames de sangue e uma ultrassonografia das mamas e axilas.
“Foi um choque. Saí daquele exame muito abalada, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo. O médico que fez a ultrassonografia explicou que havia uma grande suspeita de câncer na mama direita, mas que, felizmente, naquele exame não apareciam sinais de comprometimento da axila”, relatou.
Segundo ela, depois do resultado da ultrassonografia, foi pedida uma biópsia para confirmar o diagnóstico. Em 2 de outubro, ela recebeu a confirmação de carcinoma mamário invasivo, tipo de câncer em que as células malignas avançam para os tecidos vizinhos da mama.
“Naquele momento, pareceu que meu mundo tinha parado. Eu já vinha pesquisando bastante sobre a doença e sabia que ainda precisava fazer outro exame, a imunohistoquímica, para identificar as características do tumor e ajudar a definir o tratamento. Estávamos tentando ganhar tempo. Cada dia era importante, e tudo o que queríamos era avançar para a próxima etapa”, contou.
Algumas semanas depois, o resultado do exame confirmou câncer de mama triplo negativo, invasivo, grau 3, com índice de proliferação celular de 80%.
Depois do diagnóstico, surgiu outra preocupação: Manuella precisava passar por atendimento com mastologista, fazer os exames de estadiamento e ser encaminhada à oncologia para iniciar o tratamento. No entanto, ela começou a ter dificuldades para conseguir atendimento na rede pública de saúde do DF.
Ela contou que passou longos dias tentando obter uma consulta com mastologista, mesmo com o encaminhamento classificado como prioridade 1. Nesse período, recebeu a informação de que deveria aguardar o contato da regulação.
Após a espera, Manuella conseguiu uma consulta com o mastologista em 27 de outubro.
“Na consulta, o médico pediu os exames de estadiamento e me orientou a voltar na semana seguinte com os resultados. Ele aguardaria para dar continuidade ao meu atendimento e fazer os encaminhamentos necessários para o tratamento oncológico”, afirmou.
No caso de Manuella, a SES-DF informou que, após a consulta com o mastologista, foram “solicitados diversos exames de imagem e uma avaliação com geneticista, com vistas ao encaminhamento do caso para parecer da equipe cirúrgica”.
Com a expectativa de que finalmente começaria o tratamento, Manuella pagou todos os exames de estadiamento na rede particular para tentar agilizar o processo e voltar na semana seguinte, conforme a orientação médica.
Ao retornar à unidade com os exames feitos, porém, ela foi informada, depois de esperar cerca de três horas, de que o médico estava de férias e só retornaria em 17 de novembro.
“Também nos disseram que outro médico não poderia fazer o encaminhamento para a oncologia. É muito frustrante passar por tudo isso. Saímos de casa acreditando que finalmente avançaríamos, com todos os exames em mãos, depois de tanto esforço e gastos, e voltamos para casa diante de mais uma espera”, afirmou.
Segundo Manuella, a espera provoca medo e angústia. Mãe de três meninos, ela diz que não é apenas seu estado emocional que está abalado, mas também o dos filhos, do marido e do restante da família.
“É difícil receber o diagnóstico de câncer e, em vez de encontrar acolhimento e apoio, ter de lutar todos os dias para conseguir atendimento. É cansativo correr atrás, criar esperança e, mais uma vez, encontrar portas fechadas”, disse.
“Só queremos ter o direito de começar o tratamento, cuidar da nossa saúde e continuar vivendo. O que mais dói é saber que fazemos tudo o que está ao nosso alcance, mas dependemos de um sistema que parece não compreender a urgência de quem tem câncer. Não é apenas uma espera por consulta. Nossa vida, nossa família e nosso futuro estão em jogo”, acrescentou.
Na terça-feira (3/11), ela também registrou uma nova reclamação na Ouvidoria-Geral do DF, pedindo providências urgentes para que outro profissional possa dar continuidade ao atendimento e encaminhá-la à oncologia.
Tags: câncer de mama, Distrito Federal, saúde pública







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