Justiça, ônibus parados e filas: a cronologia do caos eleitoral em SP

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A ampliação do horário de votação até as 19h gerou confusão em seções eleitorais de São Paulo e críticas de apoiadores de Flávio Bolsonaro. (Foto: Instagram)

São Paulo — Maior colégio eleitoral do Brasil, a cidade de São Paulo foi um dos locais decisivos para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), definida após o segundo turno das eleições no domingo (25/10). A capital paulista, porém, também foi um dos epicentros — assim como Salvador, na Bahia — de uma das principais polêmicas do pleito: a ampliação inédita do horário de votação até 19h, duas horas além do previsto inicialmente, em todo o país.

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A determinação, assinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu duras críticas de apoiadores da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), entre eles os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP). A seguir, veja os principais acontecimentos na cronologia da confusão:

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REDUÇÃO NA FROTA DE ÔNIBUS

Por volta das 13h20 de domingo, foi registrado que somente 71,7% dos ônibus das linhas municipais de São Paulo estavam em circulação. Em números absolutos, 3.898 dos 13.790 veículos da frota permaneciam nas garagens.

Em algumas linhas, havia mais ônibus nas garagens do que nas ruas. Era o caso da Vila Carrão – Praça da Sé, atendida por 17 veículos, dos quais apenas um circulava no começo da tarde.

No Rio de Janeiro, para comparação, o índice era de 100% no mesmo horário — os ônibus em manutenção não são contabilizados.

Os dados foram obtidos no Businfo, aplicativo que acompanha em tempo real o deslocamento dos veículos por geomonitoramento, e divulgados pelo colunista Demétrio Vecchioli.

A situação contrariava diretamente a determinação da Justiça Eleitoral, emitida na sexta-feira (23/10), para que a Prefeitura de São Paulo e a SPTrans mantivessem 100% da frota municipal em operação no domingo, em níveis equivalentes aos de dias úteis. A prefeitura, que negou as denúncias, afirmou ter comunicado as concessionárias no sábado (24/10) e que repetiria no segundo turno o esquema da primeira etapa, com frota equivalente à de um sábado.

Membro do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte e diretor executivo do Instituto Pólis, Rodrigo Faria G. Iacovini afirmou que dificilmente a taxa chegaria a 100%, por causa dos veículos em manutenção. Segundo ele, porém, o índice deveria superar 85% e, idealmente, ficar acima de 90% — quase 20% a mais que o registrado às 13h20.

CAMPANHA DE LULA COMEÇOU PEDINDO AMPLIAÇÃO DO HORÁRIO NA BAHIA

Às 13h22, a campanha de Lula apresentou uma ação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo que a votação fosse estendida por duas horas em três municípios baianos: Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. Assim como em São Paulo, a justificativa foi a redução das frotas de ônibus.

Às 15h42, um novo pedido foi protocolado no TSE. A solicitação era para ampliar o horário não só nas três cidades, mas também em todo o estado da Bahia e em São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará e Rio de Janeiro — nove dos 27 estados. A ação também pedia a mesma extensão “a toda e qualquer unidade da Federação de que se tenha notícia das mesmas intercorrências”. Em todos os casos, os pedidos citavam obstáculos ao transporte de eleitores para suas respectivas zonas eleitorais.

Embora dois pedidos tenham sido protocolados, o TSE, presidido pelo ministro Kássio Nunes Marques, não se manifestou sobre as ações. Diante da demora na resposta, a federação que sustentava a candidatura de Lula decidiu apresentar um terceiro pedido, desta vez ao STF.

Às 15h46, a nova ação foi protocolada, com o pedido de que o horário fosse ampliado até 19h em todo o país. Naquele momento, faltava uma hora e 14 minutos para o encerramento oficial da votação.

CAMPANHA DE FLÁVIO TAMBÉM PEDIU AMPLIAÇÃO

Às 15h27, Flávio apresentou uma ação ao TSE pedindo a extensão do horário de votação, também até 19h, em 17 municípios de São Paulo — incluindo a capital, que também constava nos pedidos da campanha petista —, Paraná e Santa Catarina.

O pedido foi justificado pela ocorrência de chuvas, alagamentos e interdições que dificultaram o deslocamento dos eleitores até as urnas. A ação também foi encaminhada ao presidente da Corte Eleitoral, ministro Kássio Nunes Marques.

“Com alertas abertos durante o horário de votação e locais de votação com acesso alterado, o eleitor não pode ser posto diante da escolha entre a própria segurança e o exercício do voto”, afirmou a campanha na ação.

Alguns minutos depois, Flávio protocolou uma segunda ação no TSE, ampliando o pedido para municípios de Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

DECISÃO DO STF

Às 17h02, dois minutos depois do fim oficial da votação, o ministro Cristiano Zanin, do STF, acolheu o pedido da federação do PT e determinou a extensão do horário de votação em todo o Brasil. No texto, o magistrado observou que a ação da campanha petista só chegou ao Supremo às 16h32, quase uma hora após ter sido elaborada.

“Considerando a gravidade dos fatos narrados, que chegaram ao conhecimento do STF, e diante da urgência evidente da medida, determino prorrogação por duas horas, até as 19h, horário de Brasília, do encerramento do recebimento dos votos em todas as seções de todo o Brasil”, escreveu Zanin.

A apuração, inclusive, já havia começado quando a decisão foi divulgada. Durante as duas horas seguintes, a contagem dos votos ficou parada em 0,25% das urnas.

MESÁRIOS FICARAM DESORIENTADOS

Quando a decisão foi anunciada, várias seções eleitorais já tinham encerrado os trabalhos, o que provocou confusão entre mesários. Como as urnas são lacradas, não é possível reabri-las. Mesários relataram que ainda esperavam orientação do cartório eleitoral sobre a reabertura da votação mais de uma hora depois da determinação do STF.

“Aqui, mandaram fechar as urnas. Cerca de 5 minutos anunciaram que tinham prorrogado, mas o TRE não tinha informado especificamente nada sobre aquela zona. Como já estávamos finalizando, terminamos e fomos embora”, disse uma mesária que preferiu não se identificar. Ela trabalhou neste 2º turno no Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Além desse local, foram recebidos relatos de portas fechadas na Universidade Presbiteriana Mackenzie, um dos principais pontos de votação no centro da capital. No Sesi Vila Leopoldina, uma mesária também relatou: “Encerramos, mas [estamos] aguardando alguma notícia”.

NOVA DECISÃO DO STF GEROU INSEGURANÇA JURÍDICA

A situação ambígua levou Zanin a publicar, alguns minutos depois, outra decisão, esclarecendo que a prorrogação só se aplicaria aos locais que ainda não tivessem fechado.

“Sem prejuízo das apurações necessárias oportunamente e suas consequências jurídicas, determino que a decisão seja cumprida nos locais onde as urnas não foram fechadas, com a posterior totalização dos votos nas condições enunciadas, sendo que, nas urnas que já foram fechadas os votos serão computados e totalizados”, disse o ministro na decisão.

Encerrado o novo prazo, às 19h, a apuração seguiu normalmente. Ao fim da contagem, a reeleição de Lula foi confirmada com 64.256.232 votos válidos (51,79%), contra 59.826.041 de Flávio (48,21%).

FLÁVIO ANUNCIA QUE PEDIRÁ ANULAÇÃO DO PLEITO

A confusão em torno das urnas que não foram reabertas provocou desconforto na campanha de Flávio. Após a confirmação do resultado, o senador declarou em seu discurso que não reconhecerá a vitória do petista e que pedirá a anulação do pleito. Ele também questionou quantos votos poderia ter recebido nos locais onde as urnas ficaram fechadas.

“Eu nunca vou saber se um estado onde as urnas não foram reabertas, quantos votos eu poderia ter. É inexplicável o que aconteceu. Inclusive, nas palavras de algum ministro aí que a própria imprensa cumpriu, as eleições deveriam ter sido anuladas”, disse Flávio.

Tags: Cristiano Zanin, Eleições 2026, Flávio Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, Lula, Presidência da República, São Paulo, STF, TSE

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