
Violência silenciosa: mais de 10,7 mil idosos vítimas de violações no DF em seis meses (Foto: Instagram)
A violência contra idosos frequentemente ocorre em casa, de forma silenciosa e muitas vezes não é reconhecida pela própria vítima. No Distrito Federal, entre janeiro e 24 de junho deste ano, 10.755 idosos foram vítimas de violações de direitos humanos, conforme denúncias recebidas pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (Disque 100). Para mais de 9,3 mil dessas pessoas, as violações ocorriam diariamente.
++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos
As denúncias resultaram em 50.116 registros de violações, já que uma única queixa pode incluir diferentes tipos de violência e infrações aos direitos da vítima. Os dados colocam o Distrito Federal na 4ª posição no ranking nacional de unidades da Federação com o maior número de violações de direitos humanos contra idosos no primeiro semestre de 2026.
++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro
Com o encerramento do Junho Violeta, que visa conscientizar e combater a violência contra idosos, a campanha destaca diferentes formas de violência, que podem ser físicas, psicológicas, patrimoniais, institucionais, sexuais ou resultantes de negligência e abandono.
A maioria das vítimas relatadas tem entre 70 e 74 anos, com 8.657 casos. Em seguida, estão pessoas de 75 a 79 anos (508); 65 a 69 anos (372); 80 a 84 anos (366); 60 a 64 anos (334); 85 a 89 anos (245); e 90 anos ou mais (198). Em 75 casos, a idade não foi informada.
Quanto ao gênero, homens representam a maioria das vítimas, com 9.313 registros, enquanto mulheres somam 1.394. Existem também casos onde essa informação não foi fornecida.
A violação mais frequente é a relacionada à integridade, com 10.624 registros. Também são comuns as violações de direitos sociais (3.638) e violência institucional (936). O painel ainda contabiliza violações envolvendo liberdade (373), direitos civis e políticos (101) e igualdade (50).
Franciely Almeida, coordenadora-geral do Disque Direitos Humanos (Disque 100), explica que violações de integridade incluem violência física, psicológica, patrimonial, tortura, maus-tratos, negligência, abandono e outras ações que comprometem a segurança, saúde ou dignidade do idoso.
Outro dado preocupante é a frequência das agressões. Segundo o Painel da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, mais de 9,3 mil idosos sofreram violações diárias.
“A classificação de frequência diária indica que a violação ocorre de maneira contínua ou repetida todos os dias, não se limitando a um episódio isolado. Essa informação é crucial para avaliar a gravidade da situação e orientar as medidas de proteção a serem adotadas”, destaca a coordenadora-geral.
Fraciely observa que a recorrência diária é comum em casos de violência familiar ou de cuidado, especialmente em situações de negligência, abandono, violência psicológica, violência física contínua e violência patrimonial.
DESAFIOS NA REDE DE PROTEÇÃO AOS IDOSOS
A Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin/PCDF) também tem registrado aumento nos casos envolvendo idosos.
De 1º de janeiro a 25 de junho deste ano, foram 123 ocorrências, comparadas a 101 no mesmo período de 2025 e 92 em 2024, um aumento de 21,7% em relação ao ano passado.
O número de investigações também subiu. A delegacia iniciou 102 inquéritos este ano, contra 83 em 2025 e 71 em 2024.
Cyntia Carvalho, delegada-chefe adjunta da Decrin, relaciona o aumento tanto ao envelhecimento da população quanto ao fortalecimento da delegacia especializada.
“Com mais idosos, há maior possibilidade de vítimas. Ao mesmo tempo, a Decrin tem ampliado suas ações e divulgado seu trabalho, incentivando mais vítimas a procurarem a delegacia”, explica.
Apesar do aumento nos registros, a delegada afirma que o maior desafio é convencer as vítimas de que estão sofrendo violência. “A maior dificuldade é sensibilizar o idoso para que ele se reconheça como vítima. Sem a colaboração da vítima, muitas investigações não avançam.” Cyntia destaca que, na maioria dos casos, os agressores são familiares, principalmente filhos e netos.
Ela explica que as violências mais comuns investigadas são a psicológica e a patrimonial.
A violência psicológica ocorre quando o idoso é excluído de decisões familiares, tem sua autonomia desrespeitada ou é isolado socialmente. Já a patrimonial envolve desde a apropriação indevida de aposentadorias até pressões para preservar o patrimônio visando uma futura herança.
Outro problema enfrentado é a falta de estrutura da rede de acolhimento no Distrito Federal. Segundo a delegada, muitas vezes a prisão do agressor é inviabilizada pela falta de locais para receber a vítima.
“Às vezes conseguimos afastar ou prender o cuidador que pratica a violência, mas não temos para onde levar o idoso. A segurança pública faz sua parte, mas faltam equipamentos da assistência social, como instituições públicas de longa permanência e centros-dia.”
Para Cyntia, o combate à violência contra idosos depende de uma ação integrada entre segurança pública, assistência social e saúde. “Não basta apenas investigar e prender. É preciso garantir uma rede capaz de acolher e proteger essas vítimas.”
CONSCIENTIZAÇÃO E PREVENÇÃO
Enquanto a Decrin atua na investigação criminal, a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus-DF) concentra esforços na prevenção e acolhimento das vítimas. Segundo a subsecretária de Políticas para a Pessoa Idosa, Dolores Ferreira, a maioria das violações de direitos contra idosos está ligada à vulnerabilidade social e a conflitos familiares, envolvendo principalmente violência patrimonial, negligência, agressões físicas e violência psicológica.
Dados da pasta mostram que, apenas em 2026, 884 denúncias de violações de direitos de idosos foram recebidas e encaminhadas.
Para a subsecretária, a violência contra idosos ainda é, em grande parte, silenciosa e ocorre dentro do ambiente familiar, dificultando a identificação e a denúncia.
“Muitos idosos dependem financeiramente ou emocionalmente dos agressores e, por medo, vergonha ou receio de romper laços familiares, acabam não denunciando as situações de violência”, afirma.
Dolores destaca que ampliar o acesso à informação é uma das principais estratégias para reduzir esse tipo de violência. “Quando o idoso tem acesso às informações corretas, menos violências ele sofre. Ao conhecer seus direitos e identificar abusos, ele se fortalece para buscar ajuda e romper ciclos de violência”, ressalta.
A subsecretária afirma que o DF conta com uma rede integrada de proteção formada por assistência social, saúde, segurança pública e sistema de Justiça.
Entre os serviços disponíveis estão o Programa Viver 60+, os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), os Centros Especializados para Atenção às Pessoas em Situação de Violência (Cepavs), a Central Judicial da Pessoa Idosa, a Decrin e os canais de denúncia, como o Disque 100, o telefone 197 da Polícia Civil e a Ouvidoria do GDF (162).
Durante a campanha Junho Violeta, a Sejus promove oficinas, palestras, rodas de conversa e atividades de integração nos 48 polos do Programa Viver 60+, orientando os participantes sobre os diferentes tipos de violência, os sinais de alerta e os canais de denúncia.
Para a gestora, fortalecer os vínculos sociais também é uma forma de prevenção, já que o isolamento aumenta a vulnerabilidade das pessoas idosas.
DISQUE 100
O Disque 100, serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, recebe, analisa e encaminha denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, população em situação de rua e outras populações vulneráveis, como indígenas, quilombolas e ciganos.
Em seguida, é feito o monitoramento dos encaminhamentos, com o objetivo de acompanhar as providências adotadas pelos órgãos acionados, respeitando as competências legais de cada instituição.
O serviço funciona como um “pronto socorro” dos direitos humanos, atendendo situações graves de violações que acabaram de ocorrer ou que ainda estão em curso, acionando os órgãos competentes para possibilitar flagrantes.
O Disque 100 opera diariamente, 24 horas, incluindo sábados, domingos e feriados. As ligações são gratuitas e podem ser feitas de todo o Brasil, de qualquer telefone fixo ou móvel.
Quer ficar por dentro de tudo o que acontece no quadradinho? Siga o perfil do Metrópoles DF no Instagram.
Receba notícias do Distrito Federal no seu WhatsApp e fique informado. Basta acessar o canal de notícias do Metrópoles DF.
Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre o Distrito Federal pelo WhatsApp do Metrópoles DF: (61) 9119-8884.







Leave a Reply