Flávio usa fake news para pautar a imprensa e desviar o foco de investigação

Publicado por

–


Flávio Bolsonaro publicou uma carta em que se autointitula “presidente eleito” e anuncia que seguirá falando com apoiadores do exterior. (Foto: Instagram)

A carta publicada por Flávio Bolsonaro nesta quarta-feira (28/10) não apresenta fatos novos e contém muitas mentiras. A derrota para Lula já havia sido proclamada no domingo. A viagem aos Estados Unidos já era conhecida, assim como a ordem de Alexandre de Moraes para que entregasse o passaporte. Ainda assim, em poucas horas, os principais sites do país publicaram a mesma frase na manchete: “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. A expressão foi usada pelo próprio senador.

++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos

É assim que o texto opera: puro marketing da mentira, começando pelo brasão com “Brazil” escrito com z. Cada parágrafo foi elaborado para virar notícia, mesmo sem haver algo novo a noticiar.

++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro

O TÍTULO COMO ISCA

O título de “presidente eleito” é concedido pelo TSE, que proclamou Lula com 51,79% dos votos válidos. Ao atribuir esse posto a si mesmo, Flávio cria uma frase que a imprensa precisa reproduzir, ainda que seja para contestá-la. A manchete repete o título; a correção aparece depois, no corpo do texto, lido por muito menos gente.

A ACUSAÇÃO APOIADA NA PRÓPRIA PALAVRA

Sobre Moraes, a carta diz que o ministro estaria envolvido em um “imenso escândalo de corrupção” e que “muito provavelmente estaria preso” se Flávio tivesse tomado posse. Mas tudo fica no campo da afirmação. Uma acusação desse porte provoca reações do tribunal, de aliados e de adversários, e cada resposta gera uma nova notícia. É esse o objetivo: tentar controlar a narrativa. Alexandre de Moraes está, sim, sob suspeita no caso Vorcaro e precisa responder por seus atos, mas sua atuação no processo que levou à prisão de Jair Bolsonaro e dos criminosos do 8 de janeiro, por tentativa de golpe, foi exemplar. O mesmo vale para a decisão de pedir o passaporte de Flávio.

HERÓIS EMPRESTADOS

Ruy Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado. A lista assegura uma segunda rodada de cobertura, dedicada às comparações. De Gaulle foi condenado à morte por um regime colaboracionista dos nazistas. Martí morreu combatendo o colonialismo espanhol. Flávio recebeu uma ordem para entregar o passaporte. A diferença entre essas histórias rende análises, checagens e memes, todos mantendo o nome do senador em circulação.

PADRINHOS ESTRANGEIROS

Logo após a autoproclamação, o primeiro parágrafo agradece a Javier Milei e a Donald Trump. A menção leva o caso para o exterior e estimula a imprensa internacional a perguntar a Washington e Buenos Aires se reconhecem o senador. Na carta, porém, ele agradece somente pela acolhida.

SÍMBOLOS DE ESTADO

No alto da página aparece o brasão da República, numa versão anterior a 1931, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. O símbolo confere ao texto um aspecto de documento oficial. A grafia antiga também virou pauta.

A PROMESSA DO PRÓXIMO CAPÍTULO

A carta termina com o anúncio de uma continuação. Flávio afirma que vai se dirigir “regularmente” ao povo brasileiro e apresentar “uma estratégia” para mobilizar a oposição. É um formato de série, no qual cada episódio reserva espaço para o próximo.

O PALCO JÁ ESTAVA MONTADO

Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, vive nos Estados Unidos desde 2025 e faz oposição a partir de lá. Dois dias antes do segundo turno, sugeriu, em entrevista a um programa americano, que Flávio deixasse o Brasil se perdesse. Flávio apontou essa fala como fundamento para a ordem de Moraes. Três dias depois da eleição, o roteiro anunciado pelo irmão se concretizou.

O QUE SAI DA PAUTA

Enquanto a falsa declaração de Flávio sobre a presidência é discutida, sobra menos espaço para os motivos que o levaram a ser investigado. O ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, conduz o inquérito sobre os US$ 24 milhões negociados por Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme “Dark Horse”. A PF apura se emendas ou projetos do senador beneficiaram o banco. Em outra investigação, ele é suspeito de lavagem de dinheiro com apostas esportivas, ao lado do advogado Willer Tomaz. Foi nesse inquérito que Moraes determinou o recolhimento de seu passaporte. A carta classifica todas essas apurações como “caça às bruxas” e segue em frente.

O QUE DIZ FLÁVIO

Na carta, o senador afirma que deixou o Brasil para liderar a oposição com liberdade e que, dos Estados Unidos, dirá o que seus aliados no país têm medo de dizer. Ele promete agir “por todos os meios pacíficos e legítimos”. Flávio contesta as suspeitas contra si, enquanto os inquéritos continuam em andamento, antes de qualquer denúncia da PGR.

Uma nova carta já foi anunciada. O desafio da cobertura é noticiar o que ela efetivamente traz, e não duas incontáveis mentiras.

Tags: Flávio Bolsonaro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *