Consumo diário de café pode levar à tolerância, mas é reversível

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Café fumegante sendo preparado com leite: a rotina diária que pode levar à tolerância à cafeína (Foto: Instagram)

O consumo diário e frequente de café provoca uma adaptação no cérebro que diminui gradualmente o efeito estimulante da bebida no organismo. A cafeína atua bloqueando os receptores de adenosina — uma substância que o corpo produz naturalmente e se acumula ao longo do dia, sinalizando a necessidade de descanso. Ao ocupar esses receptores, a cafeína impede a sensação de cansaço.

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Entretanto, com a exposição contínua, o sistema nervoso central reage aumentando a quantidade desses receptores para compensar o bloqueio constante, resultando na chamada tolerância. Isso faz com que a mesma quantidade de cafeína tenha um efeito reduzido na disposição, levando muitas pessoas a aumentar a dose para alcançar o mesmo nível de alerta.

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“Ao se adaptar, o cérebro faz com que a pessoa precise de quantidades maiores para perceber o mesmo nível de alerta. Além disso, quem consome café diariamente passa a ver a bebida menos como um estímulo extra e mais como uma forma de aliviar o cansaço ou a sonolência que surgem quando o efeito diminui”, explica a nutricionista Giovanna Barreiro, do Hospital Brasília.

Para recuperar a sensibilidade do cérebro sem enfrentar os efeitos colaterais da interrupção súbita, especialistas sugerem o protocolo de “pausa estratégica”. A interrupção abrupta da cafeína pode desencadear sintomas de abstinência, como dor de cabeça, fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração, que costumam durar de dois a sete dias.

“O protocolo consiste em reduzir a dose gradualmente ao longo de uma ou duas semanas para minimizar a abstinência. Em seguida, deve-se interromper o consumo por um período, geralmente de sete dias, e retomar com doses menores e mais espaçadas”, orienta o cardiologista Marcos Cairo, do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas, em São Paulo.

Do ponto de vista farmacológico, o desenvolvimento da tolerância está mais relacionado à quantidade total ingerida e à frequência de uso, e não ao tipo de bebida ou suplemento. O cérebro reage da mesma forma a 400mg de cafeína, seja de café expresso, energético ou termogênico.

Outro fator importante na resposta à substância é a genética. A enzima CYP1A2, produzida no fígado, é responsável por metabolizar cerca de 95% da cafeína no organismo. Pessoas com variações genéticas que favorecem a metabolização rápida eliminam a substância em duas a quatro horas.

A meia-vida da cafeína no corpo é de cinco a seis horas, o que significa que metade da dose ingerida ainda está presente na corrente sanguínea após esse período. “Se alguém toma um café às 16 horas, por volta das 22 horas metade dessa dose ainda está ativa no sangue. Quando a cafeína é metabolizada, a adenosina acumulada se liga novamente aos receptores, resultando em um sono superficial e fragmentado”, alerta Cairo. A recomendação é consumir a última dose de 6 a 8 horas antes de dormir.

Para adultos saudáveis, o consumo de até 400mg por dia — cerca de quatro xícaras de café coado — é considerado seguro pelas diretrizes de saúde, com no máximo 200mg em uma única dose. Gestantes devem limitar a ingestão a 200mg diários, pois a meia-vida da substância pode ultrapassar 15 horas no último trimestre de gravidez. “A cafeína pode melhorar um bom dia, mas não compensa uma noite mal dormida”, reforça o cardiologista.

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