Feito Pipa aposta no “Brasil profundo” para conquistar uma vaga no Oscar

Publicado por

–


“Feito Pipa” leva o sertão cearense à disputa por uma indicação ao Oscar (Foto: Instagram)

Depois de dois anos de campanhas bem-sucedidas na corrida pelo Oscar — com Ainda Estou Aqui conquistando uma estatueta e O Agente Secreto somando quatro indicações —, o Brasil tem agora Feito Pipa, do cearense Allan Deberton, na disputa por uma indicação. Para isso, o filme aposta em um trunfo: apresentar ao mundo as riquezas do interior brasileiro, longe dos grandes centros urbanos.

++ Sistema de IA mostra como pessoas estão criando conteúdo diário sem gravar vídeos

Estrelado por Yuri Gomes, de 12 anos, o longa acompanha Gugu, um menino que sonha em ser jogador de futebol e enfrenta preconceito por ser afeminado. Ao mesmo tempo, a avó Dilma (Teca Pereira) lida com o avanço do Alzheimer, que ameaça afastá-la do neto, criado por ela durante toda a vida. O filme chegou aos cinemas nesta quinta-feira (5/11).

++ Bomba! Astro de Hollywood, Joe Manganirllo revela ter amputado membro

Em meio aos conflitos familiares, a paisagem de Quixadá, no sertão central do Ceará, ganha destaque. Enquanto Ainda Estou Aqui se passa no Rio de Janeiro e em São Paulo, O Agente Secreto tem como cenário principal o Recife da década de 1970. Feito Pipa, por outro lado, leva a história a uma cidade distante dos cartões-postais mais conhecidos do país. É uma oportunidade de mostrar ao mundo — e aos próprios brasileiros — uma realidade próxima de milhões de pessoas que vivem longe dos grandes centros.

Dos 5.569 municípios brasileiros, apenas 48 têm mais de 500 mil habitantes. Filmado em uma cidade com cerca de 81 mil moradores, o longa mergulha no chamado Brasil profundo, expressão que se popularizou nas redes sociais para definir culturas e modos de vida que ficam fora do olhar das capitais, dos discursos oficiais e das imagens idealizadas pela mídia tradicional.

O escritor Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário com Torto Arado, obra ambientada no sertão baiano, explicou a expressão: “O Brasil não é aquilo que passa na TV ou os lugares que são exaltados. São as vidas e as pessoas que ainda estão invisíveis. Todas elas têm uma potência de vida criativa, que podem explicar esse país”.

Mesmo com casas humildes cercadas por madeira, cômodos pequenos, estradas de terra e roupas simples, Deberton retrata o sertão sem fazer da simplicidade um sinônimo de problema social. Em vez de relacioná-la à miséria ou à falta de perspectivas, o filme apresenta a dignidade e a riqueza de uma realidade que muitas produções ainda mostram apenas pelo ângulo da carência.

Na casa de Dilma, com jardim na frente e paredes decoradas com símbolos católicos, Gugu cresce em contato com a natureza e tem atendidas suas necessidades físicas e afetivas de criança. O forró que a avó frequenta também compõe uma representação carinhosa da vida social no interior. Sinuca, cerveja, vestidos coloridos e uma caixa de som fazem parte de um cotidiano que não significa atraso ou subdesenvolvimento.

O desejo de Gugu de ser jogador de futebol se concretiza em uma seletiva disputada em um campo improvisado. A cada passo das crianças, a poeira sobe pelas canelas e toma o cenário. Embora isso pudesse ser interpretado como sinal de precariedade, o espaço assume outro sentido: torna-se um lugar de acolhimento, mesmo em meio à tensão familiar vivida pelo protagonista.

Até mesmo a relação difícil com o pai, Batista (Lázaro Ramos), incorpora elementos do interior à trama. Os dois constroem um vínculo afetivo durante aulas de pilotagem de moto, muitas vezes sem capacete e com o menino conduzindo o veículo pelas vias urbanas. A escolha também se relaciona à realidade nordestina: segundo o IBGE, há mais motocicletas do que carros na região, com 34,5% da frota formada por veículos de duas rodas e 30% por veículos de quatro rodas.

Na vida real, Quixadá tem cenários que vão além da ficção. O município abriga grandes monólitos — formações geológicas feitas de uma única rocha maciça —, a fazenda Não Me Deixes, que pertenceu à escritora Rachel de Queiroz, e um campus de tecnologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Com Feito Pipa, cearenses e brasileiros de outros estados que vivem no interior podem reconhecer na tela aspectos da própria vida, sem que ela seja retratada como atraso, pobreza ou miséria. Mais do que disputar uma vaga no Oscar, o filme pode ampliar o imaginário sobre o Brasil. Deberton mostra que a riqueza cultural e social do país não está restrita aos grandes centros e que levar essa realidade ao público internacional não exige se curvar ao viralatismo.

Tags: cinema brasileiro, oscar

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *