Da Loira do Bonfim ao Fantasma do Funcionário Público: 10 lendas de Minas Gerais

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De noivas fantasma a criaturas misteriosas, as lendas de Minas Gerais misturam medo, história e memória popular. (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – Deixe de lado as bruxas do Halloween americano: em Minas Gerais, as assombrações são diferentes. A cultura mineira reúne criatividade e mistério em histórias de noivas mortas que assombram estradas, criaturas com traços de macaco, galinha e lagartixa e até supostos visitantes de outros planetas.

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Rafael Sette pesquisa a história da capital mineira e é responsável pelo projeto Caminhas BH, que promove roteiros temáticos. Segundo ele, as lendas vão além do terror e ajudam a entender os costumes, as desigualdades e os conflitos sociais do período em que surgiram.

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Sette explica que, muitas vezes, aquilo que uma sociedade não consegue dizer acaba aparecendo nas lendas e nas histórias de assombração. Em Belo Horizonte, essas narrativas revelam coisas que, por algum motivo, não podiam ser ditas.

Algumas lendas podem ter surgido de acontecimentos reais; outras nasceram ou se popularizaram por meio da literatura. É o caso da Loira do Bonfim, registrada pelo escritor Pedro Nava no livro Baú de Ossos, e da Moça Fantasma de Belo Horizonte, que inspirou um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Conheça a história de 10 figuras lendárias que já tiraram — e ainda tiram — o sono de muita gente.

A LOIRA DO BONFIM

Uma mulher loira, vestida de branco, embarca no último bonde da noite na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, rumo ao Cemitério do Bonfim, na Região Noroeste. Essa é uma das lendas mais antigas da capital mineira.

Sette conta que, a cada parada, os passageiros observam a mulher, que vai perdendo a carne e ficando cada vez mais cadavérica e esquelética. Apavorados, eles deixam o bonde, até sobrarem apenas o motorneiro e o cobrador. Quando chegam ao cemitério, os dois também fogem, enquanto a mulher, já completamente esquelética, atravessa o portão sem abri-lo.

Segundo Sette, a lenda tem mais de 100 anos, e uma de suas versões foi registrada pelo escritor Pedro Nava no livro Baú de Ossos.

Para Sette, a narrativa também expõe o machismo da sociedade daquele período. Ele explica que a mulher morre sem realizar seu objetivo de vida — casar e ter filhos — e, por isso, retorna como assombração.

A MOÇA FANTASMA

Outra lenda sobre uma jovem loira é a da Moça Fantasma. De acordo com a história, uma adolescente pega um táxi de madrugada na região da Savassi e pede ao motorista que a leve à antiga Rua do Chumbo, atual Rua Estevão Pinto, no bairro Serra.

Sette relata que o motorista a observa pelo retrovisor e, a cada esquina, percebe que ela continua quieta e calada. Ao passar pela Rua do Chumbo, ele olha novamente e a passageira desaparece.

Assustado, o taxista procura a jovem, mas não encontra ninguém. Depois, segue para um bar na Avenida Getúlio Vargas frequentado por jornalistas e artistas e conta o que aconteceu. Sette diz que a história foi parar nos jornais e provocou uma onda de relatos sobre supostas aparições em diferentes bairros da cidade.

O FANTASMA DO FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Imagine caminhar pela Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, durante uma madrugada fria de junho e encontrar um homem parado na esquina com a Rua do Ouro. Vestido com um terno antigo, típico do século XIX, ele segura um guarda-chuva aberto e permanece imóvel.

Segundo a lenda, a figura misteriosa aparece no mesmo lugar há cerca de 120 anos, geralmente por volta de meia-noite e meia.

De acordo com Sette, o fantasma representa os funcionários públicos que vieram de Ouro Preto (Região Central) para a construção da nova capital, mas não conseguiram moradia na área planejada da cidade.

Sette afirma que a assombração representa vidas que não se realizaram, promessas não cumpridas e pessoas deixadas à margem da sociedade durante o projeto de construção de Belo Horizonte. O local é um dos pontos de uma visita guiada assustadora promovida por Rafael, cujas edições serão retomadas nos próximos meses.

O AVANTESMA DA LAGOINHA

Vestido de preto, sem rosto e acompanhado por cheiro de enxofre, o Avantesma da Lagoinha é uma das assombrações mais assustadoras. De acordo com a lenda, ele aparecia sobre os trilhos dos antigos bondes que cortavam a região, conhecida pela vida boêmia, pelos bares e cabarés.

Quando o bonde se aproximava, o homem surgia nos trilhos, rindo. O motorneiro tentava frear e os passageiros gritavam, com medo de uma colisão. No último instante, porém, a figura sumia, deixando apenas o cheiro de enxofre. Diferentemente de outras assombrações, o Avantesma não seria inofensivo: parecia querer provocar acidentes e espalhar o medo.

Segundo Sette, a lenda representa a exclusão social dos moradores da Lagoinha desde a formação da cidade. A região recebeu trabalhadores, imigrantes — especialmente italianos — e parte da população negra que não encontrou espaço na área central planejada da nova capital.

Sette explica que, por não encontrar lugar, o personagem teria tido uma morte violenta e voltaria de maneira ainda mais violenta, em busca de vingança.

MARIA PAPUDA

Uma das lendas mais conhecidas está ligada ao Palácio da Liberdade, antiga sede do governo de Minas Gerais. Segundo a história, uma mulher chamada Maria Papuda vivia em um casebre na região onde hoje fica a Praça da Liberdade, antes da construção da capital. Expulsa de casa para dar lugar ao palácio, ela teria lançado uma maldição: quem ocupasse aquele terreno morreria.

Rafael conta que a lenda ganhou força depois que quatro governadores morreram durante o exercício do cargo: Silviano Brandão, João Pinheiro, Raul Soares e Olegário Maciel. As mortes passaram a ser relacionadas à suposta maldição.

Segundo Rafael, a história teve tanta repercussão que Itamar Franco, quando era governador, afirmou ter visto o fantasma no Palácio da Liberdade. O relato chegou às capas de jornais de todo o Brasil. Para ele, também é importante compreender a história de Maria Papuda sob o ponto de vista político.

SERRA DO ROLA-MOÇA

Muita gente se pergunta a origem do nome da Serra do Rola-Moça, que se estende por Belo Horizonte, Brumadinho, Nova Lima e Ibirité. A resposta está em uma antiga lenda que se transformou em poesia.

De acordo com a história, um casal recém-casado cruzava a serra a cavalo quando o animal da noiva escorregou no cascalho, à beira de um precipício. A jovem caiu no abismo e, ao tentar salvá-la, o marido também se jogou, causando a morte dos dois. A tragédia, nunca comprovada, teria dado nome à serra.

Em agosto, a história por trás da lenda voltou a ser contada. Ela ganhou projeção nacional ao ser transformada em versos pelo escritor Mário de Andrade (1893–1945). O episódio foi eternizado no poema Noturno de Belo Horizonte, publicado no livro Clã do Jabuti, de 1927. Apesar da popularidade da narrativa, não há registros oficiais que comprovem a tragédia.

CABOCLO-D’ÁGUA

Uma das lendas mais conhecidas de Minas Gerais é a do Caboclo-d’Água, criatura descrita como uma mistura de macaco, galinha e lagartixa que viveria nos rios da região.

Integrantes da Associação dos Caçadores de Assombrações de Mariana (Acam) procuram o suposto monstro há duas décadas, com expedições pela mata e até o uso de isca humana. Em uma das tentativas, um integrante passou quatro noites em uma gaiola instalada no meio de um rio para atrair a criatura.

Há relatos de supostas aparições em Barra Longa, Acaiaca, Mariana e Ouro Preto. Leandro Henrique dos Santos, de 51 anos, professor, historiador, jornalista e diretor e fundador do jornal O Espeto, afirma que moradores chegaram a atribuir duas mortes e ataques a bois à criatura.

Leandro contou que duas mortes de pessoas foram atribuídas a ataques do Caboclo-d’Água em Barra Longa e Acaiaca. Em Barra Longa, a criatura chegou a ganhar uma estátua na praça principal da cidade.

NOIVA DE FURQUIM

A lenda da Noiva de Furquim surgiu depois de um suposto acidente de ônibus na década de 1960, em um trecho de estrada perto do distrito de Furquim, em Mariana. Segundo a história, oito pessoas morreram, entre elas uma noiva que teria sido enterrada sem a aliança, desaparecida após a tragédia.

Leandro contou que, depois disso, a mulher teria sido vista na estrada procurando a aliança e pedindo carona. Muitas pessoas paravam, ela entrava no carro e desaparecia pouco depois. Segundo ele, os relatos se tornaram tão frequentes que o bispo Dom Oscar, de Mariana, teria celebrado uma missa em homenagem à mulher.

MÃE DO OURO

A Mãe do Ouro é descrita como uma bola de fogo brilhante que desce do céu e se aproxima das pessoas, emitindo uma luz intensa sem causar queimaduras. Em uma das histórias contadas por Leandro, um homem teria ficado tão encantado ao observar a luz que sofreu uma lesão nos olhos. Segundo o relato, ele foi atendido em um hospital e recebeu o diagnóstico de uma lesão semelhante à provocada pela luz de solda elétrica.

A irmã do homem, Terezinha Ramos, que mais tarde se tornou prefeita de Mariana, disse que a família vivia em um sítio sem energia elétrica. Leandro contou que ela cuidou do irmão até que sua visão melhorasse e que ele recebeu óculos escuros para usar caso voltasse a ver a Mãe do Ouro.

ET DE VARGINHA

Uma das histórias mais famosas de Minas Gerais é a do ET de Varginha, que ganhou repercussão internacional em janeiro de 1996. Na época, três jovens disseram ter visto uma criatura de aparência incomum em um terreno baldio da cidade, no Sul de Minas. Segundo os relatos, o suposto extraterrestre tinha pele escura, olhos avermelhados e características físicas estranhas.

A história ganhou força com depoimentos de moradores que afirmaram ter visto movimentações suspeitas de militares e veículos oficiais na região. As autoridades, porém, sempre negaram qualquer operação envolvendo seres extraterrestres, e investigações oficiais não encontraram provas de contato alienígena.

Três décadas depois, o mistério continua vivo e transformou Varginha em destino de turismo ufológico, com monumentos e até um memorial dedicado ao ET. Recentemente, o caso voltou aos holofotes depois que o cineasta Steven Spielberg mencionou a história durante a divulgação de seu novo filme, Disclosure Day (Dia D), sobre vida extraterrestre.

Tags: Belo Horizonte, Halloween, Minas Gerais

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