El Niño em MG: Calor Intenso e Menos Chuva, Mas Sem Necessidade de Estocar Alimentos

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El Niño deve aquecer Minas e concentrar chuvas (Foto: Instagram)

Belo Horizonte – As redes sociais têm visto um aumento de vídeos de pessoas mostrando despensas cheias e aconselhando a estocar alimentos devido aos alertas sobre o El Niño. Mas será que isso é necessário? Especialistas afirmam que o fenômeno trará temperaturas mais altas que o normal, menos dias de chuva e tempestades mais intensas em Minas Gerais, mas não justificam uma corrida aos supermercados.

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Entre aqueles que preferem manter um estoque de alimentos está a educadora e influenciadora Mirella Dellazzari, de 45 anos, residente na zona rural de Uberaba, no Triângulo Mineiro.

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Ela mantém provisões para cerca de três meses para sua família de seis pessoas. “Desde a pandemia, já faço esse armazenamento”, explica.

Mirella compra os produtos gradualmente, aproveitando promoções e fazendo rodízio para evitar desperdícios. Em sua casa, ela guarda arroz, macarrão, enlatados, milho, lentilhas, produtos de higiene, pilhas, baterias, antibióticos, materiais de primeiros socorros e até pederneiras. “Todo mês guardo algo e faço rodízio das coisas mais antigas. Assim, não pesa no orçamento”, diz. Para ela, essa prática não está apenas ligada às previsões climáticas, mas também a suas crenças religiosas. “Há profecias católicas que sugerem isso e encontram respaldo na parábola das virgens prudentes. Para nós, é um exercício de prudência. Não é falta de confiança em Deus, mas uma responsabilidade que nos foi confiada”, afirma.

A preocupação aumentou após a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência meteorológica dos Estados Unidos, confirmar a formação do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, e informar que há 63% de chance do fenômeno atingir intensidade “muito forte” entre o final de 2026 e o início de 2027.

O professor de geografia e cientista do clima Lucas Oliver compara o fenômeno a uma situação comum: o aquecimento das águas funciona como um chuveiro quente em um banheiro fechado.

“Você liga o chuveiro no inverno, fecha a porta e a janela e, quando percebe, o banheiro todo está quente, apesar de a água cair em um só lugar”, exemplifica. Ele explica que o Oceano Pacífico cobre quase metade da superfície do planeta e, quando suas águas aquecem, esse calor afeta toda a atmosfera. “O principal efeito é que esse aquecimento altera a dinâmica da circulação do ar”, afirma.

A agência NOAA indica que, se a previsão se concretizar, este poderá ser um dos eventos mais intensos desde 1950, com potencial para provocar mudanças significativas nos padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo.

Segundo Lucas, o evento deste ano chama a atenção devido à rapidez com que o aquecimento está ocorrendo. “Mesmo os El Niños mais fortes demoraram mais para aquecer. Este está aquecendo muito rápido e muito quente”, afirma.

Em Minas Gerais, a principal preocupação é a combinação de calor intenso e redução das chuvas. Lucas afirma que “devemos ter um verão com menos chuva que a média e várias ondas de calor”. A previsão é de até quatro ondas de calor entre outubro e março.

“São períodos de pelo menos cinco dias com temperaturas de dois ou três graus acima da média. No verão, isso significa dias com temperaturas superiores a 35°C”, explica.

Embora a previsão seja de menos chuva ao longo do verão, isso não significa ausência de tempestades. Segundo o especialista, o Oceano Atlântico, próximo ao litoral do Sudeste, também está mais quente que o normal, o que aumenta a umidade na atmosfera. “Vamos ter mais umidade no ar, o que também significa mais bloqueios atmosféricos, levando a ondas de calor no Sudeste”, explica.

Ele afirma que esses bloqueios impedem o avanço da umidade da Amazônia para Minas Gerais e favorecem o deslocamento das chuvas para a Região Sul. “Quando há um bloqueio atmosférico no Sudeste, a umidade que vem da Amazônia migra para o Sul do Brasil. No Sul, deve chover mais e aqui acabamos ficando com menos chuva”, diz.

Mesmo assim, o especialista alerta que as precipitações tendem a ser mais intensas quando ocorrerem. A expectativa é de uma redução de cerca de 10% a 15% no volume total de chuva, mas com uma queda ainda maior no número de dias chuvosos.

“A quantidade de chuva ainda existirá, mas em menos dias. Esse volume ficará concentrado, o que leva a riscos de tempestades, deslizamentos e inundações. Se você mantém o volume de chuva e diminui o número de dias, essa chuva será muito intensa quando ocorrer”, afirma.

O especialista destaca que alguns setores já podem começar a sentir os impactos do fenômeno. “A agricultura é sempre o setor principal a ser atingido, pois depende diretamente do clima. A produção de energia também.”

Ele explica que, mesmo com tempestades, a concentração da chuva em poucos dias dificulta a recuperação dos reservatórios. “Essa chuva concentrada não enche os reservatórios. O que enche são dias seguidos de chuva.”

Segundo ele, caso o cenário se confirme, o país pode iniciar 2027 com reflexos no sistema elétrico. “Se não chover o suficiente, podemos começar 2027, principalmente em março e abril, com risco de aumento na conta de energia.”

O meteorologista ressalta que, embora os modelos indiquem um cenário preocupante, ainda se trata de uma previsão climática, sujeita a mudanças. E, apesar dos alertas, o especialista não recomenda medidas como estocar alimentos ou água.

“Não acho que tem que estocar água, essas coisas. Não vejo sentido, porque a gente não sabe onde vai cair a chuva”, diz. Segundo ele, não é possível prever exatamente quais cidades serão atingidas por eventos extremos. “Podemos passar o verão todo aqui em Belo Horizonte sem nenhum problema, mas também podemos ter episódios catastróficos. Não conseguimos prever onde vai cair a chuva, onde será o calor, quantos dias ou em que dia.”

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