
Morador atravessa trilhos no bairro de Boa União, em Três Rios (RJ), área de alto risco para acidentes ferroviários. (Foto: Instagram)
Na madrugada de 1º de abril de 2009, Daiane Valério foi despertada pelo som de um trem, mas logo voltou a dormir, algo comum para quem vive próximo às linhas férreas. Na madrugada seguinte, o que a acordou não foi a buzina do trem, mas o barulho de máquinas hospitalares e uma sensação de frio na parte inferior do corpo.
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Entre essas duas madrugadas, Daiane foi atropelada por um trem quase na porta de sua casa, no bairro de Boa União, em Três Rios (RJ). O acidente ocorreu no Dia da Mentira, mas a tragédia era real.
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Daiane perdeu a perna esquerda aos 9 anos, quando voltava da escola, caminhando sobre os trilhos. Nos anos seguintes, não apenas o sono dela seria interrompido pelo barulho, mas também seus sonhos.
Ao retornar da escola, Daiane foi atropelada por um trem da MRS Logística, concessionária que opera entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O maquinista não a viu e não chegou a buzinar, segundo testemunhas. Ele só soube do acidente dias depois.
O acidente trouxe consequências duradouras para Daiane. Seis anos depois, prestes a entrar no Ensino Médio, ela abandonou a escola devido às dificuldades de locomoção. Para chegar ao colégio, alguém precisava carregá-la no colo para atravessar a linha férrea, mas nem sempre havia quem pudesse ajudar.
No início, a mãe de Daiane a ajudou bastante, mas com o tempo, o apoio diminuiu. Daiane passou a ser vista como a filha “defeituosa”.
A malha ferroviária brasileira possui 29 mil quilômetros, dos quais 99% são dedicados ao transporte de cargas. Os trens podem carregar centenas de vagões e toneladas de mercadorias. Entrar em seu caminho geralmente resulta em morte ou acidente grave.
Nos últimos cinco anos, as ferrovias privadas no Brasil registraram 1.559 acidentes com vítimas, resultando em 531 mortes, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). É como se a tragédia do voo 1907 da Gol, em 2006, se repetisse três vezes nesse período.
Entre os 1.559 acidentes ferroviários, os mais comuns foram atropelamentos (1.163) e colisões com veículos (387). Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro concentram 86% das mortes em acidentes ferroviários.
A insegurança nas ferrovias brasileiras é maior do que em outros países. No Brasil, ocorrem cerca de 16 acidentes por milhão de quilômetros percorridos por trens, enquanto na Europa esse número é de 1,4.
Daniel Alfredo Alves Miguel, especialista em regulação da ANTT, aponta que o Brasil não tem um órgão independente para investigar acidentes ferroviários. As empresas realizam suas próprias investigações, dificultando a compreensão dos riscos e a adoção de medidas de segurança.
De modo geral, acidentes ferroviários resultam de fatores como infraestrutura precária, falhas humanas e manutenção inadequada dos equipamentos.
"O detalhamento permitiria identificar a causa real de um acidente, seja primária ou contributiva, essencial para obter informações precisas sobre os riscos no sistema ferroviário federal", afirma Alves Miguel.
Valéria Helena, aos 17 anos, teve suas pernas arrancadas por um trem em Juiz de Fora (MG). Com 33 anos, ela relembra o dia em que se tornou uma "boneca com defeito" após um trem da MRS Logística passar por cima dela.
Retornando para casa em 20 de fevereiro de 2010, Valéria caiu em um bueiro ao lado dos trilhos. Após minutos gritando por ajuda, uma locomotiva passou por cima dela, arrancando suas duas pernas.
Nos 10 anos seguintes, Valéria enfrentou depressão, isolando-se por vergonha e dificuldade de locomoção. Em 2020, ela lançou uma vaquinha online para comprar próteses, contando sua história nas redes sociais.
A MRS Logística não pagou pelo tratamento e venceu a ação judicial movida pela família de Valéria em Minas Gerais, alegando culpa exclusiva da vítima.
Os pontos críticos para acidentes ferroviários estão em áreas urbanas, onde as pessoas cruzam trilhos para suas atividades diárias. A legislação exige que “passagens de nível” sejam comunicadas ao poder público para medidas de segurança, mas as regras nem sempre são seguidas ou fiscalizadas.
Em dezembro passado, o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou problemas nas passagens de nível de ferrovias federais. Na Rumo Malha Paulista, 28% das passagens foram consideradas críticas e 11% ruins.
Passagens de nível com sinalização precária aumentam o risco para a população. Existem também passagens clandestinas, onde a probabilidade de acidentes graves é ainda maior.
A auditoria do TCU apontou a imprudência dos usuários como uma das principais causas de acidentes ferroviários. Em 66% dos casos analisados, comportamentos imprudentes foram identificados.
"A conclusão é que todos têm responsabilidade e comportamentos que precisam ser trabalhados. É um tema complexo, envolvendo mobilidade e vida", afirma o auditor Maurício Ferreira Wanderley.
A ANTT informa que existem 12.036 passagens de nível no Brasil, sendo 10.465 oficiais e 1.571 clandestinas, principalmente em comunidades pobres.
Levantamento do Metrópoles com dados da ANTT aponta locais com alta incidência de acidentes. Entre 2021 e 2025, Curitiba (PR) registrou 108 acidentes com mortes ou feridos, e Juiz de Fora (MG) 74.
Na Região Metropolitana de Curitiba, o trecho com maior número de ocorrências fica entre o Posto km 103,490 e o Posto km 108, com 40 acidentes em cinco anos.
Na noite de 22 de junho de 2018, Antônio Avila e Keiziane Avila sofreram um acidente em um dos trechos ferroviários mais perigosos do Brasil. O carro de Antônio foi atingido por uma locomotiva da Rumo Malha Sul, mas a Justiça do Paraná condenou a concessionária a reparar os danos à família.
Por muito tempo, Keiziane foi perseguida pela lembrança do acidente e interrompeu a faculdade. Oito anos depois, o medo persiste.
Curitiba possui mais de 40 quilômetros de trilhos que cortam bairros. O prefeito Eduardo Pimentel quer retirar os trens de carga do perímetro urbano, considerando a renovação da concessão uma "janela de oportunidade".
A cidade investe em tecnologia e segurança para evitar acidentes, como semáforos inteligentes que detectam a aproximação de locomotivas.
Durante inspeção do TCU em Curitiba, foi identificado impasse entre a prefeitura e a Rumo Malha Sul sobre o fechamento de passagens de nível clandestinas.
O bairro de Boa União, onde Daiane Valério perdeu a perna, é considerado ocupação territorial. A ferrovia existia antes das casas, e a necessidade de moradia empurra famílias de baixa renda para perto dos trilhos.
Bruno Barsanetti, especialista em geografia econômica, explica que áreas lindeiras foram ocupadas devido a lacunas no direito de propriedade. As ferrovias criam "barreiras sociais" que atraem famílias de renda mais baixa.
Roberto Willians, do Instituto de Qualidade Ferroviária, destaca que a insegurança reflete omissões do poder público e das concessionárias no cuidado com as “faixas de domínio”.
Lindalva dos Anjos da Silva, de Sarandi (PR), perdeu o marido em um acidente ferroviário. A Justiça condenou a Rumo Malha Sul a reparar os danos, mas Lindalva ainda enfrenta diariamente a lembrança da tragédia.
Vítimas de acidentes ferroviários buscam responsabilizar concessionárias na Justiça. A jurisprudência tem evoluído para punir omissões na contenção das vias.
Márcio dos Anjos, advogado especialista em acidentes ferroviários, defende que as concessionárias devem arcar com o ônus da operação.
No caso de Daiane Valério, a MRS Logística alegou culpa exclusiva da vítima, mas o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reconheceu a culpa concorrente.
Os maquinistas enfrentam traumas devido a suicídios e acidentes graves. Jayme Alves Sant Ana, maquinista aposentado, lembra-se de acidentes que não conseguiu evitar.
A MRS Logística afirmou que a segurança operacional é um valor inegociável e investe em infraestrutura e campanhas educativas. A Rumo realiza campanhas de conscientização e discute investimentos para eliminar conflitos urbanos.
A ANTT afirma que cada acidente é apurado individualmente e fiscaliza as concessões para melhorias na segurança.
Daiane Valério, agora mãe de quatro filhos, deixou a beira da linha do trem em 2024 e vive em Santana do Deserto, Minas Gerais, longe dos trilhos.






