José Sarney reflete sobre temperança e resiliência na política brasileira

Publicado por


Plantar hoje, crescer amanhã: mudas que simbolizam temperança e resiliência (Foto: Instagram)

As palavras também são influenciadas pelas tendências. Elas entram e saem de uso conforme as épocas, costumes e formas de apresentação. Há séculos, a temperança foi altamente valorizada, desde que Aristóteles a classificou como uma virtude cardeal, associada ao comportamento teológico, sinônimo de equilíbrio e moderação, sempre presente no modo de viver.

++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos

Jesus Cristo também utilizou a palavra intemperança para descrever a falta de temperança, como relatado no Evangelho de São Mateus, ao condenar "os escribas e fariseus" que estavam "cheios de roubo e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o que está por fora fique limpo".

++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro

Assim, ele considerava a temperança, como Aristóteles, uma virtude ligada à pureza da alma e do corpo, julgando os fariseus como hipócritas "porque oravam de pé nas sinagogas para serem vistos". Atualmente, a temperança é uma virtude de equilíbrio, entendimento, uma conduta sem violência e na busca de um temperamento tranquilo, para uma convivência saudável e humana. Infelizmente, não é ela que predomina entre os homens públicos do nosso país. O que observamos é uma escalada de ódio e intolerância nas relações humanas, sem limites para a irritação e a intolerância, tudo o oposto da temperança.

Certa vez, no Palácio do Planalto, em conversa com a presidente Dilma, nas longas discussões que tínhamos durante as audiências, mencionei a falta de tolerância na política. Naquela época, ainda não tínhamos atingido o nível de radicalização que vivemos hoje. A presidente concordou comigo e aceitou nossa análise, mas acrescentou que a temperança tinha uma conotação religiosa. Concordei, pois os exegetas dos textos canônicos a consideravam uma virtude, mas no relacionamento humano e na filosofia, era vista como uma virtude de convivência, uma conduta de equilíbrio, onde era impensável recorrer à violência e à radicalização.

No caminho de entender o significado das palavras — "no princípio era o verbo" —, seguimos agora com outra que entrou em nossa convivência e, sem ser convidada, passou a estar em todas as citações e depoimentos: resiliência, cuja origem vem do latim, resilire, saltar para trás, voltar ao estado original — re, para trás, e salire, saltar — ou seja, voltar ao passado e se recuperar.

Na política, direita e esquerda não se enquadram nessas duas palavras: temperança e resiliência. A busca pelo equilíbrio, que acalma divergências, não se encaixa nem no radicalismo, nem no ódio, na raiva, considerando o inimigo, e não o adversário, que seria sempre o exercício da democracia madura.

Agora, as palavras, mais do que todas as coisas, especialmente a palavra escrita, têm a ambição de guardar sentimentos, julgamentos, amor, amizade, paisagens, momentos e lágrimas, sinônimo de tristeza, para a eternidade. A palavra escrita é a memória do tempo, da personalidade, da vida de quem deseja ser eterno. A palavra é, nesse patamar, o tempo de pensar.

A conclusão que nos invade é que a democracia continua sendo, no Brasil, aquela definição de Otávio Mangabeira, "uma plantinha tenra, que precisa ser irrigada, diariamente". Quando comemoramos, em 2025, os 40 anos de democracia, aniversário da Transição Democrática, tivemos a oportunidade de dizer que o lema da UDN, o partido que marcou minha formação política, de "o preço da liberdade é a eterna vigilância", frase que Afonso Arinos dizia ser de Thomas Jefferson, significava o mesmo sentimento da "planta tenra" de Mangabeira, ou seja, necessita de um cuidado permanente, pois liberdade é sinônimo de democracia, e o fato de que, no mundo de hoje, os países governados por regimes autoritários são em números representativos e, se somarmos o PIB desses países, concluímos que esse número está em equilíbrio entre as democracias e as ditaduras.

Sempre tive uma grande admiração pelos Estados Unidos. Pela sua missão histórica de difundir no mundo os ideais democráticos, de defesa da liberdade e da implantação daquele regime que Abraham Lincoln definiu como "do povo, pelo povo, para o povo". Os Estados Unidos cumpriram seu destino de defensor da liberdade e lutador pela sua implantação e para isso lutou em duas guerras e nos livrou de Hitler. Calculemos se, em lugar dos Aliados, tivéssemos a Alemanha daquele tirano, na missão de implantar o nazismo ao mundo? O que seria da humanidade se tivéssemos, em vez do Estado de Direito, o direito à prática do morticínio nos campos de concentração?

Por isso criticamos o presidente Trump, que desenvolve uma política totalmente contrária aos ideais americanos, de Thomas Jefferson a Lincoln a Roosevelt a Washington e a Kennedy.

Temperança, liberdade, resiliência são palavras para meditação, e elas fazem falta nas decisões e contra as guerras.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *