Conflito com Lula revela fragilidades na política externa de Javier Milei

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Javier Milei em convenção do PL, onde atacou autoridades brasileiras (Foto: Instagram)

As relações diplomáticas entre Brasil e Argentina enfrentam a pior crise desde a redemocratização dos dois países. A origem do problema foi uma série de ataques do presidente argentino Javier Milei contra autoridades brasileiras durante a convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República.

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O conflito destaca, no entanto, uma questão mais profunda: os limites da política externa de Milei, que tem sido guiada por alinhamentos ideológicos e disputas políticas.

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Para especialistas consultados pelo Metrópoles, a crise mostra um choque entre a diplomacia tradicional, baseada em interesses permanentes do Estado, e uma atuação cada vez mais influenciada por disputas ideológicas.

Durante a convenção do Partido Liberal (PL), que lançou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência no sábado (25/7), Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “ladrão”, “presidiário” e “lixo socialista”. O argentino também atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), chamando-o de “lixo careca”. Nos dias seguintes, Milei manteve sua postura, republicando mensagens de apoio aos ataques e compartilhando uma publicação que afirmava que “chamar o ladrão de ladrão não é motivo de ofensa”.

A reação brasileira foi considerada um dos gestos diplomáticos mais duros adotados contra Buenos Aires nas últimas décadas. O Itamaraty convocou o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Glinternick Bitelli, para consultas, enquanto o chanceler Mauro Vieira chamou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para apresentar um protesto formal.

O professor Vitor de Pieri, especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), afirma que a política externa de Milei deixou de ser apenas uma estratégia de alinhamento internacional e passou a gerar custos diplomáticos concretos. “Desde o início de seu governo, Milei abandonou uma tradição histórica da diplomacia argentina, marcada pela defesa da autonomia decisória e da centralidade do Estado, para adotar uma política externa de alinhamento quase incondicional aos Estados Unidos e ao eixo da nova direita internacional”, avalia.

Segundo ele, o governo argentino passou a priorizar afinidades políticas e pessoais com líderes, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, em detrimento de uma lógica de Estado. De Pieri aponta que a viagem de Milei ao Brasil simboliza essa mudança de postura. “Em vez de realizar uma visita oficial para dialogar com o governo brasileiro, Milei participou de um ato eleitoral da oposição, atacou publicamente o presidente da República, o Poder Judiciário e instituições brasileiras em território nacional”, expõe.

O conflito com o Brasil não é o primeiro episódio em que Milei transforma divergências políticas em crises diplomáticas. O presidente argentino já havia provocado uma crise com a Espanha após atacar o primeiro-ministro Pedro Sánchez e sua esposa, Begoña Gómez, durante uma viagem a Madri. O episódio levou o governo espanhol a retirar temporariamente sua embaixadora de Buenos Aires.

Especialistas apontam que o padrão revela uma diplomacia mais associada ao confronto político e às redes sociais do que à negociação tradicional entre Estados. “O problema é que esse tipo de confrontação produz efeitos que vão muito além da relação pessoal entre Lula e Milei. A diplomacia existe justamente para impedir que divergências entre governantes contaminem interesses permanentes dos Estados”, afirma De Pieri.

Apesar da crise política, Brasil e Argentina seguem profundamente conectados pela economia. O Brasil é o principal parceiro comercial argentino e um mercado essencial para setores como automóveis, máquinas e bens industrializados. Em 2025, o comércio bilateral movimentou cerca de US$ 31 bilhões, mostrando que a relação econômica permanece mais forte do que as divergências entre os governos.

O cientista político Gustavo Menon afirma que a crise demonstra justamente esse paradoxo. Segundo ele, a interdependência entre os dois países impede que divergências presidenciais sejam transformadas em uma ruptura completa. “O comércio, as cadeias produtivas e a própria estabilidade do entorno regional fazem com que a parceria continue estratégica, sobretudo em um contexto de tarifaço e de incertezas no comércio internacional”, avalia.

Menon destaca, ainda, o papel do Mercosul como mecanismo de proteção econômica. Na visão do especialista, o bloco funciona como uma espécie de amortecedor institucional, preservando os fluxos comerciais e evitando que divergências conjunturais destruam uma base de integração construída ao longo de décadas.

Desde a campanha eleitoral, Milei defende uma aproximação prioritária com os Estados Unidos e adota uma postura crítica em relação à China e ao governo brasileiro. Na prática, porém, a Argentina continua dependente de seus principais parceiros comerciais. O Brasil é fundamental para a indústria argentina e também para projetos estratégicos, como a integração energética envolvendo o gás de Vaca Muerta.

Para a doutora em estudos estratégicos da defesa e segurança, Priscilla Mendes, a crise atual evidencia os limites da polarização ideológica na política externa. “O avanço de lideranças de direita na América Latina tornou a política externa um tema cada vez mais central das disputas domésticas, reduzindo o espaço para a tradicional separação entre divergências partidárias e interesses permanentes do Estado”, afirma.

Segundo ela, o desgaste entre Lula e Milei não significa, necessariamente, uma ruptura entre Brasil e Argentina. “Tanto o Itamaraty quanto a chancelaria argentina foram estruturados com base em princípios de profissionalização, continuidade institucional e defesa dos interesses nacionais de longo prazo”, diz.

A avaliação de Mendes vai ao encontro da posição manifestada pelo próprio chanceler argentino, Pablo Quirno, que descartou a possibilidade de um rompimento diplomático entre os dois países. “Não há nenhuma chance de que, do nosso lado, as relações se rompam (…). Nós não levamos isso para o plano institucional”, afirmou.