
Mural de Ailton Krenak na Praça Raul Soares, em Belo Horizonte, retrata o Rio Doce tentando abrir caminho entre destroços e traz a frase “um rio passava seus peixes no fundo do meu quintal”. (Foto: Instagram)
Belo Horizonte — Um novo elemento se junta à paisagem do Centro de Belo Horizonte: um rio tentando abrir caminho entre destroços. Ailton Krenak, pela primeira vez, vê uma de suas criações ganhar proporções monumentais em uma empena próxima à Praça Raul Soares. O mural eterniza a memória da destruição do Rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, considerada a maior tragédia ambiental do Brasil.
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A obra faz parte da 9ª edição do Circuito Urbano de Arte (CURA), que nesta sexta-feira (28/8) recebe Krenak em Belo Horizonte para a inauguração do mural.
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Em entrevista ao Metrópoles, Krenak revelou que participou da concepção da imagem, mas não precisou subir nos andaimes para vê-la ganhar a dimensão de um edifício. A execução ficou a cargo da equipe de pintura, o que não alterou seu processo criativo.
“Eu não estou lá pendurado, aplicando o desenho. As pessoas que fazem isso são gigantes para mim. Estou honrado com o convite do CURA. Isso não altera minha forma de expressar, em desenhos e rabiscos, as coisas que me movem”, afirmou Krenak, dividindo os créditos com os artistas Anne, Dream, Vicky, Nati e Anata, que participaram da execução.
A imagem escolhida é uma referência à devastação causada pelo rompimento da barragem de Fundão em 2015, que afetou a Bacia do Rio Doce. “É uma imagem que ficou gravada em minhas retinas desde que a lama de Mariana devastou a Bacia do Rio Doce, nosso rio Watu”, explicou Krenak.
O RIO COMO ENTIDADE
“A comunidade Krenak vê esse rio como uma entidade importante. Ele está em coma sob a lama da mineração. Fios d’água correm entre lamas e pedras, e ele tem uma dignidade que me inspirou a criar essa imagem de um rio tentando abrir caminho entre escombros. Essa é a imagem que quis compartilhar com quem passa por aquele mural”, relatou.
O rompimento lançou cerca de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos no ambiente. A lama percorreu mais de 660 quilômetros, atingiu o Rio Doce e chegou ao litoral do Espírito Santo.
Dezenove pessoas perderam a vida, e 1.469 hectares de áreas naturais foram destruídos, além da perda de vegetação, habitats, animais, a morte de peixes e os impactos no abastecimento de água, pesca e vida das comunidades ao longo da bacia.
Agora, quem passa pelo Centro encontra uma lembrança permanente das marcas deixadas pela tragédia. No centro da imagem, a frase: “um rio passava seus peixes no fundo do meu quintal”, referência à canção “Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.
“É uma citação dessa canção que fica em nossas memórias. Todos conhecem essa canção maravilhosa de Fernando Brant e Bituca. Fico feliz em trazê-los para minha companhia”, disse.
Krenak estará em BH nesta sexta-feira para a entrega pública da obra. “Vou estar lá para abraçar as pessoas que, apoiando ou subindo e descendo a parede, estão imprimindo essa imagem, a do Watu, nosso rio. Convido quem estiver por perto a passar por lá. A gente se abraça, a gente se vê”, concluiu.
REOCUPANDO A CIDADE
O CURA surgiu em BH, em 2017, com a proposta de transformar grandes paredes de prédios em uma galeria de arte a céu aberto, mudando a relação das pessoas com o espaço público.
Após passar pela Rua Sapucaí e pela Lagoinha, o festival chegou à Praça Raul Soares em 2021. No entorno da praça, o circuito reúne 15 obras, que ganharam mais duas nesta edição.
Além de Krenak, Mônica Nador, um dos principais nomes da pintura mural no Brasil e fundadora do Jardim Miriam Arte Clube (JAMAC) na periferia de São Paulo, também coloriu um dos edifícios.
“O CURA é muito mais que um festival, não é apenas um evento. Ele deixa um legado para a cidade e coloca BH no circuito de arte pública do Brasil. Hoje, temos 35 prédios pintados. Queremos agora entregar esse mirante circular da Praça Raul Soares, reforçando a ideia de que ela se torne um espaço habitável, onde as pessoas possam frequentar e ver arte. Poucas praças no mundo têm 16 obras ao redor. Isso é BH”, afirmou Priscila Amoni, uma das organizadoras do CURA.
A programação continua até domingo (30/8), com atividades gratuitas. Além da pintura dos prédios e de uma intervenção no Edifício JK, o público poderá desfrutar de DJs, pintura ao vivo, highline, atividades para crianças e visitas guiadas ao conjunto projetado por Oscar Niemeyer.
No domingo, o festival se despede da Praça Raul Soares com a Festa Honk! BH, festival de fanfarras ativistas que reúne músicos de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Distrito Federal, além do DJ Luiz Valente.
Sexta-feira (28/8)
9h às 17h — Pintura das empenas
9h às 17h — Pintura do Caracol do Edifício JK
16h às 22h — Instalação MIRANTE: Exposição Live Painting
16h às 19h — DJ Bebela Dias
16h30 — Visita guiada ao JK
19h às 22h — DJ Lu Get Hard
Sábado (29/8)
9h às 17h — Pintura das empenas
9h às 17h — Pintura do Caracol do Edifício JK
14h às 21h — Instalação MIRANTE: Exposição Live Painting
14h às 17h — DJ Naroca
14h às 20h — Highline
16h às 19h — Velódromo
16h30 — Visita guiada ao JK, com Libras
17h — Lançamento do Mapa Afetivo
17h30 — Roda de conversa: Comissão Criativa, com Libras
17h às 20h — DJ Black Josie
Programação infantil — sábado
14h às 16h — Atlas Afetivo e Onírico de Belo Horizonte
15h às 16h — Oficina de Pintura: Patrimônios de BH
15h às 17h — A Geometria do Rolê: Traçados de Afeto em BH
15h às 17h — Quintal do Brincar
Domingo (30/8)
9h às 17h — Pintura das empenas
9h às 17h — Pintura do Caracol do Edifício JK
14h às 21h — Instalação MIRANTE: Exposição Live Painting
14h às 20h — Festa Honk! BH
14h às 20h — Highline
16h30 — Visita guiada ao JK
20h às 21h — DJ Luiz Valente
Loja CURA
Visitas ao JK: retirada de ingressos 30 minutos antes da programação.
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