
Netflix enfrenta queda de audiência entre temporadas (Foto: Instagram)
O excesso de lançamentos, a demora entre novas temporadas e a incerteza sobre a renovação de séries populares estão entre as principais reclamações dos assinantes dos serviços de streaming. Essas insatisfações ajudam a explicar um fenômeno cada vez mais comum: espectadores abandonam as produções entre uma temporada e outra, ampliando o debate sobre as transformações no consumo de entretenimento.
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Uma análise publicada pela Bloomberg, baseada em dados da própria Netflix, revela que até mesmo alguns dos maiores sucessos da plataforma enfrentam dificuldades para manter o público nas temporadas seguintes. One Piece, Treta, O Agente Noturno e Avatar: O Último Mestre do Ar, por exemplo, registraram quedas significativas de audiência após a estreia.
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SÉRIES QUE PERDERAM PÚBLICO APÓS A PRIMEIRA TEMPORADA
- One Piece: perdeu mais de 30% da audiência na segunda temporada.
- Treta: teve uma queda superior a 70%.
- O Agente Noturno: perdeu 50% do público na segunda temporada e mais 35% na terceira.
- Avatar: O Último Mestre do Ar: caiu mais de 60% logo após a primeira semana.
O QUE PODE EXPLICAR O FENÔMENO?
De acordo com a Bloomberg, a Netflix tem analisado internamente os motivos por trás da intensificação desse fenômeno em várias séries populares. Essa preocupação surge em um momento de desaceleração da plataforma: em 2026, o tempo total de exibição cresceu menos de 2%, enquanto o catálogo teve poucos novos sucessos capazes de sustentar a audiência.
Especialistas consultados pelo Metrópoles afirmam que a perda de público entre temporadas não é um fenômeno novo. Segundo eles, emissoras de TV já enfrentavam esse desafio com produções de longa duração, como Grey’s Anatomy, buscando estratégias para manter o interesse dos espectadores ao longo dos anos.
No caso da Netflix, alguns fatores podem explicar a dificuldade em manter o interesse do público pelas novas temporadas. Segundo Daniel Rios, doutor em Comunicação e pesquisador associado da Universidade Federal Fluminense (UFF), o modelo de lançamento adotado pela plataforma prejudica a retenção da história e a memória do espectador.
“Essa lógica de lançar tudo de uma vez muda um pouco nossa relação com essa mídia. Inclusive, quando surge uma nova temporada, fica mais difícil lembrar o que aconteceu no ano anterior”, explica. Para o pesquisador, a ausência de um contato contínuo com a série também dificulta a criação de um vínculo mais duradouro com a produção.
Já Marcela Soalheiro, professora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, afirma que a incerteza em torno das produções para o streaming também contribui para afastar parte da audiência. “Encerramos uma temporada sem saber quando a próxima será lançada. Essas sensações de angústia e frustração podem gerar um desengajamento a médio prazo”, destaca.
A especialista acrescenta que a alta taxa de cancelamento de séries, aliada à falta de transparência sobre os critérios para renovação ou encerramento das produções, aumenta a insegurança dos assinantes e pode impactar diretamente a permanência deles nas plataformas.
“Se a plataforma não garante a continuidade da minha série favorita, por que manter esse gasto financeiro se há tanto conteúdo disponível em outras plataformas?”, questiona. A avaliação é reforçada por uma pesquisa da Opinion Box, de 2024, segundo a qual os principais fatores que influenciam a assinatura de um serviço de streaming são o preço e a disponibilidade dos filmes e séries preferidos dos usuários.
MUITO ALÉM DO DESINTERESSE
A queda de audiência entre temporadas é apenas um sintoma de uma transformação maior no entretenimento. Para os especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o streaming ainda tenta descobrir como manter o público engajado em um cenário marcado pelo excesso de lançamentos, pela concorrência de outras mídias e por novos hábitos de consumo.
Daniel afirma que o streaming vem reformulando suas convenções de produção, privilegiando temporadas mais enxutas e narrativas fechadas. “Hoje em dia você vê muitas séries desenhadas para se completarem em uma única temporada, sabendo que uma renovação não é garantida”, pontua.
Após anos apostando em temporadas longas e lançamentos em massa, as plataformas também têm adaptado suas estratégias para enfrentar esse novo cenário. Além de investir em novos formatos, como esportes ao vivo e podcasts, a Netflix passou a apostar com mais frequência em minisséries e produções com histórias fechadas.
“O engajamento afetivo dos espectadores deve ser tratado como um ativo importante pelas plataformas. Inundar o mercado com estreias de séries superficiais, desinteressantes, cujos ganchos não geram interesse, não é a solução para a manutenção dos consumidores na plataforma”, afirma Marcela.
Na avaliação de Daniel, essas mudanças refletem uma transformação mais ampla na forma como o entretenimento é produzido e consumido, impulsionada tanto pelo streaming quanto pela popularização de plataformas de vídeos curtos e outras formas de consumo digital.
Para ele, o mercado ainda busca entender quais modelos são mais eficientes para manter o público engajado ao longo do tempo. “As empresas ainda estão experimentando. Elas testam o que faz sentido com base na experiência que já têm com a televisão e o cinema, mas ainda estão entendendo o que funciona para este momento da indústria”, finaliza.







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