Áudios e mensagens expõem golpe contra mulheres que pagaram por cirurgia de mama

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Pelo menos 30 mulheres relatam prejuízos após promessa de cirurgias gratuitas de mama no DF. (Foto: Instagram)

Áudios e conversas de WhatsApp mostram como mulheres foram atraídas por um falso projeto social que prometia cirurgias gratuitas de redução de mama e colocação de próteses no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), no Distrito Federal.

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Nas mensagens, a responsável pela iniciativa, identificada como Tayná Regina Oliveira Castro, 42 anos, orientava as pacientes a pagar até R$ 3 mil pelos supostos insumos cirúrgicos e prometia consultas e procedimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

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Ao menos 30 mulheres teriam sido prejudicadas pela iniciativa, que não tinha autorização nem participação do hospital ou dos médicos citados pela suspeita.

Depois de transferirem valores para contas bancárias de Tayná ou de terceiros supostamente ligados a ela, as vítimas recebiam pedidos de exames médicos assinados por uma médica generalista.

Mensagens encaminhadas às pacientes mostram como o suposto projeto era apresentado. Em um dos textos, a responsável afirmava que o programa de cirurgias era realizado no Hran, em parceria com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) e uma equipe de cirurgiões plásticos.

A paciente era recebida como participante do chamado “Projeto Outubro Rosa”. A mensagem dizia que a iniciativa havia sido criada para oferecer às mulheres a possibilidade de fazer cirurgias de mama, promovendo autoestima, bem-estar e qualidade de vida. A apresentação destacava a suposta ligação do projeto com a rede pública de saúde.

Em outra mensagem, a responsável explicava o suposto fluxo de atendimento no Hran. As pacientes deveriam comparecer ao hospital por ordem de chegada e dar entrada pelo ambulatório, dizendo que seriam atendidas na mastologia.

No local, deveriam procurar uma pessoa chamada Nadielle, que, segundo a mensagem, repassaria orientações e os termos necessários. Em seguida, as mulheres seriam avaliadas por uma mastologista e um cirurgião plástico. Ao final, a responsável prometia cadastrá-las no sistema e entregar o protocolo de agendamento da cirurgia.

Em áudios enviados ao grupo de pacientes do projeto e obtidos pela reportagem, a suspeita explicava como as mulheres deveriam agir no dia das consultas.

“Uma pessoa responsável da secretaria [de Saúde] entrará em contato com cada uma de vocês para informar a data, o horário e o local da consulta. No dia, será preciso levar o cartão do SUS. Um agente da secretaria estará lá e, ao fim da consulta, colocará a cirurgia de vocês no mapa cirúrgico e entregará um protocolo. Assim, vocês já sairão da consulta com a cirurgia agendada”, afirmou Tayná no áudio.

Na mesma gravação, a suspeita diz que, para conseguir incluir as mulheres no mutirão de cirurgias, alegou que elas faziam parte de uma ONG.

“Mas somos pacientes de ONG, mulheres fragilizadas, que passaram por situações de violência psicológica. Pelo amor de Deus, gente, o projeto é voltado para pacientes com câncer e para a autoestima. Conseguimos essa brecha para entrar como ONG e, assim, não teremos nenhum problema com as internações, certo?”, orienta.

As suspeitas surgiram quando as mulheres foram às consultas supostamente marcadas com os cirurgiões e descobriram que não havia registro de atendimento em seus nomes. Em outros casos, consultas previstas no Hran ou em clínicas particulares ligadas aos médicos eram canceladas, poucas horas antes do horário, por pessoas associadas ao suposto projeto social.

Agora, as mulheres tentam reaver os valores pagos por procedimentos que nunca ocorreram. A denúncia também foi registrada na Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que apura o caso como suspeita de estelionato.

MUDANÇAS NO PROJETO E CIRURGIAS DESMARCADAS

Uma nova vítima ouvida afirma que a proposta apresentada por Tayná não era um mutirão de cirurgias a preços reduzidos. Segundo ela, a promessa era de que os procedimentos seriam pagos pelo SUS, mesmo quando feitos em hospitais particulares. O local das operações, no entanto, foi alterado várias vezes ao longo dos meses.

A mulher, que pediu para não ser identificada, contou que, no início, foi informada sobre vagas remanescentes de uma campanha de Outubro Rosa e sobre a possibilidade de fazer a cirurgia de mama. Para quem queria colocar próteses, foi cobrado o valor de R$ 3 mil, sob a alegação de que o modelo oferecido pelo SUS não teria boa qualidade.

A paciente afirma que precisou parcelar o pagamento no cartão de crédito, com a ajuda de um conhecido, para não perder a vaga. Segundo ela, Tayná prometeu emitir uma nota fiscal, mas o documento nunca foi entregue.

A mulher diz que participou de um encontro com outras interessadas em um restaurante em Vicente Pires (DF). Ao todo, 12 mulheres compareceram. Segundo ela, a reunião contribuiu para transmitir confiança na iniciativa. Tayná teria contado sua história pessoal e se emocionado ao falar do projeto.

“Ela parecia uma pessoa muito carinhosa. Dizia o quanto estava empolgada e emocionada. Você olhava e pensava: ‘Realmente, isso é sério’”, relatou.

Com o passar do tempo, porém, começaram os atrasos na entrega dos pedidos médicos e as alterações nas datas e nos locais das cirurgias. A paciente conta que precisou cobrar várias vezes os documentos necessários para os exames e que Tayná chegou a chamá-la para ajudar a organizar as datas dos procedimentos das outras mulheres.

A previsão inicial era de que as cirurgias fossem feitas no Hran. Depois, o projeto teria sido transferido para hospitais particulares. Apesar de ter passado pela consulta, a mulher não foi operada.

Ela relata que o procedimento foi cancelado diversas vezes, inclusive quando já estava em jejum e pronta para a cirurgia. Em uma ocasião, disseram que o SUS não havia repassado o dinheiro ao hospital. Em outra, recebeu a informação de que o pagamento ao médico estava resolvido, mas ainda faltava o repasse à unidade hospitalar.

“Eu estava muito ansiosa. Cancelaram umas quatro vezes, mesmo eu fazendo jejum e tudo. Quando chegou a hora, eu já estava saindo para a cirurgia e soube que ela não aconteceria”, contou.

Após vários cancelamentos, a mulher resolveu desistir da cirurgia e começou a pedir a devolução dos valores. Ela afirma que Tayná prometeu reembolsar os pagamentos e cobrir também os prejuízos com a preparação para o procedimento.

Além das perdas financeiras, a vítima diz que o episódio prejudicou sua saúde emocional. Ela relata crises de ansiedade, mudanças na alimentação e a necessidade de buscar atendimento especializado.

“Não é só a questão financeira. A gente trabalha e consegue recuperar o dinheiro. Mas o psicológico, o que ela fez comigo, não dá para devolver. Eu não tenho mais a leveza que tinha antes”, desabafou.

O QUE DIZ A SECRETARIA DE SAÚDE

Em nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que encaminhou a denúncia à Ouvidoria-Geral do GDF e afirmou estar à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.

Segundo a pasta, todos os procedimentos e insumos oferecidos na rede pública de saúde são gratuitos, regulados pelo SUS e não têm qualquer cobrança.

Casos suspeitos de golpe ou cobrança irregular devem ser comunicados à polícia e à Ouvidoria do DF, pelo telefone 162 ou pelo portal Participa DF (https://www.participa.df.gov.br/).

O OUTRO LADO

Procurada, Tayná se manifestou por meio de nota. Leia abaixo, na íntegra:

“Também fui induzida a erro pelas informações que me passaram sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos. Na época, foram relatados procedimentos feitos em hospitais particulares. Acreditei na proposta, paguei do meu próprio bolso e cheguei a conversar com amigas sobre a possibilidade de realizar a cirurgia. Depois dos questionamentos que surgiram, comecei a buscar esclarecimentos e medidas para receber de volta os valores pagos. Os fatos serão esclarecidos pelas vias adequadas, com a apresentação dos documentos pertinentes”.

Tags: cirurgia plástica, golpe, Hran

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