
Ventilador portátil de mesa ao lado de um laptop em dia de calor (Foto: Instagram)
A terça-feira começou em Londres com uma forte tempestade, repleta de trovões, relâmpagos e tanta chuva que causou inundações nos trilhos e atrasos por toda a cidade.
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Acordei às três da manhã com o som da chuva batendo na janela e não consegui voltar a dormir. Minha preocupação era prática: a logística do evento que vim cobrir durante a London Climate Action Week.
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Mas a cidade ainda reservava outra surpresa. Poucas horas após a tempestade, o calor chegou com intensidade, causando novamente transtornos no transporte público, mas por um motivo contrário. Em menos de uma manhã, Londres vivenciou dois extremos climáticos.
Não é à toa que dizem que o clima é o assunto preferido dos ingleses. Hoje, era impossível fugir dessa conversa. No entanto, para ser sincera, minha atenção já estava presa a outro fenômeno desde que cheguei aqui na última sexta-feira: a proliferação do que chamo de “gadgets da crise climática”.
O mais popular deles é o ventilador portátil. É verdade que ventiladores existem há décadas. Por muito tempo, empresas lucraram vendendo conforto: ventiladores, aparelhos de ar-condicionado, piscinas. O que está mudando agora é diferente. Estamos presenciando o surgimento de uma nova categoria de produtos: dispositivos criados para enfrentar ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas.
Estamos entrando na era em que grandes empresas de tecnologia não vendem apenas conveniência. Agora, trata-se de sobrevivência térmica. Quando algumas das maiores marcas do mundo começam a investir pesadamente em dispositivos pessoais de resfriamento, talvez estejam nos dizendo algo que ainda relutamos em admitir: o calor extremo deixou de ser uma previsão para se tornar parte da rotina. E, como toda nova realidade, já ganhou seu próprio modelo de negócios.
Fui pesquisar o assunto. Nos últimos meses, empresas tradicionalmente associadas a aspiradores de pó, eletrodomésticos e eletrônicos passaram a lançar ventiladores portáteis, sistemas de névoa refrigerada, colares térmicos e até uma espécie de “ar-condicionado vestível”.
A Dyson lançou o HushJet Mini Cool, um ventilador portátil que pode ser usado na mão, preso ao pescoço ou apoiado sobre a mesa. A Shark respondeu com o ChillPill, que combina ventilação, névoa refrescante e uma superfície metálica gelada para resfriar a pele. A Sony continua investindo no Reon Pocket, um dispositivo vestível que reduz a temperatura corporal por contato.
Comentei sobre isso com colegas do escritório. O que me impressiona não é exatamente a tecnologia. A inovação, afinal, sempre encontra novos mercados. O que chama atenção é a aposta por trás dela.
Essas empresas estão investindo bilhões porque acreditam que o calor extremo deixará de ser um evento excepcional para se tornar uma condição permanente da vida moderna. Há, porém, outro aspecto que merece reflexão.
Esses gadgets custam entre £100 e £200 – algo entre R$ 700 e R$ 1.500, dependendo da cotação. Não são produtos populares. Enquanto uma parcela da população compra dispositivos sofisticados para enfrentar dias de 40 graus, outra enfrenta o calor sem sombra, sem ventilação adequada e, muitas vezes, sem acesso confiável à eletricidade.
A adaptação climática está se tornando um mercado. Mas continua em aberto uma pergunta incômoda: o frescor será um direito ou um privilégio? Caminhando por Londres, entre ventiladores portáteis, alertas de calor e chuvas torrenciais, não consigo deixar de pensar que estamos nos tornando especialistas em nos adaptar às consequências de um grande problema. O que ainda falta é demonstrar a mesma urgência para enfrentar as causas dele.







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