
Silhuetas de membros do PCC em noite de tensão durante o Salve Geral de maio de 2006 em São Paulo. (Foto: Instagram)
No dia 15 de maio de 2006, São Paulo ficou deserta ao anoitecer. Em pleno horário de pico, a cidade estava sem carros, ônibus ou pedestres. Era como se um toque de recolher não oficial estivesse em vigor. Três dias antes, o Primeiro Comando da Capital (PCC) havia iniciado uma onda de violência sem precedentes, resultando em mortes, ônibus incendiados e prédios públicos atacados.
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Após uma semana, mais de 300 ataques a símbolos do Estado, como delegacias, postos de polícia, presídios e prédios públicos, ocorreram, com 59 membros das forças de segurança mortos.
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As baixas entre civis chegaram a 505, com muitos casos não investigados adequadamente. Enquanto a população foi pega de surpresa, a polícia já esperava algo. Um dia antes dos ataques, 765 membros do PCC foram transferidos para a Penitenciária de Presidente Venceslau, incluindo a cúpula da facção, o que desencadeou o Salve Geral.
Antes disso, já havia indícios. O policial penal e sindicalista Fábio Cesar Ferreira havia alertado sobre a presença do PCC. No Natal de 2005, ele viu uma mensagem do crime: "Feliz Natal e próspero Ano Novo, são os sinceros votos do PCC e do Comando Vermelho".
Em 12 de maio, a Penitenciária de Lavínia, onde Ferreira trabalhava, passou por uma rebelião. Um policial penal, Lenilton, foi rendido pelos presos, que usaram uma trave de ferro denunciada pelos agentes.
Detentos em todo o estado começaram a adotar o mesmo método, ganhando controle das prisões. A imprensa e a polícia não entenderam o fenômeno no início e não conseguiram cobrir todas as frentes do episódio.
Na época, o atual secretário da Segurança Pública, delegado Osvaldo Nico Gonçalves, liderava o Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra). "Quando chegou o final da tarde, o doutor [Godofredo] Bittencourt, diretor do Deic, me ligou: 'Pode ter atentado contra os policiais'. Eu convoquei todos os policiais para a base. Eram quase 250, e disse que ninguém sairia mais de lá. Sairíamos em comboio", relembra.
Logo, uma ligação pediu apoio para um bombeiro baleado. Os criminosos, conhecidos como "Bin Ladens", eram convocados pelo PCC para matar, muitas vezes para quitar dívidas com a facção.
"Ver um policial baleado ou morto é como perder alguém da família. A dor é maior porque é alguém que sai de casa para proteger o cidadão e não volta", afirmou Nico.
A morte do bombeiro João Alberto da Costa, de 40 anos, chocou o Brasil. Débora Maria da Silva e seu filho, Edson Rogério da Silva, ficaram emocionados ao ver a reportagem na TV. Ela temia pela segurança do filho.
No dia 15 de maio, quem estava nas ruas era considerado inimigo da polícia. Apesar dos apelos da mãe, Edson saiu para abastecer sua moto e foi abordado por duas viaturas da Polícia Militar. As circunstâncias de sua morte foram reveladas por um amigo no velório.
O amigo contou: "Acabou a gasolina da moto dele, ele a empurrou até o posto. Chamou-me do orelhão. Quando cheguei, ele estava sendo revistado por policiais. Depois, fui ao encontro dele, que estava assustado, dizendo: 'você ouviu? Eles disseram: neguinho morreu, você é ladrão'".
"A mil metros do posto, ele foi executado com cinco tiros, ainda de capacete. Sabiam quem estavam matando", lembra Débora.
Os ataques cessaram em 19 de maio. Em 2015, "O Estado de S. Paulo" revelou que o governo paulista fez um acordo com o PCC para encerrar os ataques. O delegado Luiz Ramos Cavalcanti afirmou isso em um processo que investigava advogados ligados ao crime organizado.
O delegado Nico, que estava nas ruas, desconhece qualquer acordo. As autoridades paulistas continuam negando.
A morte de Edson ocorreu durante a reação, com relatos de policiais ou mascarados matando jovens na periferia. Pessoas como Edson, cujo caso levou à fundação do movimento Mães de Maio por Débora, que busca justiça para as vítimas da violência policial.
As investigações sobre o período não foram justas e continuam abertas. Um estudo da Harvard International Human Rights Clinic, com a Justiça Global, mostrou a desigualdade: mais de 85% dos casos de ataques a agentes públicos foram esclarecidos pelo DHPP, mas menos de 13% dos crimes contra civis foram investigados.
A ONG Mães de Maio aguarda a decisão do STJ sobre se os "Crimes de Maio" de 2006, que resultaram em 564 mortes em São Paulo, configuram graves violações de direitos humanos, o que tornaria as ações do Estado imprescritíveis.


