
Donald Trump e Lula da Silva selam encontro que reflete os embates da influência dos EUA nas eleições brasileiras (Foto: Instagram)
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a eleição brasileira deste ano será crucial para que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teste a eficácia de sua estratégia de influência na América Latina.
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No final de 2025, a administração Trump divulgou a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, destacando a América Latina como prioridade. O documento retoma a Doutrina Monroe, princípio da política externa dos EUA criado em 1823 para impedir a interferência europeia no continente.
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Atualizada em 1904 pelo então presidente Theodore Roosevelt, a diretriz passou a permitir intervenções diretas dos EUA na região, inclusive militares. Agora, sob o "Corolário Trump", a estratégia visa conter a influência de potências como Rússia e China na América Latina.
Membros do governo brasileiro acreditam que a eleição presidencial na Colômbia, com segundo turno em 21 de junho, servirá como termômetro do engajamento de Washington nas disputas eleitorais da região.
Ainda assim, consideram que o pleito brasileiro tem maior importância devido ao tamanho do país, o maior da América Latina em território e população, e seu potencial estratégico, incluindo reservas de terras raras e minerais críticos, como o nióbio.
Na última terça-feira (2/6), dois dias após o primeiro turno na Colômbia, Trump declarou apoio ao candidato de ultradireita Abelardo de la Espriella. Em publicação na rede Truth Social, elogiou o político e afirmou que ele poderia impulsionar o crescimento econômico e fortalecer as relações com Washington.
De la Espriella liderou o primeiro turno com 43,74% dos votos, mais de 673 mil à frente do senador Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, que obteve 40,90%.
Auxiliares de Lula evitam prever se Trump manifestará apoio público ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), mas não descartam essa possibilidade. Ainda assim, aliados do presidente apostam que a relação de Trump com Lula é menos tensionada do que com Petro, o que poderia atenuar eventuais tentativas de ingerência. Apesar disso, recentes ações dos EUA em relação ao Brasil são vistas como sinais de alerta no Planalto.
Na última segunda-feira (1º/6), o Escritório do Representantes Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou a conclusão de uma investigação, propondo taxar produtos brasileiros, que já foram alvos de ações semelhantes no início do segundo mandato de Trump, em 25%.
De acordo com o USRT, que usou a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA na análise, o Brasil adota políticas e práticas desleais em relação aos EUA. Entre elas, o Pix, as decisões da Justiça Brasileira que miram as big techs, e o acesso ao mercado do etanol brasileiro.
Um dia depois, o parecer de outra investigação, também com base na Seção 301, recomendou a imposição de uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros. Mas dessa vez, o Brasil está ao lado de outros 59 países. A apuração apontou supostas falhas dessas economias em impedir a entrada, em seus mercados internos, de produtos fabricados com mão de obra forçada.
Os dois pareceres ainda precisam passar por consultas públicas, e receber o aval de Trump para passarem a valer.
Em outra frente, Washington também agiu contra as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). As duas foram incluídas, na última semana, em listas norte-americanas de organizações terroristas.
Na prática, a medida visa afetar os grupos, e indivíduos que mantenham ligações com o PCC e CV, por vias econômicas. O governo brasileiro e analistas de política internacional, porém, destacam que a decisão pode abrir brechas para interferências na soberania nacional, sob a justificativa do combate ao terrorismo — como aconteceu, recentemente, na Venezuela.
O líder norte-americano não tem poupado esforços para atuar na política latino-americana neste segundo mandato à frente da Casa Branca.
Em outubro de 2025, nas eleições legislativas da Argentina, Trump ofereceu um apoio financeiro de cerca de US$ 40 bilhões para impulsionar a vitória do partido de Javier Milei no pleito. O resultado das urnas foi favorável ao líder argentino.
Dois meses depois, em Honduras, o candidato apoiado por Trump, Nasry “Tito” Asfura, venceu uma eleição marcada por controvérsias e atraso na apuração. O presidente norte-americano já havia declarado publicamente seu apoio dias antes do pleito.
No início de 2026, os Estados Unidos invadiram Caracas, na Venezuela, e prenderam o então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob acusações como narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas. Ambos estão detidos em Nova York.
A presidência interina passou a Delcy Rodríguez, enquanto EUA e Venezuela iniciaram uma reaproximação diplomática e comercial, com foco na exploração de petróleo.
Mais recentemente, Cuba tornou-se um dos principais alvos de Trump. O presidente norte-americano chegou a mencionar a possibilidade de “ocupar” a ilha após o fim da guerra no Irã. Além de ampliar sanções econômicas e restrições ao envio de petróleo — agravando a crise energética no país —, Washington também passou a mirar Raúl Castro, ex-presidente cubano, indiciado por crimes como conspiração, destruição de aeronaves e assassinato, relacionados a um episódio ocorrido há cerca de 30 anos.
No mesmo dia do indiciamento, o Comando Sul dos EUA iniciou uma mobilização militar no Caribe, com o envio do porta-aviões USS Nimitz e quatro navios de guerra. Na última quinta-feira (4/6), uma nova rodada de sanções foi anunciada contra integrantes do governo cubano, incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel, familiares da família Castro e instituições ligadas ao aparato estatal da ilha.



