
Política ou Campo de Batalha? (Foto: Instagram)
A política contemporânea, além de ser um espaço de diálogo e negociação, frequentemente se expressa como se estivesse em um campo de batalha. Os candidatos não apenas disputam eleições: eles "entram em guerra". Os adversários são vistos como inimigos, e as campanhas são organizadas com "estratégias", "táticas", "alvos", "fogo concentrado", "ataques", "manobras", "ocupação de territórios" e a tentativa de "aniquilar" a resistência dos outros.
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A linguagem utilizada revela mais do que aparenta. Quando a política adota termos de guerra, expõe sua natureza conflituosa. Cada campanha é uma batalha por corações, mentes e territórios sociais e simbólicos. Existem generais de marketing, soldados nas ruas, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto torna-se o território a ser conquistado.
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Sun Tzu, o general-filósofo, autor de A Arte da Guerra, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória suprema é vencer sem lutar. Na política, isso significa desarmar o adversário antes de um ataque: ocupar sua agenda, confundir suas bases, antecipar seus movimentos e atraí-lo para terrenos desfavoráveis. Miyamoto Musashi, mestre na arte samurai, aconselhava a ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu famoso livro, Um Livro dos Cinco Anéis, ele oferece lições valiosas para campanhas: perceber detalhes ocultos, fraquezas invisíveis e o momento certo de "atravessar o riacho".
Níccolò Machiavelli, considerado o pai da Ciência Política, famoso por O Príncipe, mostrou que o poder raramente é exercido com mãos limpas. Aparência, dissimulação, cálculo e administração do medo são parte do repertório de quem deseja governar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro francês (1602-1661), foi ainda mais direto: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte de sobrevivência.
Karl von Clausewitz, filósofo da guerra, em seu livro Da Guerra, publicado por sua esposa em 1832, afirmou que a guerra é a continuação da política por outros meios. Hoje, talvez possamos inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, em seu livro Grandes Guerras da História, mostrou como a estratégia indireta ajuda a entender a política contemporânea: nem sempre o ataque direto é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e força o inimigo a cometer erros.
O problema surge quando a linguagem de guerra deixa de ser uma metáfora e começa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência se transforma em ameaça. A negociação torna-se rendição. A prudência é vista como covardia. O centro vira um pântano. A política, que deveria organizar o conflito de maneira civilizada, passa a incendiá-lo. Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas a democracia não é um campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir uma maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.
A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.
No final, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político







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