Malformações uterinas: útero unicorno e bicorno podem passar despercebidos e afetar gravidez

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Ilustração em papel recortado de um útero para representar malformações congênitas (Foto: Instagram)

Uma mulher pode viver grande parte da vida sem saber que possui um útero com formato incomum. Frequentemente, a descoberta ocorre por acaso durante um ultrassom ou apenas quando surgem dificuldades reprodutivas ou complicações na gravidez. Entre as chamadas malformações uterinas congênitas estão o útero unicorno e o bicorno.

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Essas alterações ocorrem durante o desenvolvimento embrionário. Na formação do sistema reprodutor feminino, duas estruturas denominadas ductos de Müller precisam se desenvolver e se unir corretamente. Quando alguma etapa não é concluída, o útero pode adquirir formas diferentes.

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“É crucial enfatizar que a mulher já nasce com essa alteração. Ela não desenvolve um útero bicorno ou unicorno ao longo da vida”, explica Grazielly Teles, ginecologista especialista em endometriose e saúde integral da mulher, em Campinas e Atibaia (SP).

De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), as malformações uterinas afetam cerca de 3% a 5% da população geral. A frequência exata é difícil de determinar porque muitas mulheres não apresentam sintomas.

UNICORNO E BICORNO: ENTENDA A DIFERENÇA
No útero unicorno, um dos ductos de Müller não se desenvolve adequadamente. Na prática, forma-se principalmente apenas um lado do órgão, que tende a ser menor e assimétrico. Algumas mulheres também possuem uma pequena estrutura no outro lado, chamada corno rudimentar.

No bicorno, ambos os lados se desenvolvem, mas não se unem completamente. A parte superior do útero fica dividida em duas partes, formando dois “cornos” e adquirindo uma aparência frequentemente comparada à de um coração.

Nem sempre há sinais de que algo está diferente. “Muitas mulheres são completamente assintomáticas e podem passar anos sem saber que possuem uma malformação uterina. Algumas descobrem por acaso durante um ultrassom ou outro exame ginecológico”, acrescenta a médica.

DÁ PARA ENGRAVIDAR NATURALMENTE?
Sim. Ter útero unicorno ou bicorno não significa automaticamente infertilidade. Muitas mulheres conseguem engravidar naturalmente, embora a anatomia uterina possa influenciar tanto a vida reprodutiva quanto a evolução da gestação.

“Tanto o útero unicorno quanto o útero bicorno podem dificultar a gravidez, seja em relação à dificuldade para engravidar ou durante a própria gestação. Em ambas as condições, isso pode ocorrer. E mais: muitas mulheres, na verdade, a grande maioria, engravidam naturalmente mesmo com essas condições”, afirma Tatiana Berlinsky, ginecologista do Instituto Gilberto Kocerginsky, de Curitiba (PR).

O QUE É IMPORTANTE SABER

  • Útero unicorno: apenas um lado do útero se desenvolve adequadamente;
  • Útero bicorno: os dois lados se formam, mas não se unem completamente;
  • Sintomas: muitas mulheres não apresentam sinais;
  • Fertilidade: a malformação não significa infertilidade e uma gravidez natural é possível;
  • Gestação: pode haver maior risco de aborto e parto prematuro;
  • Diagnóstico: ultrassom pode levantar a suspeita, enquanto ultrassonografia 3D e ressonância ajudam a detalhar a anatomia;
  • Tratamento: cirurgia não é indicada para todas as pacientes.

Com dois “cornos” no bicorno e apenas um lado desenvolvido no unicorno, alterações podem ser descobertas somente na vida adulta. A Febrasgo também destaca que as anormalidades uterinas não necessariamente dificultam a concepção e a implantação. O maior impacto pode aparecer ao longo da gravidez, dependendo do tipo de malformação e da anatomia de cada paciente.

Embora muitas mulheres consigam engravidar, a gestação merece acompanhamento mais próximo. O espaço e o formato da cavidade uterina podem interferir no desenvolvimento da gravidez.

“São gestações em que o risco de aborto espontâneo e de parto prematuro também é maior. Esses eventos são mais frequentes e prevalentes nesse tipo de paciente, exigindo o acompanhamento por um especialista em pré-natal e um obstetra especializado em gestação de alto risco, até o fim da gravidez”, afirma Tatiana.

NEM TODA MALFORMAÇÃO PRECISA DE CIRURGIA
O primeiro passo para definir a conduta é saber exatamente qual alteração a mulher apresenta. O ultrassom ginecológico pode levantar a suspeita, enquanto a ultrassonografia tridimensional e a ressonância magnética ajudam a visualizar melhor a cavidade e o contorno externo do útero.

Um cuidado particularmente importante é não confundir útero bicorno com útero septado. No bicorno, existe uma alteração também no formato externo do órgão. No septado, o contorno externo pode ser próximo do normal, mas uma parede de tecido divide parcial ou completamente a cavidade.

A diferença muda a indicação de tratamento. De acordo com a Febrasgo, mulheres com útero unicorno normalmente não são candidatas à correção cirúrgica. No bicorno, a cirurgia para unificar os cornos fica reservada a casos selecionados, principalmente quando há abortamentos recorrentes sem outra causa identificada. Já a retirada do septo uterino por histeroscopia pode ser indicada em situações específicas.

Por isso, descobrir uma malformação não significa precisar de cirurgia nem recorrer automaticamente à reprodução assistida. O diagnóstico correto permite avaliar a anatomia, o histórico reprodutivo e os planos da mulher para definir o acompanhamento mais adequado — inclusive antes de uma futura gravidez.