“Esses malditos”: antipetista ameaça indígenas no interior de São Paulo; ouça áudios

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APIB denuncia suspeito por falas discriminatórias e ameaças contra indígenas em Avaí (SP) (Foto: Instagram)

São Paulo – A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) denunciou um bolsonarista por manifestações discriminatórias, ameaças e possível uso indevido de estruturas públicas contra indígenas em Avaí, no interior de São Paulo, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (25/10).

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Conforme o documento, a APIB teria encaminhado uma “representação criminal e notícia de fatos, com pedido de apuração e adoção de providências urgentes” a quatro órgãos: Ministério Público Federal (MPF em Bauru), Ministério Público Eleitoral (MPE), Polícia Federal (PF) e Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP).

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Foi feito contato com os órgãos citados para confirmar o recebimento da denúncia, mas não houve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

O homem apontado como responsável pelas ameaças enviou seis áudios a um grupo privado, no qual estaria um amigo chamado Luciano, que, segundo as gravações, teria cargo na prefeitura municipal da Avaí. Nas mensagens, ele pede que “Lu” tome providências contra indígenas da região, que teriam votado no candidato do PT. Ouça os áudios:

“Luciano, você tá lá dentro, Luciano. Você tá lá dentro da prefeitura. Analisa, pega, vamos, vamos ver o que que nosso município tá fazendo pra dar cesta básica pra esses índios filhos das putas, pra esse povo pobre. E a gente tem quase 1.505 votos pra eles aqui, ô Luciano. Mil quinhentos e cinco votos do PT aqui em Avaí. Ganhamos aqui por pouco”, teria dito o homem no áudio, segundo o documento.

Em outra gravação, o suspeito afirma que ele e Luciano, que supostamente trabalharia na prefeitura, poderiam contar com o apoio de policiais da cidade. Segundo ele, os agentes seriam “são quase tudo anti-Lula”:

“Aqui nós temos uma coisa muito importante: a nossa polícia aqui, que é pequena, mas é a maioria, sabe, quase tudo… tudo anti-Lula. Então, a gente tem que começar por aí. Qualquer coisinha que a gente tiver contra esses bandidos, vagabundos, esses tontos que tem por aí, nós temos que usar disso. Esse pessoal da administração que foi isso aí, a hora que eles vacilar, nós vamos meter o fumo nesses caras aí. Pode ter certeza disso. Não vamos dar moleza, não. Nós sabemos quem foi PT aqui. Então, não vamos perdoar não, velho. Fez coisa errada, nós vamos pra cima. Nós vamos pra cima”, afirmou.

Para a APIB, as declarações justificam a investigação de “eventual tentativa de instrumentalização de agentes de segurança pública ou de mecanismos de fiscalização para finalidades discriminatórias ou de perseguição política. Ressalta-se, contudo, que a simples referência à polícia não comprova participação efetiva de agentes policiais”.

Em outro áudio, o suspeito volta a falar com “Lu” e ofende os indígenas, a quem chama de “os petistas aqui de Avaí”:

“Ô, Lu, beleza, Lu? Nós não vamos dar moleza não, tá? Esses malditos, esses índios aí, muitas coisas aí, dos petistas aqui de Avaí, não vamos dar moleza não, tá? Eu vou conversar com você, falar de uma lei que existe, alguma coisa que existe aí pra gente… Pelo menos, você que tá começando aí no serviço público aí. Vamos pegar firme aí, tá bom? Vamos seguir a lei aí pra não ferrar muita gente aí, tá bom?”, relatou em outra gravação.

A denúncia pede “especial atenção” a trechos dos áudios “por reunir, em uma mesma mensagem, referência depreciativa a pessoas indígenas, menção a apoiadores do PT e sugestão de utilização de instrumentos legais para prejudicar terceiros”.

Em nota, os Ministérios dos Povos Indígenas (MPI), dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da Igualdade Racial (MIR) disseram atuar em conjunto para “qualificar e pedir a investigação das denúncias de violência relacionadas aos povos indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro, após o segundo turno das eleições”.

“Os órgãos estão em diálogo permanente, por meio de uma força-tarefa, para que os casos sejam investigados de forma célere e os responsáveis identificados e responsabilizados por possíveis crimes. É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência para reprimir e intimidar opiniões diferentes, colocando em risco a vida das pessoas. Vivemos em um país democrático em que as diferentes visões de mundo devem ser respeitadas e coexistir de forma pacífica e livre”, complementava a nota.

ERIKA HILTON REFORÇA DENÚNCIAS

A deputada federal Erika Hilton (PSol-SP) também publicou nas redes sociais que, em articulação com a APIB, está denunciando “casos de violência contra povos indígenas registrados nos últimos dias, após o final da eleição”.

A parlamentar mencionou a denúncia feita por indígenas de Avaí e repudiou o que chamou de “ofensas racistas e ameaças de terem a alimentação cortada pela prefeitura e de sofrerem retaliação da polícia por um servidor público da cidade”.

PEDIDO DE DESCULPAS

Em outros áudios, o suspeito fala com “João” e tenta se explicar a lideranças e moradores da aldeia. Ele alega que estava “bêbado” e “de cara cheia” quando enviou as mensagens em um grupo privado e nega ter a intenção de generalizar o preconceito contra todos os indígenas.

“Ô, João, bom dia. Eu tava falando aqui com a Dani. Isso aí eu não fiz na rede, eu não pus isso na rede. Eu não sei, eu tava conversando particular com um grupo que eu tenho aqui. E eu, de noite aqui, bêbado, exaltado aqui, eu acabei falando isso aí, mas não é generalizando. E eu não sei como isso foi vazar. Jamais ia colocar isso na rede. Sinceramente, sinceramente, não foi a intenção de ofender. E o que eu falo aí, alguma coisa, não é de geral vocês. E eu peço desculpa pra você, sua família aí, em relação a isso aí, porque não falei pra generalizar pra vocês, pra tudo, sabe?”, disse o suspeito.

Em outra gravação, o suspeito se dirige a “Dário” e afirma que um amigo “fez uma palhaçada” com ele ao compartilhar os áudios com pessoas de fora do grupo:

“Ô, Dário, bom dia. Que palhaçada que um amigo fez aqui, rapaz. Eu comentei umas coisas no grupo aqui, num grupo que eu tenho aqui, falei de noite aí, depois que perdeu, aí falei umas coisas. E o pessoal generalizou e achou que eu tô falando de todos os indígenas, né? Não, não é isso, rapaz. Puta que pariu, o filho da puta do cara fudeu minha vida aqui de passar pra rede uma coisa dessa aí, sabe? Vamos ver o que que você pode fazer pra, pra me ajudar aí, de não deixar isso aí acabar com a amizade que eu tenho com você dentro da aldeia”, afirmou.

Tags: bolsonaristas, indígenas, índios, São Paulo

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